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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A faca e o corte: de que trata, afinal, o Circo de Soleinildo?

Texto elaborado a quatro mãos, por Adriana Amorim e Hannah Abnner.
Fotos produzidas e gentilmente cedidas por: Erica Daniela

Parte da fila para entrar - ESTREIA DO PROJETO VERÃO CÊNICO/2013

A acomodação da plateia levou quase uma hora
Ontem foi a estreia da edição 2013 do projeto da FUNCEB (Fundação Cultural do Estado da Bahia) órgão da Secretaria de Cultura, VERÃO CÊNICO. Diferente da edição do ano passado, quando a adesão do público parece ter sido baixa, a repercussão dessa nova edição desde o começo do mês já dava sinais de que seria um evento bem sucedido.

Não sei como foi nas outras cidades, mas aqui em Conquista, sucesso é pouco para definir esta abertura.

O saguão do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima estava completamente tomado por um público majoritariamente jovem, organizado em duas filas que faziam lindas e sugestivas curvas tanto para a compra do bilhete (R$ 1,00 a inteira e 0,50 a meia) e outra para entrar. Já dali se via um belo espetáculo.

A cena era ainda mais bela posto que ao fundo, nas paredes do Centro, as lindas pinturas de J. Murilo a partir do universo de Guimarães Rosa preenchiam nossos olhos e almas. Lindas pinturas em tela, em madeira e umas mais lindas ainda numas molduras de janelas antigas que eu enlouqueci de deleite.

Do lado de fora um lindo mural em papel metro, desenhado com carvão, eu acho, lindo demais. Umas das belas obras do artista plástico Arisson Sena, autor também  do Rola-bosta que fica no jardim do Centro de Cultura.(aguardando o nome das obras).

Completavam a cena a presença do próprio Camilo de Jesus Lima (interpretado por ator local) e duas personagens que não sei se devo chamar de travestis ou Drag Queens, mas uma delícia de mestres de cerimônias. Enfim, uma festa sempre completada pelo vendedor de cachaça e o tiozinho das balas.

Na entrada uma coisa de gente! Cadeiras extras pra lá e pra cá. Muita gente transgredindo as fitas que isolavam as cadeiras de onde não se teria um visão boa da peça. Invasão da área central, onde, colado ao palco foi montado o cenário (o espetáculo desceu, recusando usar o distante palco principal). De novo, uma festa!

Mas, vamos ao espetáculo?
E esse não é um convite à toa. Não no caso desta peça. O Circo de Soleinildo é daquelas obras que de tão simples, mas de tão simples, a gente pára e quase nem respira. Sabe aquelas obras que a gente sente que nos melhoram como pessoa? Aquela que a gente pensa, como não haviam feito isso antes? O Circo... é assim.



E em sua metalinguagem O Circo de Soleinildo fala mais, muito mais do que da vida de artista. Porque eu, honestamente, acho que o artista é um extrato pleno e vigoroso do ser humano. A gente representa o exagero de tudo aquilo que todo mundo tem, mas a gente assume, a gente aumenta, a gente estrangula ao máximo tudo o que passa por nós.

A dor e a solidão, a insegurança, a tristeza, a dúvida, a vontade de continuar, o medo de parar, aquele sentimento de 'e agora?' esses sentimentos todos são de todos nós, mas o artista, sempre em sua vida e em sua obra, os viverá intensa e declaradamente.

Tentando diminuir a tristeza de Solenildo
É tanta coisa para se dizer deste espetáculo que eu vou pular as partes sobre as quais muito já se falou. Eu não vou falar que o texto dramático é primoroso, que a encenação é irretocável, que os elementos de cena são todos de uma delicadeza e qualidade estética que nos envolve sem possibilidade de volta. Também não vou falar da simplicidade e do primor do trabalho dos atores, no ponto, envolvidos, íntimos em seu conjunto. Posso também abrir mão de dizer que Sérgio e Shirley optam por uma direção limpa e delicada, simples e contundente, muito, muito arriscada, que só se completa por conta da intimidade que o elenco desenvolveu.

E já que (não) estou falando do elenco, me permitam os homens (ótimos atores) fazer um revelação: Soleinildo é mulher! Calma, calma, eu não estou falando aqui ingenuamente, como se ninguém soubesse, que Soleinildo é interpretado por uma atriz.

