sexta-feira, 23 de março de 2012

Velho Chico, nosso professor





Foi com muita tristeza que recebi a notícia da morte de Chico Anísio. Tristeza pela saudade, porque aho que era mesmo hora do grande professor descansar. Uma luta dura contra um doença aqui outra acolá e a velhice que já lhe impunha suas restrições. Oh, país duro para se ser velho. Mas este é outro assunto.


Chico Anísio é um dos maiores gênios brasileiros. Grande artista, homem de Teatro, Rádio e Televisão, sem dúvida influenciou uma geração de comediantes, mas sobre isso você poderá ler em muitas reportagens.


Quero falar aqui de como foi ter crescido com seus personagens, como é ser atriz e fazer parte de uma geração que tem nas centenas (se não milhares) de personagens seus uma referência. Mais do que persoangens: são tipos, alegorias, uma infinidade de seres, personalidades que povoam o imaginário do povo brasileiro.

Tem o político, o pai de santo, o jogador de futebol, o ator (um dos meus favoritos, Alberto Roberto), tem pastor evangélico, tem fofoqueira de alta classe, tem vampiro brasileiro, tem jovem, tem malandro, tem abestralhado, meu deus, como um único ser humano pode ser povoado de tanta gente, de tanta ideia, de tanta beleza?

Chico Anísio foi uma luz, uma estrela de grandeza infinita, de brilho contínuo que tocou sua própria carreira com maestria e talento.

Talvez o mais expressivo de todos os personagens do Velho Chico (esse nosso rio de talento) seja o Professor Raimundo, que no nome já traz tudo aquilo que era. Professor por natureza, por instinto, por profissão. E Raimundo, esse gira-mundo nordestino, teimoso e de cabeça grande (oh, para caber tanta gente...) que ousou unir num mesmo programa n década de 90 (A Escolinha do Professor Raimundo) os velhos atores abandonados que, como ele, viveram os tempos áureos do rádio e do teatro de Revista.

Rever seu programa hoje no Canal Viva é uma doce lembrança para nós e uma grande novidade para meus filhos.

Além da contudência e extravagância de sua genialidade nas interpretações, os textos de seus personagens eram muito bem construídos, tinham a capacidade de síntese dos tempos em que foram construídos. Chico dialogava com seu tempo de forma criativa e foi por isso que todo seu arsenal de personalidades desembocou num professor.

Durante um tempo, foi esquecido, abandonado e chegou a fazer participações em Malhação. Depois, tentou-se fazer programas de fim de ano com ele, mas os tempos já haviam mudado demais para suportar a inteligência do mestre e os programas, no conjunto, acabavam meio medíocres.


Como Charles Chaplin, que ao fim da vida viu seu trabalho perder força para as novas demandas do novo tempo, Chico Anísio (que não obteve reconhecimento mundial como inglês, talvez pelo simples fato de ser brasileiro, e portante estar na periferia do mundo) envelheceu vendo a mediocridade imperar, vendo os falsos-talentos ocuparem lugares importantes na televisão, vendo a falsa moralidade tomar conta da produção artística e da teledramaturgia. Viu o humor reduzir-se a piadas de mal gosto e pouca inteligência. Teve que ver ainda, coitado, o alvorecer de uma Stand Up Comedy mal feita, copiada de tipos sem-graça americanos que passariam vergonha diante de Chico Anísio> Nem parece que nós tínhamos aqui o maior gênio da comédia de um homem só. Deve ter-lhe doído ver o esforço dos filhos, sem ter, no entanto, uma quinta parte de seu talento.

Morre esse grande professor, artista, essa referência, esse grande homem.

Mando daqui meu abraço, como atriz dada às comédias, como mulher que cresceu vendo seus personagens, que na infância eu os acreditava verdadeiros e como professora que com um salário "Ó" aprendeu muito com ele e espera conseguir ensinar uma ínfima parte do que seu talento nos ensinou.

Descanse em Paz, professor!!!


domingo, 18 de março de 2012

Susan Kalik, a Midas do teatro baiano

Susan Kalik, a grande produtora do teatro baiano atual
Se ela está na produção, meu amigo, pode dormir sossegado.

Dona de uma invejável competência e de um talento raramente compatíveis com doçura e simpatia, Susan é "o cara" do teatro baiano no momento.

Eu adoraria ter feito uma entrevista com ela, mas a coisa me bateu de rompante e o que não se faz agora, vira saudade, lamento.

Acabo de passear pelo blog do MUST - MOSTRA UNIVERSITÁRIA SALVADOR DE TEATRO e vejo o que essa menina é capaz de fazer com qualquer evento com o qual se envolve. Seriedade, trabalho duro e um resultado belíssimo que parece ter sido feito por uma equipe muito bem articulada, bem orientada e sobretudo bem estimulada por sua líder.

Tive o prazer de ser professora de Susan, lá na Escola de Teatro, quando eu ainda começava minha carreira como professora universitária e ela estudava Direção Teatral. Do conteúdo eu levava pouca coisa, se comparado aos professores de carreira. Eu ali, timidamente tentando acertar. O que mais me apetecia nas aulas eram as discussões políticas, as provocações e os questionamentos. Desde lá, sua inteligência e maturidade já eram evidentes e sua passagem pela Escola foi brilhante.

