terça-feira, 9 de abril de 2013

Cem sentidos

É que de repente a vida ficou foi mesmo assim:

SEM SENTIDO
CEM SENTIDOS

Um cansaço mortal toma conta de minha existência e acordar de manhã parece tarefa penosa.

A internet enche o saco e é muito. É muita realidade em letrinhas miúdas.

A TV, deus me livre, as mesmas caras brancas, os cabelos lisos, o sorriso largo. Ah, que saco!

Coisas pra fazer, eu tenho aos montes. Montes, montanhas.

Marco Feliciano já azedou e tá fedendo.

O medo do rumo que as coisas parecem tomar. A consciência da importância de uma ação política efetiva, contínua e urgente se digladia com a vontade expressa de cozinhar, dormir e fazer tricô.

Será a chegada dos 40?

Será coisa minha ou o mundo tá mesmo chato pra burro?

Não sei. Sei que o sono é grande e a graça da vida, apenas nas pequeninas coisas.

É isso. Só isso.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Iauretê: Teatro de raiz, corpo e voz

A ansiedade era grande, devido à mobilização causada pelas instalações na entrada do teatro.

Uma, referendada em tradições e elementos icônicos da cultura pataxó, outra com o pé na modernidade, projetava na parede da entrada uma obra com imagens de índios transitando entre seus costumes e garrafa Pet de Coca-Cola.

O toré de entrada foi simpático, mas a adesão do público, tímida. Os músicos, empunhando flauta, tambor e vozes, entoavam belíssimos cantos tribais. Os mestre de cerimônia, já nossos conhecidos, estavam a caráter (ou quase!) e divertiam o público que chegava timidamente.
Maria Janaína e seu canto - Foto: Aldren Lincoln

Lá dentro, um belo cenário com uma luz modesta nos esperava. Não fosse o tapete persa ou indiano que destoava do universo criado sobre o palco, o ambiente onde os músicos executavam a precisa trilha, estava quase que completamente integrado à proposta cênica. Talvez me falte algum dado na leitura do tapete, aí eu peço sinceras desculpas pelo deslize.

Pela plateia entra uma bela índia, de presença impactante e voz vigorosa. Seu canto e sua chegada marcante seguram bem a plateia.

A cena no palco, no entanto, se enfraquece com a dificuldade de compreensão do texto falado pela atriz. O barulho do ar condicionado e a evidente diferença da voz de Maria Janaína quando está cantando para quando está falando, foram fazendo com que o espectador aos poucos fosse se perdendo da cena. Contudo, mesmo sem o apoio dos significados daqueles significantes, a cena mantinha a sedução. A luz muito delicada (e ao mesmo tempo forte) colaborava para a predominância dos signos visuais sobre as palavras ditas e pouco compreendidas pela plateia.

Victor Kizza - O homem-onça em foto de Aldren Lincoln

O impacto da cena completou-se com a entrada vigorosa do ator Victor Kizza, com uma presença de palco comovente. A princípio também pouco se entendia do que ele falava, mas uma vez mais a força da cena parecia prescindir desta premissa. A construção da personagem era tão intensa, que mesmo pouco entendendo daquele Português 'envenenado' que era lindamente dito por aquele ser da natureza, com formas ora humanas ora 'bichescas' a plateia ficava completamente encantada com aquele corpo escultural, construindo diante dos nossos olhos aquele ser híbrido, forte mas ao mesmo tempo dono de uma simpatia e de um carisma inusitados. Custo a acreditar que alguém tenha resistido àquele sorriso de menino naquele corpo de guerreiro.

Era tão preciosa a presença corporal de Victo Kizza que até mesmo seu suor derretendo a maquiagem era parte da magia da cena. A luz precisa de Everton Machado, dialogava com aquela construção e assim, entre  índia e onça, a cena foi-se desenvolvendo.