Isac Flores com expressiva tristeza e fragilidade
Eu estou dizendo que o espetáculo (e tudo o que ele representa) é delas. É elas! E os atores, brilhantemente parecem entender isso e em cena estão ali a serviço delas. Assim, Cristiano Martins e Isac Flores fazem um primoroso trabalho de delicadeza e de companheirismo. Irreparável. Aqui, delicados são os homens! E isso é lindo demais!

Shirley Ferreira é uma coisa! Uma diva! Eu já havia assistido ao espetáculo no Festival da Juventude na Praça Barão do Rio Branco em Conquista no ano passado com outra atriz, Iara Barbosa, também muito boa, mas que trazia uma leveza à personagem. Ria-se das mesmas cenas com Iara Barbosa, sem tanto pesar e dor quanto se ri das cenas supostamente cômicas com Shirley Ferreira. Em cena, essa atriz brilhante (eu não tenho nenhum pudor em dizer isso) transformada pela maquiagem e pelo figurino é o próprio peso da solidão e da experiência. Cada cena sua, cada gesto é de fazer chorar. Seu olhar afunda a gente e a peça nos trespassa sem chance de dizermos NÃO!.

Shirley Ferreira em cena. Aguenta coração!

Que mulher é essa que olha pra gente e a gente congela? Que abre a boa e a terra treme? Eu realmente não tenho códigos para decifrar Shirley Ferreira! Só sei sentí-la!

Kécia Prado dá vida a Solenildo

E o monstrinho é esse que faz Soleinildo? Olhando desavisadamente, Kécia Prado parece pequena, frágil, um sorriso de menina. Mas a danada abre a boca e sai de baixo. Um vozerão que nem Soleinildo teria, se falasse. E essa ambiguidade de menina e leão é fundamental para a construção daquele patriarca do circo, daquela figura altiva e frágil ao mesmo tempo, para quem a família de atores dedica todo seu carinho, toda sua preocupação e devoção. O solo do personagem com capote (aquela alma sem corpo), diante da imóvel plateia construída pelos amigos fiéis é de matar um do coração. Um simples número de palhaço, já conhecido até, se torna um momento de puro enlevo.




A descoberta da cruel realidade e a revelação da aparentemente ingênua brincadeira com o Cirque du Soleil também é rápida, mas dolorosa. O ator que volta para reconstituir o nome original da trupe, toca tão silenciosamente em nossa vaidade porque nos diz em alto e bom som: 'seremos, sim, o que somos, custe o que custar'.

Esse espetáculo lembra, e foi Hannah, parceira de análise, que se deu conta, o filme de animação O Mágico, de Sylvain Chomet, mesmo realizador de As Bicicletas de Beleville. Esta obra, como a peça da Operakata, trata lindamente, apesar da crueldade encerrada em ambas, da vida do artista, da crueldade do mercado e da nossa incapacidade de viver sem isso.



Cristiano Martins e Shirley Ferreira na emblemática cena do atirador de facas
Para encerrar esse post imenso que eu não consigo terminar nunca, quero voltar-me à imagem da faca, por ser um número emblemático, muito engraçado, que reúne tensão, graça, revelação, mímese, enfim, todos os elementos que estão na obra como um todo. Mas não só por isso. Quero acessar a imagem da faca, do corte, da facada que levamos dia após dia, quer sejamos trabalhadores do palco ou do escritório. Quero falar das tantas farsas que produzimos na vida, de como forjamos números, de como fazemos cena. E essas tapeações que promovemos para os outros e na maioria das vezes para nós mesmos, ah, como elas são frágeis e num espirro se revelam.

Esse público que nunca vem, não é só para os artistas. A decisão entre ceder às demandas de fora e responder aos impulsos internos, eu insisto, não é só de artistas. Quantos bancários, secretárias, professoras, balconistas, domésticas, médicos, motoristas, advogados, abriram mão de suas verdadeiras aspirações para se render a uma vida que lhe garantiram ser melhor do que aquela que eles sentiam pulsar lá dentro. Ai, que isso tá ficando cafona, mas eu só consigo ver por estes olhos, o espetáculo.