Doralinas e Marias de Cecília Raiffer, no FIAC/2009

Depois voltei a trabalhar com Susan rapidinho, no FIAC onde apresentei Doralinas e Marias de Cecília Raiffer e ali o que mais me chamou a atenção foi sua capacidade de manter a calma, de ser gentil e generosa num meio onde se entenderia até um pouco mais de ânimos exaltados - a gente sabe com o é produção de Festival. Mas, ela falava com cada um de nós, olhava no olho, perguntava o que precisávamos e era sempre muito sincera.

Sei que Susan está metida com boa parte da produção teatral em nosso estado e fora dele, pois se eu não estou errada ela tem viajado Bahia afora com espetáculos diversos.

Sei que ela se envolve, mas não perde tempo com a parte vil das discussões pífias e arrogantes sobre o teatro baiano, com birras e provocações a respeito de políticas públicas em nosso estado, com isso ou com aquilo que alimenta discussões monótonas e improdutivas sobre o nosso universo teatral.

Susan opta, pelo que vejo, pelo argumento mais contundente e imbatível: O FAZER. Entre em qualquer post ou blog ou sei lá o que onde se digladiam titãs do teatro baiano. Não se encontrará um 'senão' sobre seu trabalho. Agora, entre em sites de divulgação, compre jornais, assista à TV, ou melhor, vá ao teatro. Lá, em vários palcos, você com certeza encontrará seu nome vinculado à produção. Se existe algo mais nobre e digno em relação ao fazer artístico, eu realmente desconheço.

Parabéns Susan, pelo MUST, pelo FIAC, por todas as peças que você vem produzindo e dirigindo.

Parabéns pelo seu comprometimento e talento. Você é parte fundamental do teatro baiano.

Evoé, Susan Kalik!!!!


ALGUMAS DAS PRODUÇÕES ONDE SUSAN METEU A MÃO:

Mostra Universitária de Salvador
Namíbia, Não!
Shirê Obá - A Festa do Rei

Meu nome é Mentira

quarta-feira, 14 de março de 2012

DOS RISCOS DE SE MISTURAR CIÊNCIA E ARTE NUM MESMO TUBO DE ENSAIO

Prezados leitores. Este post é um desabafo. Uma socialização de dor e de espanto.


Por muito tempo debatemos na nossa área de pesquisa em arte, quer seja nos encontros da ABRACE - Associação Brasileira da Pesquisa em Artes - quer seja nas nossas salas de mestrado e doutorado, ou ainda nos botecos para onde vamos geralmente depois da aula, sobre o embate cotidiano do universo da pesquisa acadêmica, com o universo da arte.

E debatemos sobre muitos aspectos.

Sobre o uso de parâmetros de um para medir o outro. Sobre a possibilidade, a necessitade e mesmo sobre a vontade que temos, nós artistas, de acharmos uma equação possível para a prática da pesquisa científica a partir de nosso próprio universo, que é o universo da criação, da transgressão, da desobediência que eu insisto em proclamar, mas, sobretudo da subjetividade. Como fazer pesquisa acadêmica, com rigor científico, se estamos trabalhando com subjetividades?


Ora, pra mim, se não parece simples é ao menos cabível supor que a única saída é repensarmos os conceitos científicos e acadêmicos. Mais do que endurecermos as pesquisas em artes, seria o caso de amolecermos a ciência e não entendam aqui amolecer num sentido de torná-la pior, menos importante ou menos exigente. É só rever os parâmetros.

Posso parecer ingênua, mas não estou louca, muito  menos só. Numa das disciplinas de doutorado, estudamos inúmeros textos que tratam sobre a necessidade urgente de novos paradigmas para a pesquisa científica e a maioria destes textos indica que se a ciência se inspirasse nos modelos de pesquisa da experiência artística, estando diretamente associada ao que existe de mais vital que é a própria contigência de estar vivo, o universo científico não teria se perdido num emaranhado de fórmulas prontas e equações duras onde muito pouca coisa cabe.

Onde quero chegar?

Acabo de receber um parecer técnico sobre uma proposta de publicação da minha dissertação de mestrado, onde discuto sobre os aspectos artísticos, mais especificamente cênicos e dramatúrgicos do futebol, que a mairia de vocês estpa careca de saber.

Neste parecer, para minha surpresa, alcancei a tão temida por nosso gênio maior, o centenário Nelson Rodrigues, unanimidade.


Sim, eu sou uma unanimidade!

Num universo de 1 a 7, eu consegui a proeza de tirar a menor nota (1) em todos, eu disse todos os 7 quesitos de avaliação do projeto.