Talvez em alguns momentos, a plateia se pegasse querendo algo mais, mas acho que nunca é muito se dispor a receber aquilo que a cena tem para dar e aos poucos foi exatamente o que fui fazendo: permitindo-me deixar levar pela proposta. Fui sentindo e experimentando a cena nos detalhes de cada elemento que ela me oferecia, desde o mais simples som ao vivo (ou não) desde uma troca de luz até os detalhes das interpretações daqueles irmãos em cena.

Dirigidos pela mãe, filho e filha vão ao palco celebrar o hibridismo, a miscigenação deste povo tão negro-índio-luso. Assim, só podemos compreender Iauretê como um canto de louvor aos laços familiares que nos unem, quer sejam eles o de mãe e filhos, como nesta peça, quer seja o vínculo ontológico, antropológico, religioso e cultural que nos une a todos nós, filhos destes que aqui estavam, daqueles que aqui chegaram e mais aqueles que para cá foram trazidos. Uma celebração às nossas origens.

Um Guimarães Rosa trazido ao palco, traído pela dificuldade de compreensão do texto falado, mas emancipado na linguagem da cena, plena, bela e absoluta.

Minhas saudações ao Grupo de Teatro Palmares Iñaron e a seu importante e belo trabalho.

Confira o gostoso bate-papo com essa galera no DEZ MINUTOS COM, CLICANDO AQUI.



Iauretê - Grupo de Teatro Palmares Iñaron:

Direção e Adaptação: Lia Spósito
Direção Musical: Bira Reis
Orientação Artística: Antonio Jorge Godi
Elenco: Maria Janaína e Victor Kizza
Percussionistas: Alessandro Mônaco e Marcos Antonio Costa
Designer de Luz: Everton Machado 





quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

UMA BALEIA EM NOITE DE CHUVA – Vidas Secas em Vitória da Conquista


Há quase um ano que a região de Vitória da Conquista sofre com a pior estiagem dos últimos 30 anos. Além do racionamento, da alta dos preços na feira, da ‘vida seca’ que se impõe na zona rural, paira sobre a terra rachada uma tristeza de dar dó.

Mas é justamente numa semana de intensas chuvas que chega aos palcos de nossa cidade o espetáculo da Cia de Teatro Primeiro Ato, inspirado na obra de Graciliano Ramos, Vidas Secas. O espetáculo vem ‘a mando’ do projeto Verão Cênico, como os leitores já devem estar sabendo.

Mais uma noite de plateia lotada, mesmo com o tempo fechado. É uma lindeza ver esse teatro lotado toda quarta-feira, chova ou faça lua!

E vamos ao espetáculo. Logo de entrada o cenário simples nos dava o tom da encenação.

E como começou abruptamente o espetáculo hoje!!! Sem sinais, sem vinheta. Isso acabou por atrapalhar um pouco o começo do espetáculo. A plateia ainda conversava com empolgação quando a cena inicial já rolava, com uma projeção que tinha narração e que a gente não conseguiu acompanhar bem. Aos poucos – bem devagar – a plateia começou a silenciar, mas sobrou ainda aquele celular ligado e aquele povo, educado pela audiência de televisão que tem o péssimo hábito de ficar batendo papo atrás da gente, bem no meio do espetáculo. E acham que porque estão sussurrando, não estão incomodando. Incomoda, gente. Quer conversar? Não entra! Não se pode conversar, nem baixinho, numa sala de cinema ou numa sala de espetáculo. Ali é um espaço público e é imprescindível que você respeite o espaço do outro. Sala de espetáculo não é lugar para bater papo. E tenho dito!

Voltemos à cena.

O espetáculo dirigido por Devilles, mentor da Cia que há mais de vinte anos produz teatro no extremo norte da Bahia, apresenta uma sucessão bem trabalhada de elementos cênicos. Uma luz bem recortada, sem cor que ilustra a secura da vida daquelas personagens. Algumas vezes sinto que a luz antecipa a cena, mas na maioria das vezes ela ajuda a compor imagens fortes cuja estagnação dá o tom do espetáculo. Os cortes são precisos, a direção aparece cuidadosa e primorosa nas marcações das cenas e no diálogo entre os elementos essenciais.
Imagem disponível no blog da Cia