O grupo pode ter feito um espetáculo que fala de artistas, mas sem saber (o que eu duvido muito) falou de todos e de cada um de nós que senta naquela plateia, artista ou não, e se vê em Soleinildo ou em cada um daquela frágil mas indestrutível trupe.

E se disserem "Nossa tanto de um espetáculo tão curto!" eu só posso responder:

Curta, é a vida, meu amigo! Curta é a vida!

Hannah Abnner registra bate-bapo da Operakata com o Arte do Espectador

Depois do espetáculo a trupe nos recebeu e conversamos sobre teatro, formação de plateia, sobre a trajetória bem sucedida do Soleinildo e, claro, sobre as recentes polêmicas envolvendo o II FESTIVAL DE CENAS CURTAS que aconteceu no final do ano passado e teve grande repercussão aqui no blog, você deve ter acompanhado. Confira esse delicioso bate papo-com a Operakata na retomada do nosso DEZ MINUTOS COM...clicando aqui.

E também a palavra da plateia com a volta do GOL DO ESPETÁCULO clicando aqui.

Comentários são sempre bem-vindos!

Gracias a la vida. Que nos ai dado tanto!

O CIRCO DE SOLEINILDO
TEXTO: Gilsérgio Botelho
DIREÇÃO: Gilsérgio Botelho e Shirley Ferreira
ELENCO: Kécia Prado, Cristiano Martins, Isac Flores e Shirley Ferreira
DESENHO DE LUZ: Raiza Lélis e Wandick Trindade
CENOGRAFIA: Gilsérgio Botelho
FIGURINO: Kécia Prado
PRODUÇÃO: Kétia Prado Damasceno




sexta-feira, 10 de junho de 2011

OITO ANOS DE FINOS TRAPOS



Um Fino Café.
Uma Fina Companhia.
Finos integrantes.
Fina alegria.

Assim - fina - foi a comemoração desse povo trapiano, esse povo cheio das antíteses do mundo contemporâneo:

É de Salvador ou de Conquista?
É teatro regional ou universal?
É a Finos de Roberto ou Roberto da Finos?

Tantas perguntas e tão pouca preocupação em achar respostas.

A Finos está no cenário há oito anos, mas parece muito mais. Espetáculos, Pesquisa, Residência artísitica, intercâmbio, interferências... Essa gente bonita e brejeira, boazinha e conquistadeira, ganha edital, ganha Braskem, ganha nosso carinho, ganha elogio, ganha crítica, mas continua assim, com esse jeito catingueiro de dizer CONQUISSSSSSSSSTA com todos os 'ésses' que a palavra tem.

E eu amo muito esse povo e já escrevi sobre eles outras vezes. Ficam os depoimentos de outros dmiradores deste lindo grupo, um delicioso bate-papo com essa galera linda, o Fino Blog para vocês acessarem e mais uma vez, o link de um comentário que eu escrevi sobre Gennesius.

O post sai com 08 dias de atraso em homenagem aos 08 anos do Grupo. (Mentira, é porque eu tô trabalhando muito no mundo real e blog é coisa que requer tempo!)





Uma retrospectiva visual da nossa amadíssima FINOS TRAPOS.
Fino aquecimento e concentração

SAGRADA FOLIA
Daisy Andrade em SAGRADA PARTIDA

Polis Nunes e Rick Fraga em SAGRADA PARTIDA
AUTO DA GAMELA

AUTO DA GAMELA
Yoshi Aguiar e Frank Magalhães em GENNESIUS - Histriônica Epopéia de um Martírio em Flor
Shirley Ferreira em GENNESIUS

Finos Bastidores


Finas leituras



quarta-feira, 1 de junho de 2011

Em cima do palco, em baixo da lona

Vira Lona, Lona Vira.

Eu levei um tempinho tentando bolar um título que brincasse com o título da peça que a gente assistiu e vai comentar, mas o máximo que eu consegui foi isso mesmo.

Este é o primeiro espetáculo infato-juvenil que a gente faz aqui no blog e a estreia não podia ser melhor. O Grupo Via Palco, além do espetáculo, apresenta no Teatro Xisto Bahia - que eu já confessei que adoro - uma bela exposição fotográfica, com parte de seus 13 anos de trabalhos nos palcos, além de manter uma simpática lolinha onde as famílias podem adquirir brinquedos e camisas com estampas do universo circense.