Segue a análise do parecerista:

Consistência do tema e do conteúdo com a área do saber: 1
Relevância técnico-científica: 1
Criatividade e inovação da abordagem: 1
Relevância das referências e fundamentação teórica: 1
Coerência entre resultados e problematização da pesquisa: 1
Clareza e objetividade da linguagem: 1
Avaliação Global da qualidade da obra: 1

E segue com o parecer:

O MANUSCRITO EM QUESTÃO, ALÉM DE VÁRIOS ERROS ORTOGRÁFICOS E DE DIGITAÇÃO, FRASES TRUNCADAS, ETC, NÃO REÚNE CONTEÚDO TÉCNICO CIENTÍFICO SUFICIENTE PARA A DEMONSTRAÇÃO DA TESE. OS CONCEITOS TEÓRICOS UTILIZADOS SÃO DEFICIENTES, SUPERFICIAIS, E NÃO SUSTENTAM AS ARGUMENTAÇÕES DO AUTOR, FRAGILIZANDO TODO O CORPO DA PESQUISA. O TRABALHO NÃO POSSUI RIGOR CIENTÍFICO NECESSÁRIO A UM TEXTO ACADÊMICO COM PRETENSÃO DE PUBLICAÇÃO. A OBRA EM TODA SUA EXTENSÃO NÃO ALCANÇA MINIMAMENTE OS QUESITOS DE QUALIDADE NECESSÁRIOS A UMA OBRA ACADÊMICA. NOSSO PARECER NÃO É FAVORÁVEL À PUBLICAÇÃO.

Gente.

É claro que eu entro num edital de publicação sabendo que eu posso ser contemplada ou não.
É claro que, apesar de ter sido aprovada com distinção por um Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas que tem a  nota máxima no conceito da CAPES (6,0) eu reconheço que a obra tem suas fragilidades, afinal de contas trata-se de uma dissertação de mestrado, que se configura ainda como introdução à pesquisa acadêmica.

É claro que eu ouviria de bom grado as considerações do parecerista, caso as houvesse. Mas, honestamente, não há! O que há, a meu ver, é uma completa tirania de grupos que se engessaram no poder e que se sentem no direito de avaliar a produção de uma pesquisadora séria como provavelmente eles são, mas que teve a infeliz ideia de atuar num ramo marginal, subjulgado, despreazado e por que não, temido pelo poder hegemônico de algumas áreas do conhecimento.


Mas, vamos por partes, como diria Jack:

Como se avalia a consistência do tema e do conteúdo neste caso? Não é consistente falar de cena, de drama e de rito a partir da análise do futebol?
Por que não?
Pra quem não?

E a relevância técnico científica? Estamos à beira de uma Copa do Mundo em nosso país ou é impressão minha? O país respira futebol ou eu estou louca? Ah, isso é um assunto do mundo cotidiano. Não cabe na perfeição do universo teórico e acadêmico.

Não há criatividade e inovação na abordagem geral? Ok, me aponte então as obras que tratam do tema, porque eu as procurei e não as encontrei. Também avisa aos participantes dos eventos que eu frequento e diga a eles que eles enlouqueceram, que este tema não é inovador nem entusiasmante, como eles insistem em definir minha pesquisa.

E a relevância das referências e da fundamentaçaõ teórica? Ora, eu posso ter até escrito a chuva de abobrinhas como o parecer faz crer, mas vamos lá que eu me referencio em José Miguel, Wisnik (porque insisto em ler pesquisadores nacionais), Patrice Pavis, Johan Huizinga, Gerd Bornheim, Luigi Pareyson e aquele menino das 3 unidades, como é o nome dele? Ah, Aristóteles.
Oh, talvez me falte ter citado filósofos e não só gente de teatro.
Talvez me tenham faltado os europeus todos, os franceses sobretudo. É, aquela meia dúzia de nomes que os mais de 6 bilhões de habitantes do planeta têm obrigatoriamente que ler e que citar.

Clareza e objetividade da linguagem eu deixo pra vocês, leitores do blog julgarem se as possuo.

O texto corrido que joga todo meu sério trabalho na lama, também é pra mim fator de estranhamento, e infelizmente não é o brechtiano.


Eu acredito que por mais que pareça uma forte pancada na minha vaidade pessoal (e talvez o seja em alguma medida) o espanto e a indignação são justamente contrários à ideia de vaidade pessoal. Eu acho que esse parecer não é direcionado a mim como pessoa, ou como pesquisadora em particular, mas a toda um área de conhecimento.

Desculpem-me todos, mas eu não me julgo ser a nota mínima em todos os quesitos. Posso não estar dentro do que a instituição que lançou o edital espera, mas o que se diz nesse parecer é muito mais do que isso. Posso ser recusada por outros tantos editais, de outras tantas insituições e acho até justo, porque reconheço muitas fragilidades do meu trabalho. Mas o que fizeram aqui, foi excessivo.
Foi quase uma performance!!!

E este não é o grito de uma moleca que não sabe perder.
Não, não é.
Já perdi muitas coisas na minha vida.
Testes de aptidão, audições, editais, prêmios, concursos.
E aprendi muito com essas derrotas.
E sei que vou perder outras tantas coisas.
Já perdi um bebê na barriga e já perdi meu pai.
Mas tem um senso de justiça do qual eu não abro mão.
Não me revoltei quando perdi meu pai, porque sei que foi justo ele dedicar quase 70 anos de sua vida ao cigarro e morrer de câncer no pulmão.
É justo.
E este parecer não é justo!


Retomando o título deste post, o risco de se misturar ciência e arte não está na nossa prática, tão legítima, tão suada de construirmos nosso universo acadêmico em Arte, no qual inclusive o Brasil tem grande relevância, sobretudo a Bahia e o nosso Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, uma referência mundial em pesquisa em arte.

O nosso risco, pareceiros, é cotidiano, é ordinário. Nós o experimentamos sempre e estamos com ele durante toda a nossa prática criativa, sobretudo a teatral e a futebolística.

