Cessados os ânimos e reduzida a enxurrada de 'indelicadezas'
talvez seja a hora de começarmos a tentar buscar a gênese de tamanha comoção.
Eu, simples atriz, professora, espectadora, desavisada e ingênua, emergi de paragens ciganas e ofereci meus saberes e olhares ao
diálogo com uma classe que eu julgava parceira e colega de profissão. Ofereci
meu horizonte na condição de jurada e ofereci minha casa, este blog aberto para
um café com bobagens, onde o café foi pouco, já o acompanhamento... farto.
E do cansaço do fato dado e do seu rescaldo, em silêncio contemplo, então, mais nada a revelar.
O que se pode ler, talvez, no arroubo e no pahtos que se apresentaram em ocasião tão
oportuna, seja um importante sinalizador de como a falta de investimento
direto, concreto e contínuo na formação e na produção artística da cidade
acabou por levar a auto proclamada 'classe teatral' a um deus-nos-acuda sem
precedentes .
Quem esbraveja palavrões e ofensas pessoais, em detrimento do
diálogo e do argumento o faz na falta de ferramentas melhores para lançar mão. Ao ler nova e cuidadosamente o assunto
no blog, post a post, comentário por comentário, vejo o semelhante entrar em confusão.
Como é desagradável o tal do Anônimo (que virou uma
entidade)!
Mas ele não é o único nem ao menos o principal responsável por sua
própria incapacidade argumentativa.
Sua fragilidade se revela fruto da falta de diversidade de
experiências formativas, na falta de um repertório estético com o qual possa
dialogar, na falta de experiência política e social de saber se portar em grupo
e em público, na falta de educação ao lidar com um semelhante. Tem culpa o
pobre coitado de ser assim tão despreparado para um debate sobre o tal do
'futuro do teatro conquistense'? Teria, se as oportunidades lhe tivessem sido
dadas e desperdiçadas, mas, pergunto-me: foram?
E os que estão do outro lado?
E os que não estão de lado nenhum, porque entendem que não há
lados?
Fatigado e farto de
clamar às pedras, talvez este
tenha preferido, diante de tão desastroso fórum, não debater, porque aqui
do jeito que a coisa anda, qualquer 'ai' que se diga, estará nada mais, nada
menos do que legitimando a baixaria como forma de protesto, ou de manifestação
pública. Seria como pregar no deserto, pois a incapacidade do diálogo ficou
evidente. E também, cá pra nós, não é espaço legítimo para um debate tão sério
e caro para uma cidade, este blog, onde eu falo como administradora e os demais
comentam como visitantes provocações sugeridas por mim. Eu tenho plena
consciência de que isso tá indo longe demais no lugar errado, do jeito errado.
Mas, se foi assim que se deu, que seja. Minha participação neste evento já
deu! Já foi! Chega.
O que acho importante, na minha saída de campo, é deixar para os
gestores da cidade que me orgulharam com o convite, algumas reflexões que nada
têm de originais e que são, eu sei, cantilena da classe há anos:
A cidade de Vitória da Conquista não pode mais prescindir de uma
Secretaria de Cultura autônoma, independente gerida por um artista que se
revele competente no jogo burocrático que a função exige, mas que não perca
jamais, na mesa de negociações com quem quer que seja, a sensibilidade e a transgressão próprias da experiência artística.
A hora é essa! (Na verdade já passou da hora, mas se não foi até
agora, que seja a partir de agora!)
Conquista não pode, não deve não quer ser uma cidade tal como
Salvador, que não oferece nada de substancial em termos de políticas públicas
para todas as linguagens. Salvador não tem um teatro municipal (o Gregório de
Matos está fechado há anos!!!), não tem um edital de montagem ou circulação,
não tem instrumentos de formação em arte. Acha e faz o povo crer que o Governo
do Estado é a prefeitura da capital e sente-se coberta pelos editais e
políticas estaduais que de uma forma ou de outra acabam privilegiando projetos
da capital e acalmando a massa. O resultado se vê nas ruas. A cidade está
morrendo, sucumbindo tristemente!
Há tantas outras cidades que podem servir como modelo de gestão
cultural. Cidades do interior de São Paulo, como São José dos Campos, que tem
um Encontro Anual de Cultura Popular, com apresentações acadêmicas e uma farta
programação cultural e artística. Cidades, como Guaramiranga no interior do
Ceará que tem seus calendários de editais de montagem e circulação, de ocupação
dos centros, de eventos formativos como fóruns, congressos, festivais, mesas
redondas, oficinas, intercâmbio. Como é possível para uma secretaria que na
verdade são quatro, dar conta de tanta demanda? Na real? Não é possível!