Mas, vamos ao palco. O palco que vira lona, a lona que vira sonho, o sonho que vira peça.

Chegamos e uma luz muito bem desenhada nos recebe. Aos poucos, porém uma linda trilha sonora, que permeará e enriquecerá todo o espetáculo nos afasta da loucura do dia-a-dia e nos convoca a sermos crianças de novo. E que convite gostoso. E como é bom aceitá-lo.

As cenas vão se apresentando uma a uma, com a calma de quem tem tempo, não tem pressa e não tem medo. As crianças entram no tempo e na lógica do esptáculo e a gente já não sabe mais o que é sonho e o que é real.

Números de circo, como esquetes de palhaços, malabarismos, cambalhotas e outras peripécias corporais fazem a gente viajar como se fosse num circo mesmo. O palco vira lona, insisto. E a proposta se consuma: e se todos os números de circo fossem feitos por palhaços?

Os elementos visuais, desde o figurino, maquiagem e adereços, a iluminação são muito bonitos e bem cuidados. Agamenon de Abreu, que já encanta o cenário (literalmente) teatral de nossa cidade fazendo belíssimos cenários e figurinos para as mais diversas produções, foi muito feliz nas escolhas e na construção da imagem visual (isso é um pleonasmo?) deste espetáculo.

Mas o que enche os olhos mesmo, me desculpem pelo disparate linguístico é a trilha sonora, um belíssimo trabalho de Rubinho D'Ávila.

Ah, eu acho que ainda não falei que a peça não tem palavras, não é? João Lima já havia se aventurado em experiência parecida com O Sapato do Meu Tio (vencedor do Prêmio Braskem de melhor Texto - não é ótimo isso? - cujo cenário também é de Agamenon de Abreu).

Mas, voltando à lona, a trilha ocupa boa parte da construção da dramaturgia, escrita também pela movimentação dos atores, pelo tempo-ritmo do espetáculo, pelo recorte de luz, enfim, várias vozes a serviço de um espetáculo literalmente sem palavras que encantou toda a plateia que se ria como criança feliz.

João Vicente, meu filho, se pulava na cadeira com as peripécias dos palhaços, sobretudo Agamenon que enche o palco cada vez que põe em cena seu nariz vermelho. Hannah, mais comedida ria-se educada, mas efusivamente.


O fato de o espetáculo estar estreando traz um pouquinho de rigidez ainda à realização das performances, sobretudo as que envolvem um certo risco. Nada mais natural, né gente. Acho que com o tempo as acrobacias vão sendo executadas com mais precisão e naturalidade e também os jogos entre os palhaços, A cena das mágicas, por exemplo, na minha modesta opinião, podem ser feitas mais como brincadeiras, tirando um barato mesmo, afinal de contas são palhaços fazendo... Acho que Agamenon consegue essa pegada, pois ele executa sua mágica de brincadeira, e se diverte com ela. Acho os demais truques acabam sendo feitos com muita seriedade, que não contribui para a cena, já que são evidentemente truques aprendidos. Se esses truques fossem assumidos como tal (não esclarecidos, como Mr. M), mas se fossem ridicularizados (acho que essa é a pior palavra possivel, mas não tô achando outra) a cena ganharia muito em ritmo e em troca com a plateia. E acho o final meio abrupto, mas, como sempre lembro, eu só acho tá gente, se eu tivesse certeza de alguma coisa eu tava lá no palco, fazendo e não aqui escrevendo sobre quem faz. EU AMO ESSE ESPETÁCULO!

Bolinhas de sabão e música de caixinha
Bom, eu adorei a cena das lavadeiras. O jogo de Fábio Neves com sua interpretação leve e acolhedora e a bela e doce Naiara Homem, embalados pela trilha sonora é simpesmente encantador.

João Vicente escolheu a cena da água, Agá e Ive Alencar essa grande menina-atriz, brincando de ser chafariz. E que técnica, hein Agá? Uma caixa d'água!!!
Hannah encantou-se a cena da bailarina, mais uma vez pela leveza e brilho da interpretação de Naiara.


 Alam gostou do gol do Bahia, pois o safado estava fotografando a peça e ouvindo o BAHIA X FLAMENGO pelo fone do rádio... pode???