O grande risco de se misutar ciência e arte pode estar na dança das cadeiras, pode estar na desestruturação passível e possível  de acontecer no universo acadêmico e em toda a sociedade.

E à desestruturação... ah, a essa nem todos estão acostumados. Não como nós artistas, desestruturados e desestruturantes por natureza.

Mas, felizmente, somos um fato. Existimos e estamos aí, aqui, acolá, fazendo barulho, promovendo revoluções.
Não fosse isso, não mereceríamos tratamento como este que a mim foi dispensado e que, honestamente, não julgo ter sido pessoal.

Tem nada, não! Só não vou publicar minha pesquisa agora. Vou ali dar minhas aulas, montar meus espetáculos, fazer meu doutorado. Acariciar meus filhos, beijar meu marido.
Só não queria ficar calada. Atrizes não se calam!

Poderia terminar o texto com os passarões e passarinhos de Mário Quintana, mas vou ficar com a contudência da Poeta Pagu, pela cumplicidade do gênero (só há homens nas ilustrações, credo!) e pela insistência na delícia de sermos o que somos:

"Este crime, o crime sagrado de divergir e ser consequente, nós o cometeremos sempre!"



É Bolada, pesquisador-artista!!! 
 (Homenagem ao blog www.futeboldeartista.blogspot.com)

terça-feira, 6 de março de 2012

60 e ASSISTE: Uma Hora de Puro Teatro

Eita blog abandonado, meu Deus. Mas é que é muito filho pra criar. Dedicação total ao curso de Licenciatura em Artes com Formação em Teatro e Dança, na UESB Jequié.

E é de lá que vêm as novidades para o artista espectador, seguidor deste blog.

No dia 28 de Fevereiro, estreamos um projeto inspirado no ATO DE 4 da Escola de Teatro da UFBA ( nossa irmã). É o 60 E ASSISTE, uma Hora de Puro Teatro.

60 e assiste: uma hora de puro teatro

Neste projeto, que começa como resultado prático de disciplinas do 2º semestre, onde misturam-se estudantes de dança e de teatro, mas que pretende ser um projeto contínuo, cinco cenas curtas são apresentadas todas as terças às 19h no Auditório Administrativo (que precisa ser rebatizado) do Campus Jequié.

Gente, e que alegria foi acompanhar estes meninos produzindo tanta beleza!!!

As cenas foram criadas a partir de um jogo com texto escrito. O texto foi O Tio Vânia de Anton Tcheckov. Foi distribuído para toda a turma, o mesmo fragmento do texto, numa versão completamente sem pontuação. As palavras seguidas umas das outras, perdiam completamente o sentido em si. Estávamos trabalhando aí a noção de paradigma e sintagma. Todos de posse do mesmo original, passaram a construir diferentes cenas.

O resultado cênico foi apresentado uma primeira vez, no pátio. Em seguida foram feitas leituras da turma sobre as cenas assistidas e a intevenção da professora (eu). E como é difícil a gente se livrar do horizonte realista impregnado em nós pela hegemonia da telenovela. E como é difícil aceitar que gesto é discurso, que cor é sentimento, que silêncio é frase!

Depois disso, partimos para as noções de signos teatrais. Também trabalhamos com o estudo da linguagem corporal a partir de Peter Weil e Ronald Tapakow, com a obra O CORPO FALA. Estudamos a relação das partes do corpo e seus discursos:

CABEÇA - ÁGUIA - MENTE/INTELECTO
TÓRAX - LEÃO - SENTIMENTO
QUADRIL - BOI - INSTINTO

A partir destes e de outros estudos teórico-práticos, os grupos voltaram ao trabalho e refizeram suas cenas, incremetaram suas dramaturgias, reconstruíram seus personagens.

Os resultados estãos sendo apresentados neste projeto. Nele, sinto-me plena como pessoa, professora, artista e plateia.

Vejo a beleza de artistas iniciantes que confiam na minha orientação e se atiram precipício abaixo, sem medo do que tem lá embaixo esperando por eles. Loucos!!! Mal sabem eles que eu também não sei de nada!

Vejo a beleza de olhinhos brilhando no palco e no público. Vejo um grupo de estudantes mobilizados pela produção artística na criação de um evento transformador que mexe com toda a faculdade.

Vi uma plateia lotada de gente que eu não imaginei que viria ver o nosso trabalho tão despretensioso. Vi as cadeiras lotadas em poucos minutos e gente se espalhando pelo chão.
Vi crianças de um grupo de teatro de uma das estudantes do curso, correndo, chegando na portacom seus olhinhos infatis e famintos perguntando à queima roupa: "O TEATRO É AQUI?"
Com muito prazer, respondi: "SIM, MEU AMOR, O TEATRO É AQUI!"

Vi o grupo se ajudando e se revezando nas funções técnicas, de contra-regragem, produção, divulgação.

Enfim, vi tudo aquilo que a arte é capaz de nos mostrar: um povo realizado. Uma alegria profunda por se entender como gente.
Gente criativa gozando do direito de ser livre e desobediente.

Vi a transgressão criando novas realidades.
E vi, ao fim da noite, no espelho do banheiro, uma professora feliz.