Apesar de gostar do espetáculo, não posso deixar de sinalizar que na transposição da obra literária para a obra cênica, sinto que a profundidade da construção das personagens, tanto cada uma delas em si mesma, quanto na relação entre elas, fica prejudicada. O problema maior parece estar na soberania da história contada, isso que chamamos em dramaturgia de fábula. Sim, estão presentes as personagens e as histórias vividas por elas, mas sinto falta do peso daquelas subjetividades, daquelas humanidades que são tão intensas no romance e que parecem um pouco mais superficiais no palco. Aí não saberia apontar se o problema está no trabalho dos atores, especificamente ou na direção destes. Helder Ferrari que dá vida ao Fabiano tem uma presença de cena inegável, no entanto reluz uma juventude que talvez não remeta ao Fabiano da minha distante leitura da obra original. Ronali Barbosa, apesar de demonstrar potencial, acaba por sombrear Sinhá Vitória com sua voz frágil. Mesmo que isso diminua o envolvimento da plateia com o espetáculo, quero deixar registrado que é visível o potencial dela e dos demais integrantes do elenco, que com a prática dos palcos, com certeza produzirão trabalhos de inegável qualidade.


Devilles ousa em cena ao trazer ao palco uma criança e uma cadela. Essa opção pode ser um problema ou um achado numa montagem e neste caso, considero que foi um achado. A cadela é uma diva. Não se assusta com a plateia, permanece em cena com uma tranqüilidade impressionante e comove com seu olhar de bicho, convocando a todos da plateia a ler aquela cachorra em cena. Não é à toa que ela se chama Baleia na vida real. E é isso que nos chama para dentro da cena: a Baleia verdadeira. Ruan Medrado e Wagner Libório também cativam pelo que são de verdade e vê-los em cena nos atrai e nos seduz. O diretor usa isso a seu favor, ou que o diga, em favor da cena.

Insisto na questão do aprofundamento das relações entre os personagens, porque acredito que seja algo que se consiga com mais estrada, com mais apresentações. A cena da morte de Baleia, eu me lembro que quando li fiquei quase um mês de luto, atravessada por aquela dor. Na peça acho que a cena foi desperdiçada, breve, simples. Talvez seja uma demanda minha especificamente, mas senti falta da dor de Fabiano – que na minha leitura sofre com a necessidade de matar a cachorra – a dor dos meninos. Senti falta do silêncio de Fabiano, de sua profundeza dura, mais do que de sua grosseria. Senti falta do vazio de Sinhá Vitória, de sua obsessão pela cama de tiras de couro. Em termos de enredo, estava tudo lá, mas faltaram as sensações profundas que essa história promove.

A cena final é uma preciosidade. Os quadros recortados pela luz dos personagens esvaziados pelo eterno ciclo das estiagens. Aquele silêncio ensurdecedor. Aquele tempo dilatado. Estes elementos sintetizam todo o sumo da obra literária e da obra cênica. Ficaria tranquilamente sem a projeção final. Para mim ,o peso do silêncio e a dor dos personagens me bastariam. (Pois, então, eu que dirigisse minha peça, né não? Eita povo pra se meter no trabalho dos outros. Eu sei de tudo isso, gente.)

E, não podemos deixar de sinalizar que Maria Bethânia cantando canções da seca é sempre uma dor profunda.

Que fique registrado, por fim, que estas palavras revelam todo o meu deleite e, sobretudo, respeito com a obra assistida. Obviamente eu poderia lançar mão do argumento mais fácil e hipócrita (e na minha opinião improdutivo) de que para uma peça do interior da Bahia está muito bom. Prefiro arriscar-me a comentar o espetáculo como ele merece ser comentado: como um espetáculo profissional, com carreira, temporadas e viagens. Prefiro fazer uma leitura sincera e legítima do uso dos códigos teatrais, dentro do que me é possível como espectadora e como estudiosa da linguagem. Acredito que essa é a forma mais honesta de dizer o quanto eu gostei de ter assistido a este espetáculo.