E a peça é assim: a gente sai lembrando das cenas, dando tanta risada quanto deu lá dentro, trocando ideias sobre as cenas e isso é uma delícia. A capacidade de manter crianças intertidas (como diz meu pai) com uma peça sem uma palavrinha se quer, sem gritaria, sem ruído, sem efeitos especiais tecnológicos é de fato um acontecimento.
E é tão bom ver esse acontecimento 'acontecer' no teatro, esse lugar de resistência. Esse pedaço de mundo onde o encontro pessoal é uma condição indispensável. Onde atores ainda se dedicam - há quanto séculos, meu deus? - a pesquisar, trabalhar, ensaiar, criar, para no fim, em cima de um palco - ou em baixo de uma lona - atirar-se à fúria dos espectadores, que esperam de boca aberta devorar o desafiante.

A menos, obviamente, que este ator/atriz o seduza, o convença e o conquiste. Conseguido esse feito, sai ele dali, coitado, talvez sem dar-se conta, completamente transformado, escravo dessa delícia, espectador adepto e carente de cada vez mais teatro.

Tá bom, né... eu perco um pouco a conta quando escrevo...

Assista ao discontraído bate-papo com elenco e diretor no DEZ MINUTOS COM... VIA PALCO Foi muito gostoso e divertido.

Ouça o que a plateia tem a dizer no GOL DO ESPETÁCULO

Se gostou das infromações da peça, dê um pulo no site do grupo CLICANDO AQUI.

Nunca é demais lembrar que este espetáculo é parte do projeto COOPERATIVA EM CENA, sobre o qual a gente já falou e ainda vai falar muito mais, pois estamos agendando um DEZ MINUTOS COM... a Diretoria da Cooperativa.

E, claro, não deixe de comentar, é tão bom acordar e ter comentário no blog.


FOTOS DO POST: alam félix


FICHA TÉCNICA
Roteiro: Criação Coletiva
Direção: João Lima
Elenco: Agamenon de Abreu, Ive Alencar, Fábio Neves e Naiara Homem
Cenário/Figurino: Agamenon de Abreu
Iluminação: Luciano Reis
Coreografia: Léo Luz
Técnicas Circenses: Edi Carlos (Binho) e Jailson Pereira
Trilha Sonora: Rubinho D'Ávila
Produção: Infinito Mais Um Produções


terça-feira, 31 de maio de 2011

AMOR E TEATRO: UMA COISA DE DOIDO

 Primeiro, segundo e terceiro sinais...





Fumaça.
Luzes.



Uma oração aos deuses do teatro. Cuidem de nós, santos anjos da doidice.

Folhas ao vento.

E os anjos logo apareceram: Andreato, Shakespeare, Artaud (tinha um Artaud ali, não tinha?), Adélia Prado, Fernando Pessoa, Edith Piaf e tantos outros que eu talvez não tenha reconhecido a cara, reconhecido a fala, reconhecido as asas.



Roupa de louco tem asas. Aquelas grandes mangas para prender. Aquelas grandes asas para voar.

Folhas ao vento.



Todo doido é meio rei. Todo rei devia ser meio doido.

E segue o desfile de santos e doidos, desfile de dores e pruridos, desfile de acertos e desmandos, desfile de humanidades, ali, se declarando palco, se declarando arte, se afirmando vida.

Folhas ao vento.

E aos poucos a gente era um só. Essa gente estranha de teatro. Do lado de cá, do lado de lá, tudo junto reunido sobre o manto sagrado de ser gente.

UM BOCADO DE GENTE SOZINHA, TUDO JUNTO. SOLIDÃO COMPARTILHADA. FORTALECE E REDIME.*


Gente que ama, que confessa e que abandona.

Gente que admira o amor que dorme. Gente que espera a volta.

Folhas ao vento.



Amor de vela acesa. Amor de vela queimada. Amor de velas ao mar.

Só faz arte quem ama. Só ama quem é gente. É mais gente quem faz arte.

O amor e a arte. O amor é a arte.

Silêncio. Escuro. Aplausos.

Plácida, sutil e silenciosamente Elias sai do palco.

A plateia enlevada, começa a voltar a si, transformada.