Vejam vocês também, fragmentos desse momento:

FOTOS: Aroldo Fernandes

Chamada do público no pátio

Respeitável Público

Joadson Prado e Luanna Azevedo em DUO HOSPÍCIO

Joadson Prado

Joadson Prado

Luanna Azevedo

Mais plateia

Mylena Edna, Mabel Almeida e Ana Barroso em ANESTESIA

Ana Barroso

Ana Barroso e Mabel Almeida

Mabel Almeida e Mylena Edna

Silvana Souza e Eliana Santos em ESTÃO CHEGANDO OS CAVALOS

Silvana Souza, Eliana Santos e Gecy Melo

Vicente de Paulo em CAESTOU

Vicente de Paulo e Caio Braga

Caio Braga e Flávia Sanctos

Solange Souza em PAU PEDRA

Everton Paixão, Solange Souza e Gil Rufino


Grupo de estudantes ao final das apresentações

Hoje tem mais. Com cenas novas, estudantes estreando. Até o final do Mês teremos ainda as cenas PRECIPÍCIO, SEGREDOS e VOCÊ ESTÁ FALANDO GREGO, PROFESSORA? esta última resultado da disciplina optativa FUNDAMENTOS DO TEATRO GREGO, também ministrada por mim.

A alegria é sempre muito grande e fundamenta-se (já que estamos falando tanto de fundamentos) na certeza de que se há alguma prática que pode servir de modelo e inspiração para a educação no terceiro milênio, uma educação que faça sentido e da qual o estudante se sinta de fato participante, esta prática é a experiência estética. Afinal, o que nos configura como raça é essa capacidade criadora de que tanto nos fala Fayga Ostrower, este nosso potencial criativo que nos transforma e ao mesmo tempo nos configura.

EVOÉ, JEQUIÉ!!!


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domingo, 15 de janeiro de 2012

DE NÃO-INDICADOS E OCUPADOS, SALVADOR VAI SE AGITANDO

Eu sei que começo de ano é época de fazermos uma retrospectiva do ano que passou. Mas 2012 (o último, queira Deus) chegou com tudo, pra dar tempo, né...

Em Conquista, muita família, bicicleta, filmes, friozinho e investidas em mim mesma. Tá ótimo.



Em Jequié, um lindo processo de 2ª fase do Vestibular para Teatro e Dança da UESB com as provas de habilidades específicas. Sem palavras (até porque não pode.) Ainda em Jequié, pude ver o belíssimo trabalho do IMPÉRIO CIRKUS, uma família linda, onde todos fazem tudo e apresentam um delicioso espetáculo completo. Ia fazer um post sobre eles, mas as viagens me afastaram do computador e cá pra nós, eu adoro ficar longe dele. Talvez ainda faça, em homenagem à família e ao meu amigo Reginaldo Carvalho, de quem eu lembrei durante todo o evento.


Em Salvador, o babado corre solto. DESOCUPA SALVADOR é um movimento que ocupa as páginas do Face e nos cobre de orgulho. Ainda ontem, fomos ao Pelô à pé pela Avenida Sete e constatamos que ir embora foi de fato a melhor saída. Sujeira, ambulantes desordenados, carros nas calçadas, ui, que cansaço de Salvador. Desculpa gente, eu tô na torcida, mas perdi as forças para lutar por esta cidade. O movimento foi forte, foi organizado e contou com uma juíza louca para ajudar na divulgação. A meretíssima (será que eu posso falar assim num blog ou posso ser presa por desacato?) achou de proibir a manifestação, achando ela que estamos do outro lado do mundo e sem primavera... enfim, valeu pela polêmica gerada.



Ah,  por falar em polêmica, tá rolando um bafon com os não indicados ao Prêmio Braskem de Teatro.


Oh, gente, é pra rir, né.

Depois do babado todo do FIAC, já era pra ter aprendido, né não?

Eu que já fui recusada em tanto festival e nunca fui indicada a um prêmio sei bem que dor é essa. Mas, meu silêncio frustrado e dolorido me dá o direito de rir e achar ridícula a chuva de manifestações ditas justas, mas justo quando não são lembrados. KKKK. Bem vindos ao clube, grandes homens de teatro. Eu de cá, indicada ou não, festivada ou não, sempre respeitei - sobretudo no âmbito público (porque ás vezes, em casa, com as janelas fechadas a gente diz as nossas, né) os envolvidos no processo, sobretudo quando são profissionais de valor reconhecido e de muito trabalho realizado, trabalho que talvez boa parte dos que estão engrossando o coro dos descontentes, jamais se dedicou a fazer.

Lembremos que a comissão não é um conselho e é convidada a assistir, avaliar e julgar a partir de seus próprios princípios, vivências, compreensões, e - por que não - seu próprio gosto. Não se trata de uma câmara de vereadores com representantes do povo que devem prestar contas de suas ações. Se não gosta do Prêmio, por que nunca recusou? Por que nunca se recusou a ser indicado? Ou por que nunca disse: "Olha, esse ano eu acho que não deveria ser indicado, não, porque, honestamente, tem coisa melhor do que meu trabalho esse ano pra ser indicado..." Ah, faça-me o favor.

Depois vem pra cá dizer que os novatos ou 'comunitários' fazem do teatro da Bahia (sempre a genralização) um teatro amador, pouco profissional. O que fode com o nosso meio teatral é essa meia dúzia de viúvas apegadas que não se conformam com um ano sem láureas e puxações de saco.