Outro dado que deve ser levado em consideração, sobretudo neste contexto, é o importante trabalho que o grupo realiza em sua região com montagens que visam à formação de plateia não só em Juazeiro como nas cidades vizinhas. O grupo tem um relevante trabalho de arte-educação, construindo e circulando espetáculos que são transposições de obras literárias. Vidas Secas, por exemplo, é o último espetáculo da trilogia da seca, composta também pelos espetáculos O Quinze, inspirado na obra de Raquel de Queiroz e Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. 

Adaptação da Cia 1º Ato para O Quinze de Rachel de Queiróz

Encenação de Morte e Vida Severina - poema dramático de João Cabral de Melo Neto

Uma vigorosa produção sobre a temática da seca, a partir de autores que conhecem de perto esta realidade, encenada por artistas também acostumados às dores da seca que encontraram nesta experiência um instrumento de diálogo com o público local. Inteligente e sagaz estratégia de sobrevivência. Podemos observar no blog da Cia 1º Ato o que se vê em cena: que existe um importante trabalho com jovens atores da cidade e região.

Pois então. Estou aguardando fotos da sessão de ontem para ilustrar melhor este post. Fiquem com um bate-papo que essa trupe simpática e batalhadora teve com a gente no nosso DEZ MINUTOS COM... clicando aqui.

E, nunca é demais lembrar, comente à vontade. O que mais vale, no blog, no teatro, no boteco e na vida é bater um bom papo e trocar uma ideia. Sinta-se em casa!

Arte do Espectador saúda Baleia - Foto Hannah Abnner

Cia 1º Ato e equipe do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima - Foto Hannah Abnner

E por falar em casa, já está sabendo da novidade? Clique e conheça o projeto TEATRO-ESCOLA CASA DO REBANHO.

FICHA TÉCNICA:

VIDAS SECAS
Adaptação do Romance homônimo de Graciliano Ramos
Adaptação: Antônio Carlos dos Santos
Direção: Devilles
ELENCO:
Helder Ferrari
Ronali Barbosa
Ruan Medrado
Wagner Libório
Davi Monteiro
Maurício Fábio




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A faca e o corte: de que trata, afinal, o Circo de Soleinildo?

Texto elaborado a quatro mãos, por Adriana Amorim e Hannah Abnner.
Fotos produzidas e gentilmente cedidas por: Erica Daniela

Parte da fila para entrar - ESTREIA DO PROJETO VERÃO CÊNICO/2013

A acomodação da plateia levou quase uma hora
Ontem foi a estreia da edição 2013 do projeto da FUNCEB (Fundação Cultural do Estado da Bahia) órgão da Secretaria de Cultura, VERÃO CÊNICO. Diferente da edição do ano passado, quando a adesão do público parece ter sido baixa, a repercussão dessa nova edição desde o começo do mês já dava sinais de que seria um evento bem sucedido.

Não sei como foi nas outras cidades, mas aqui em Conquista, sucesso é pouco para definir esta abertura.

O saguão do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima estava completamente tomado por um público majoritariamente jovem, organizado em duas filas que faziam lindas e sugestivas curvas tanto para a compra do bilhete (R$ 1,00 a inteira e 0,50 a meia) e outra para entrar. Já dali se via um belo espetáculo.

A cena era ainda mais bela posto que ao fundo, nas paredes do Centro, as lindas pinturas de J. Murilo a partir do universo de Guimarães Rosa preenchiam nossos olhos e almas. Lindas pinturas em tela, em madeira e umas mais lindas ainda numas molduras de janelas antigas que eu enlouqueci de deleite.

Do lado de fora um lindo mural em papel metro, desenhado com carvão, eu acho, lindo demais. Umas das belas obras do artista plástico Arisson Sena, autor também  do Rola-bosta que fica no jardim do Centro de Cultura.(aguardando o nome das obras).

Completavam a cena a presença do próprio Camilo de Jesus Lima (interpretado por ator local) e duas personagens que não sei se devo chamar de travestis ou Drag Queens, mas uma delícia de mestres de cerimônias. Enfim, uma festa sempre completada pelo vendedor de cachaça e o tiozinho das balas.