Mas existe uma coisa chamada realidade:

"Atenção. Nós pedimos a todos os presentes que desçam cautelosamente ou que aguardem, porque houve um tiroteio no Pelourinho, alguma coisa muito grave, porque o ensaio do Olodum foi suspenso. Já chamamos a Polícia para que faça a saída de vocês com segurança." Aninha Franco

Como assim? Depois de um espetáculo sagrado de amor e magia, a realidade nos dá assim, esse tapa na cara? Como assim? Nossos filhos assustados, eu, vítima do medo, já me tremendo toda, os espectadores sem saber se comentavam a peça assistida ou a peça pregada pela vida.

Mas, no meio da confusão que aos poucos se dissipava, ninguém tinha muito ânimo para falar e nem a gente tinha clima para abordar os assustados espectadores. Vale a pena conferir, mesmo assim, o depoimento emocionado de Igor Epifânio que nos atendeu carinhosamente no GOL DO ESPETÁCULO, CLIQUE AQUI.

Quando a paz já voltava a reinar, a calma e a sensatez nos reencontravam, Elias surge como o doido que é: Doido-calmo, doido-tranquilo, doido-gentil, doido-suave. Um homem que vive por amor. Um doido doce, humano e generoso.

Foi assim, nesse clima de paz que fizemos, com muito respeito e admiração o DEZ MINUTOS COM... Compartilhe com a gente este momento, clicando aqui..

Assistiu? Se emocionou? Não viu? Ficou com vontade? Comenta aí, vai.


* Trecho de Solo Compartilhada, de Adriana Amorim, sobre trecho de Calendário da Pedra de Denise Stoklos.

FOTOS DESTE POST: alam félix.
LEIA ESTE POST ANTIGO QUE EU ACHEI SOBRE ELIAS TAMBÉM:

EU QUERO MAIS É SERMUITO FELIZ - Para Elias Andreato


FICHA TÉCNICA

Texto, roteiro e direção: ELIAS ANDREATO
Luz: WAGNER FREIRE
Figurino: LAURA HUZAK ANDREATO
Cenário: LUIS ROSSI
Programação visual: ELIFAS ANDREATO
Assistência de direção: DAVID KAWAI
Fotos: SELMA MORENTE
Realização: MORENTE FORTE COMUNICAÇÕES





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domingo, 29 de maio de 2011

PEÇAS PELAS QUAIS VALE A PENA VIVER

Este título é inspirado em COISAS PELAS QUAIS VALE A PENA VIVER, programa do Canal Brasil, que absurdamente ainda é um canal fechado, onde Domingos de Oliveira e Priscila Rozembaun entrevistam pessoas interessantes que fazem um trabalho que justifica o nome do programa.
Ontem, ao descer para o camarim do Gamboa Nova depois do espetáculo SEBASTIÃO do Território Sírius, escrito, dirigido e interpretado por Fábio Vidal, foi o que consegui dizer para ele: “Que bom estar viva para assistir a este espetáculo!”

O trabalho de Fábio Vidal já havia me contagiado antes. Seu Bonfim é para mim um dos grandes espetáculos que eu já assisti em toda minha vida de espectadora. E Fábio repete a receita. Se no primeiro espetáculo ele une um texto primoroso, baseado na obra A TERCEIRA MARGEM DO RIO de Guimarães Rosa, a um trabalho corporal impressionante, a uma direção de cena que envolve e seduz o espectador, somando a isso ainda doses precisas de drama e comédia, em SEBASTIÃO ele faz isso tudo e ainda acrescenta a cerejinha do bolo: ele brinca com sua própria trajetória, trazendo referências sutis de seus outros trabalhos, um presente para quem acompanha sua carreira.

Vidal tem um processo criativo muito instigantes. Não deve ser coincidência que os títulos de seus espetáculos sempre remetam à pessoa da qual falam:

Seu Bonfim


Erê, o eterno retorno
Velôsidade Máxima

Sebastião

Hoje, ele está mais maduro, obviamente, pois já se vão quase dez anos desde S. Bonfim e se o velho aleijado ficava parado no centro do palco, o jovem cearense Sebastião não pára quieto, não se cala e, sobretudo, não está sozinho no palco. Com um trabalho primoroso de corpo, com alguns elementos muito precisos da mímica, Vidal bota em cena mais de uma dúzia de personagens, que dialogam, convivem, discutem, brincam, batem, apanham. É simplesmente impressionante quando, ao fim do espetáculo, você lembra que é só um ator em cena. Porque muitas das cenas são repletas de personagens e, repito, a gente vê todos e cada um deles, isolados em sua existência pessoal, e integrados naquela coletividade a quem Fábio, ou Sebastião, nos ensina a gostar.