E por falar em saco, enchi o meu desse assunto. Vocês que são de teatro-profissional é que se entendam. Eu ontem assisti  A Malvada (ou no original ALL ABOUT EVE) e fiquei horas refletindo sobre seus diálogos primorosos, sobre a atuação de Bette Davis (a cara de Marrion Cottilard) e sobre o que eu entendo por teatro e o que tenho feito e tenho sonhado em sua direção. Como é bom ouvir quem tem o que dizer.





E assim vai correndo este ano de 2012, ano de sexta-feira 13, ano bissexto, ano de Nostradamus e Calendário Maia. Ano de qualificação, mudanças, direção didática de Plínio Marcos, quem sabe um grande evento de Artes Cências, enfim, mil coisas, mil coisas acontecendo pra eu ficar me envolvendo com vaidosas e esvaziadas polêmicas. Eu de cá, dou é muita da risada, porque rico não é aquele que tem muito, mas sim aquele que precisa de pouco.


Feliz e agitado 2012, caríssismos espectadores.



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sábado, 10 de dezembro de 2011

INDO EMBORA DE VOLTA

Hoje é oficialmente meu último dia em Salvador. Foram, nesta última edição, doze anos e três meses morando nesta cidade que, por ora, não amo mais.

Há um misto de alegria, alívio, ansiedade, expectativa e, por que não, medo, tristeza e saudade. Sim, um shake de sentimentos.

Quando partimos de um lugar, inevitavelmente nos aventuramos em outro. Ah, quem me dera sair de um e poder não ir para outro. Experimentar um não -lugar para descansar. Mas, não posso. Não aqui neste mundo limitado.

Arrumar as malas é tarefa dolorosa. Se deixo Salvador, essa terra que se estraga, também deixo minha casa, meu apê que tem tanta história pra contar e que deu tanto trabalho pra comprar.

Deixo as janelas imensas e o taco de madeira que tanto amo.
Deixo o pequeno quintal, portal de alegria e estádio de futebol de meu pequeno.
Deixo o vento e a lua que entram pela janela.
Deixo as portas coloridas e a grande estante de livros.

Mas também deixo o aperto, a sujeira de apartamento velho, o guarda roupa caindo aos pedaços. Os tacos soltos que machucam o pé e a falta de sinal do celular. As grades que o ladrão me fez colocar, deixo também.

O corpo se acostuma à casa. O braço viciado ao interruptor leva tempo para aprender o novo lar.

Os bibelôs parecem temer que não haja espaço para eles, tantos que são, lembranças de viagens nossas e de amigos. Desejei tanto este dia chegar e hoje vivo-o como se estivesse fora de mim.

Mudarão a padaria, o mercadinho, o açougue. Mudará o ponto de ônibus. 
A escola das crianças, mudará também.
E o caminho feito já às cegas para a Escola de Teatro não servirá mais.

Mudará o número de telefone fixo. As revistas e cobranças não sabem mais pra onde ir e eu vivo o presente reconhecendo-o como memória.

E ao pegar  BR-116, esse monstro que me assusta, eu volto para o ponto de onde parti há 22 anos, criança ainda, para construir minha história.

Estudos, experiências, amigos inesquecíveis, dores, amores, prazeres.

Volto e minha casa já não é mais a mesma. É uma grande e bela casa, que meus pais reformaram com esmero, dedicação e trabalho, muito trabalho. Meus sobrinhos, nasceram e cresceram. A cidade, que era província, virou metrópole. Eu que era menina virei mulher. Meus cabelos enbranqueceram, minha pele amolece e a calma se instala aos poucos.

Assim como hoje, um dia eu soube, lá em janeiro de 1990 que era véspera da partida. No auge dos meus 15 anos outrora completados, eu sonnhava com o mundo que me esperava, sem ter a menor noção de como ele era. Só sabia que ele era novo e isso era vibrante.

Hoje, conheço  o caminho para o qual me conduzo. Já andei naquelas ruas, já comprei naquelas vendas. Já senti o cheiro daquelas árvores daquela praça com nome daquela santa.

Conheço o coração que me espera. De mãe que rezou pela minha volta durantes essas duas décadas, mesmo sabendo que essa volta era uma possibilidade remota. Conheço a irmã que me recebe com pureza nos olhos e um sorriso que não se cansa.

Conheço a tartaruga que desfila sua inteligência.

Conheço cada canto marcado pela presença de meu pai, que não esperou meu retorno.

Fazer as malas sempre será um ato poético.

Como o teatro que se renova sempre no fazer, partir ou voltar será sempre uma transgressão, um salto no abismo, um grito solto no ar. Por mais ensaios de marcação, por mais reconhecimento de cenário, figurino, luzes e adereços, a hora da estreia e cada nova sessão será sempre seguida de um friozinho na barriga, de mais uma ousadia da criação, de mais uma exposição e desafio.

Vou de volta ao que sempre fui e só volto EU, porque me recriei.

Viver assim, consciente de tudo o que não se sabe, dói, mas pelo menos é uma dor sabida.

Volto para a caatinga de Elomar, para os agudos de Xangai, para a poesia de Camilo de Jesus Lima, para o nervo de Glauber Rocha, para a melodia de Gilberto Gil. Volto para a neblina e para o biscoito avoador, volto para céu de Central do Brasil.