Respeitável Sr. Prefeito a quem eu admiro tanto, porque conheci a
Vitória da Conquista da década de 80 e conheço a de hoje, te digo com pureza de
menina: serei eternamente grata pela grande revolução a que você Guilherme
Menezes deu início na sua primeira gestão, e já lá se vão 16 anos ou mais. A
marca de seu trabalho estará sempre associada ao desenvolvimento vertiginoso
dessa agora metrópole. A ousadia que o senhor usou no enfrentamento dos cartéis
do transporte público, a moralização do tratamento com o funcionalismo público
e o pagamento em dias, dos proventos fortalecendo a dignidade do trabalhador, a
coragem da implementação do orçamento participativo, a revolução na criação dos
centros de saúde por bairros e o atendimento domiciliar, todas essas
qualidades, que o senhor já provou ter, estão sendo aguardadas ansiosamente no
campo da cultura.
E digo ainda mais, se me permite a ousadia o senhor que é da área
de saúde: investir em cultura e arte é, irremediavelmente, investir em saúde,
educação e redução da violência. É seu efeito colateral!
"Dê ao homem apenas o que ele necessita e ele terá se
transformado num animal", nos disse o bardo inglês através de seu
príncipe dinamarquês confuso!
Na Grécia Antiga, os médicos receitavam peças de teatro para esta
ou aquela enfermidade, a depender do que carecia o paciente e do que ofereciam
em termos de sentimentos aquela tragédia ou essa comédia. A experiência
artística potencializa substâncias que o corpo precisa e a alma
experimenta.
Arte e cultura são balaústres da saúde pública, coletiva, social!
A capacidade de abstração, desenvolvida na experiência artística,
já ficou comprovado por estudos sociológicos, reduz índices de violência, desde
a violência doméstica até as mais temidas violências urbanas.
Conquista é uma cidade antenada com o mundo. Não ter uma
Secretaria de Cultura em quase duas décadas de gestão participativa parece
um contra-senso O alinhamento vertical das gestões municipal, estadual e
federal é quase um alinhamento cósmico raro e deve produzir no campo da cultura
e das artes o mesmo bem que vem produzindo na dimensão econômica e social,
porque dela também faz parte. O Ministério da Cultura e a Secretaria Estadual
da Cultura (que na gestão de Márcio Meireles caracterizou-se pela
interiorização das ações e na do Profº Albino Rubim identifica-se pelo
investimento na formação em artes) podem, sem sombra de dúvidas, auxiliar nossa
cidade na construção, estruturação e manutenção desta nova e urgente
secretaria.
E para encerrar minha argumentação, não posso deixar de declarar o
lugar de onde falo. Além de Conquistense de nascença, atriz de formação sou
também professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, que teve a
ousadia e a coragem de sediar os primeiros cursos de artes do interior da
Bahia. Uma verdadeira revolução na Instituição. O bacharelado em Cinema em
nossa cidade e as licenciaturas em Teatro e Dança em Jequié (onde há muitos
estudantes de Vitória da Conquista) vão gerar uma demanda imensa para a cidade
e uma secretaria preparada para esta realidade precisa ser pensada e
implementada urgentemente!
Talvez assim, depois da criação desta secretaria, da elaboração e
implementação de políticas públicas contundentes e concretas não haja tanta dor
e desespero ao emergir das entranhas uma beleza estranha, mas ao invés disso, num esplendor de glória, se aviste u'a
grande luz!
Vô prossiguino estrada a fora, até porque eu acho que já escrevi mais do que devia e se alguém
postar um comentário de que eu já tô passando do ponto, eu vou até concordar.
Mas, como o nosso personagem, o Anônimo, não tem culpa das besteiras que diz,
também não sou tão responsável pelas supostas besteiras que faço. Faço-as
porque me sinto condicionada a elas, porque tudo o que vivi e aprendi me
trouxeram pra este lugar, pra esta cidade, pra esta universidade, pra este
corpo de jurados, pra este festival, pra este blog, pra este post, pra essa esse
parágrafo final.
As reflexões propostas aqui são fruto de intenso e contínuo debate
com colegas da lida, amigos da vida, parceiros da arte. Sua escrita foi
embalada pela inspiradora canção A MEU DEUS UM CANTO NOVO do queridíssimo Elomar Figueira, meu poeta favorito, que não trata deste assunto, mas me inspirou, e essas são coisas de processos criativos, fazer o quê?
Os artistas clamam, cada vez mais alto, Sr. Prefeito:
Os artistas clamam, cada vez mais alto, Sr. Prefeito:
Sê cult, Guilherme, SECULT!!!
Evoé, Conquista!