Vidal é muito feliz porque cria um personagem extremamente carismático. Há uma simpatia imediata pela pessoa de Sebastião, por sua humanidade, graça e vulnerabilidade e a comunidade de Maracangaia vai sendo nos apresentada como um coletivo pelo qual nos afeiçoamos muito rapidamente. Numa comparação rápida, seria como nos relacionamos com os moradores da cidade de Macondo, de Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques. A diferença, BÁSICA, é que no universo da literatura, nós leitores que construímos visualmente os personagens, e no palco, é Vidal e apenas Fábio que dá vida (talvez por isso Vidal) a tantos personagens, e tudo ali, na nossa frente, num tempo tão curto e tão dilatado.

Eu tenho aquela mania de comentar, falar bem, elogiar e depois partir para o MAS... apontando um ou outro detalhe, digamos, negativo (palavrinha pedagogicamente proibida).

Sem chances. Não há ‘mases’ em Sebastião. A entrega de Fábio Vidal ao seu ofício é algo como sagrado. Não é á toa que parte de sua formação inclua o Teatro Essencial de Denise Stoklos, onde a vida e a obra do ator têm uma relação muito íntima.  Sua presença cênica, seu corpo vigoroso, seus grandes olhos acessos, roubam-nos de toda a vida prosaica e nos conduzem a um jogo onde a cena é realidade, onde a cena é a experiência valorosa.

Por este espetáculo Fábio ganhou o BRASKEM de melhor ator de 2010 e concorreu a melhor texto dramático. O espetáculo faz parte do projeto COOPERATIVA EM CENA, onde os grupos cooperados ocupam diferentes teatros da cidade, apresentando suas peças de repertório ou suas estréias.

Num espetáculo que fala de ganhar ou perder, de valores, só posso dizer que o prazer de ver o trabalho de Fábio Vidal em cena e uma grande vitória, é uma experiência transformadora, reveladora e de muito, muito valor. VALOR REAL E NÃO VALOR EM REAL!
Agora, vocês vão se deliciar com um super bate-papo com o ator, autor e diretor Fábio Vidal, na página DEZ MINUTOS COM.... Dessa vez sem problemas tecnológicos, veja que bom.



Assista também aos comentários do público no GOL DO ESPETÁCULO. Mas, só uma dica, se você se importa com revelações do enredo do espetáculo, é melhor não ver as entrevistas antes de assistir, porque tem uma espectadora que entrega umas coisinhas que talvez você prefira não saber antes. Mas, depois que você assistir – porque Fábio tem que voltar! – aí você assiste. Agora, se você é pós-dramático e não liga para essas revelações tipo fim de novela, então, pode assistir à vontade. Só não diga que eu não avisei.

Acesse aqui o blog do PROCESSO CRIATIVO DE SEBASTIÃO que tem curiosidades curiosíssimas.

E aqui o site do TEATRO GAMBOA NOVA este teatro lindo de viver, com o melhor camarim do mundo, com uma vista que faz a gente até entrar atrasado no palco.

Obrigada por nos visitarem! Os comentários são sempre bem-vindos!


FICHA TÉCNICA:
Autor, encenador e ator: Fábio Vidal
Orientação e colaboração dramatúrgica: Gil Vicente Tavares
Assistente de Direção e operação de som: Gabriela Sanddyego
Assistente de Direção (1ª etapa): Caio Rodrigo
Direção de Arte: Moacyr Gramacho
Assistente de Cenografia: Renata Mota
Figurino: Silvia Costa
Iluminação: Fernanda Paquelet
Assistente de iluminação: Tuca Gomes
Direção Musical: Emerson Cabral
Produção de Trilha Sonora: Cassius Cardozo
Locuções: Evelin Buchegger
Foto: Alessandra Nohvais






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