Aos amigos, muitos e tão queridos que fiz aqui, meu muito obrigada, minha eterna gratidão e lembrança e minhas portas abertas para recebê-los.

Despeço-me com as palavras de Elomar, que no momento descrevem e transcrevem todo meu sentimentos de catingueira errante, na belíssima canção  APERGUNTA:

"Só a terra que você dexô
Quinda tá lá num ritirou-se não.
Os povo, as gente, os bicho, as coisa tudo...
Uns ritirou-se in pirigrinação
Os otro, os mais véio, mais cabiçudo
Voltaro pru qui era: pru pó do chão"

"Mãe lua magrinha qui está no céu:
Será qui cuano eu chegue in minha terra
Ainda vou encontrá o qui é meu?"


E volto, para a cidade escondida atrás da Serra, que no final da viagem se revela e me encoraja a pedir sem meias palavras, do alto do Periperi, tal qual o Cristo de Mário Cravo:

"Abraça-me de volta, Conquista!"

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

AUGUSTO BOAL, ZELITO VIANA E EU

Gente, quanto tempo eu não apareço, né?

É bom que dá pra vocês lerem as postagens antigas, relerem as mais queridas e ficar na expectativa por um novo bate-papo.

Pois bem, tenho que dar uma paradinha na correria da vida uesbiana para escrever algo sobre o qual realmente não dá para não escrever.


Fazendo um dos jogos de Boal para aquecimento da plateia
Falo sobre o documentário do queridíssimo ZELITO VIANA sobre outro não menos querido AUGUSTO BOAL, esse nosso grande homem de teatro, de política, e de tudo de bom que se relaciona com o fato imponderável de estar vivo.

Como parte das comemorações pelos 30 ANOS DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA, os três campi - Vitória da Conquista, Itapetinga e Jequié - receberam a presença do diretor, para um bate papo sobre o documentário exibido, que ainda entrará em circuito comercial. Infelizmente, como vocês podem ver, a plateia foi tímida, mas só em número, viu, porque o debate foi ótimo. Valeu por quem foi!

Eu e Zelito Viana
A oportunidade foi das mais raras e deliciosas. Eu tive o prazer de dividir a mesa com ele, em Jequié e bater um papo com a plateia. Ele é uma figura ímpar. Acessível e simpático, boa conversa, olha nos olhos da gente, ouve, pergunta e faz a gente se sentir amigo de longas datas. Quer mais? Ele adora futebol! Vascaíno, tivemos bons momentos conversando sobre o assunto. Eu, de minha parte, esperei meia hora para ganhar intimidade e importuná-lo conversando sobre a minha verdadeira paixão por sua obra VILLA-LOBOS, UMA VIDA DE PAIXÃO, recitando quase todas as falas que eu sei de coração, porque, sem exagero, já devo ter assistido mais de 15 vezes. Eu morrendo de vergonha de tietar - o que inclui fotos, claro - e no final do jantar quando nos despedimos ele me confessou: "Fiquei emocionado por você saber quase todas as falas do filme!".

Mas, vamos chamar o Boal para a conversa, né.

O documentário, como o próprio Zelito comenta no debate, era pra ser um filme sobre o Teatro do Oprimido. Sua equipe acompanharia o trabalho de Boal pelo mundo, aplicando suas técnicas, o que resultaria na obra planejada. Porém, todos foram (ou melhor, fomos) surpreendidos com a partida do teatrólogo no comecinho do trabalho, quando ainda estavam sendo feitas entrevistas para fazer o roteiro do filme. De posse das imagens captadas até ali, Zelito esperou diminuir a dor da família e dos amigos, e decidiu fazer um filme com as imagens que tinha. Na sessão de exibição do Rio de Janeiro a comoção foi total e toda a plateia chorou junta a saudade de nosso Augusto diretor e professor.

O documentário deverá ser um divisor de águas na relação em que temos no Brasil com o Teatro do Oprimido. Estudado e aplicado em praticamente todos os continentes do mundo, o método desenvolvido por Boal sempre sofreu de grande preconceito em nosso próprio país. Primeiro por nossa reconhecida síndrome de colonizado, que não nos permite valorizar nada que é nosso. Segundo por nossa aversão a temas e realizações populares, a menos que elas sejam abordadas de forma folclórica, exótica ou romanceada. Se é um método que serve a pequenas manifestações de teatro em comunidades, presídios, casas de saúde mental, acampamento do MST, deve ser tratado do ponto de vista antropológico, e certamente, seu valor estético se reduz diante de sua função social, certo? Errado. Bela merda esse discurso que se reproduz ao infinito dentro das academias e dos programas de pós graduação espalhados pelo nosso país. Tanto a aprender ainda temos! Mas, enfim, deixa eu me acalmar aqui. Não posso negar que este quadro está mudando e repito, este filme será uma importante ferramenta neste processo.

O próprio Zelito diz que o filme ficou didático porque ele mesmo estava aprendendo sobre o método, já qu enão o conhecia diretamente, apesar de ser muito amigo de seu criador. Quando perguntado sobre a motivação de fazer o filme, ele diz que a admiração por Boal foi a porta de entrada. Boal, segundo ele, era um homem encantador, que acreditava na mudança da humanidade, da sociedade e que essa crença não era algo utópico, mas bastante concreto e contagiante. O lema de Boal, segundo seu amigo, era "cabeça nas nuvens, pés no chão e mãos à obra"! Isso chamava sua atenção!

O documentário, devo concordar com seu autor, é didático, mas para o bem e não como um defeito. Ele introduz o iniciante nas mais elementares informações sobre o método, mas vai muito além, trazendo depoimentos de pessoas dos mais diversos países, das mais diferentes culturas que aplicam o TO na luta contra as mais diversas e impensadas opressões. Para quem já conhece o método, como era o meu caso, pois eu já passei pela formação do TO através do Programa Ponto de Cultura e também porque estudo sua obra já há quase uma década, fica aquela certeza de que é de fato um grande método, que contribui para a prática de teatro, seu ensino e aprendizagem sua interferência contundente na sociedade.

E para quem gosta tanto de padrões internacionais para medir aquilo que presta e o que não presta, o trabalho de Boal ao redor do mundo compara-se, em importância e genialidade, ao trabalho de Stanislavski e Brecth. Para fechar o caixão da questão, basta dizer que a Royal Shakespeare Company o chamou para dirigir seus atores, para que eles se aproximassem de fato de Shakespeare e seu princípios de teatro popular. Deu, né?

A tempo: um grande abraço ao parceiro Esmon Primo, que com muita garra tem peitado boas brigas pelo cinema na uesb e na região. Abraço, querido, é muito bom trabalhar com sua euqipe!

Assim que souberem deste filme nos cinemas, não deixem de assistir. Quando sair em DVD não deixemos de invadir as escolas, associações, comunidades, famílias com esse material de importância ímpar para nossa prática teatral. E quando tiver um filme de Zelito Viana em cartaz, ou nas locadoras, não deixem de ver. Esses brasileiros são realmente figuras com as quais vale a pena estar por perto. Se não dá para estar perto deles pessoalmente, que estejamos com o melhor que eles têm: sua arte!

Confiram os trailers enquanto aguardam pelo filme:




segunda-feira, 24 de outubro de 2011

DEFINIÇÃO DE BELO POR Elomar Figueira Mello



"A poesia é um texto oral, ou escrito, que pode estar preso a uma forma, ou não, ou uma forma livre, texto esse que para diferenciar de todos os demais textos como poesia, tem que trazer uma característica... qual é a característica que define, que separa um texto poético dos outros? Que marca profunda o texto tem que ter pra ser poesia? Essa é a pergunta.

Então, poesia é todo texto que nos traz um conceito sólido, firme ou vazio contanto que, para ser poesia, ele tem que nos tocar, nos abalar, nos sacudir. Ele tem que trazer em si, sabe o quê? A essência do Belo. Ela tem que ter a essencialidade do belo. O belo excelso. O texto que traz a excelsitude da beleza, isso eu chamo poesia!

Agora, dentro da poesia, por exemplo, existem poesias medianas, medíocres - que não deixam de ser poesia - e a poesia excelsua, soberana, majestosa, eloquente, grandiloquente, que quando chega nessa altura passa a ser obra prima. E se alguém me pergunte: O que é uma poesia excelsa, obra prima pra você Elomar? Não só na poesia mas na arte em geral, o Belo pra mim, é tudo aquilo que, além de nos fazer dar um leve arrepio, a mim, quer me levar uma ponta de inveja e na hora eu seguro e não tenho inveja de quem fez. Isso pra mim é a obra prima. É quando eu leio e falo: Puxa vida, porque é que eu não fiz isso? Mas aí na merma hora eu corrijo: mas eu posso fazer. Quer dizer, eu não fico no reino da inveja. É aquilo que desponta um pouquinho de despeita na gente porque a gente não fez aquilo.

Essa é uma confissão clara que eu tô fazeno aqui, realmente, que qualquer poeta puro ele tem que se confessar assim, porque senão ele tá sendo hipócrita. Vem uma vontade de sentir inveja, mas uma consciência superior, né, uma auto-crítica nossa diz: Não, cê num tem que ter inveja, nem precisa, cê pode chegar até a fazer maior, mais bela do que essa."

(...)

A poesia excelsua tem forma, tem eloquência, tem elgância, e sobretudo, que nos põe a imaginar junto com opoeta, com o demiurgo que fez a própria poesia. Nós viajamos com ele no poema dele. Ele nos conscita a, mesmo não sendo poeta, ele conscita-nos a sermos poetas também, a poetar com ele na viagem da coisa, da grande imaginação que ele fez.

... Rancou... três cadernos meus, espriralados. Só ficaram as capas encostadas. Ela arrancou as páginas durante os invernos. Poesia dos 15 aos 20 pra acender fogo de manhã cedo. Aí eu clamei pra ela: Mas, mãe, a senhora fez uma miséria dessa...

'Bestage, menino, cê escreve outros.'

Oh, gente, foi a resposta ingênua que ela deu, como se a poesia tivesse assim à mão, ao alcance, dentro do bolso, pra tirar, né.

É num instante que a poesia chega. Ela é mágica!!!"


Elomar Figueira Melo






Faixas 15, 16 e 17 do cd que acompanha o livro Tramas do Sagrado - A poética do sertão de Elomar de Simone Guerreiro.