Na entrada uma coisa de gente! Cadeiras extras pra lá e pra cá. Muita gente transgredindo as fitas que isolavam as cadeiras de onde não se teria um visão boa da peça. Invasão da área central, onde, colado ao palco foi montado o cenário (o espetáculo desceu, recusando usar o distante palco principal). De novo, uma festa!

Mas, vamos ao espetáculo?
E esse não é um convite à toa. Não no caso desta peça. O Circo de Soleinildo é daquelas obras que de tão simples, mas de tão simples, a gente pára e quase nem respira. Sabe aquelas obras que a gente sente que nos melhoram como pessoa? Aquela que a gente pensa, como não haviam feito isso antes? O Circo... é assim.



E em sua metalinguagem O Circo de Soleinildo fala mais, muito mais do que da vida de artista. Porque eu, honestamente, acho que o artista é um extrato pleno e vigoroso do ser humano. A gente representa o exagero de tudo aquilo que todo mundo tem, mas a gente assume, a gente aumenta, a gente estrangula ao máximo tudo o que passa por nós.

A dor e a solidão, a insegurança, a tristeza, a dúvida, a vontade de continuar, o medo de parar, aquele sentimento de 'e agora?' esses sentimentos todos são de todos nós, mas o artista, sempre em sua vida e em sua obra, os viverá intensa e declaradamente.

Tentando diminuir a tristeza de Solenildo
É tanta coisa para se dizer deste espetáculo que eu vou pular as partes sobre as quais muito já se falou. Eu não vou falar que o texto dramático é primoroso, que a encenação é irretocável, que os elementos de cena são todos de uma delicadeza e qualidade estética que nos envolve sem possibilidade de volta. Também não vou falar da simplicidade e do primor do trabalho dos atores, no ponto, envolvidos, íntimos em seu conjunto. Posso também abrir mão de dizer que Sérgio e Shirley optam por uma direção limpa e delicada, simples e contundente, muito, muito arriscada, que só se completa por conta da intimidade que o elenco desenvolveu.

E já que (não) estou falando do elenco, me permitam os homens (ótimos atores) fazer um revelação: Soleinildo é mulher! Calma, calma, eu não estou falando aqui ingenuamente, como se ninguém soubesse, que Soleinildo é interpretado por uma atriz.

Isac Flores com expressiva tristeza e fragilidade
Eu estou dizendo que o espetáculo (e tudo o que ele representa) é delas. É elas! E os atores, brilhantemente parecem entender isso e em cena estão ali a serviço delas. Assim, Cristiano Martins e Isac Flores fazem um primoroso trabalho de delicadeza e de companheirismo. Irreparável. Aqui, delicados são os homens! E isso é lindo demais!

Shirley Ferreira é uma coisa! Uma diva! Eu já havia assistido ao espetáculo no Festival da Juventude na Praça Barão do Rio Branco em Conquista no ano passado com outra atriz, Iara Barbosa, também muito boa, mas que trazia uma leveza à personagem. Ria-se das mesmas cenas com Iara Barbosa, sem tanto pesar e dor quanto se ri das cenas supostamente cômicas com Shirley Ferreira. Em cena, essa atriz brilhante (eu não tenho nenhum pudor em dizer isso) transformada pela maquiagem e pelo figurino é o próprio peso da solidão e da experiência. Cada cena sua, cada gesto é de fazer chorar. Seu olhar afunda a gente e a peça nos trespassa sem chance de dizermos NÃO!.

Shirley Ferreira em cena. Aguenta coração!

Que mulher é essa que olha pra gente e a gente congela? Que abre a boa e a terra treme? Eu realmente não tenho códigos para decifrar Shirley Ferreira! Só sei sentí-la!

Kécia Prado dá vida a Solenildo

E o monstrinho é esse que faz Soleinildo? Olhando desavisadamente, Kécia Prado parece pequena, frágil, um sorriso de menina. Mas a danada abre a boca e sai de baixo. Um vozerão que nem Soleinildo teria, se falasse. E essa ambiguidade de menina e leão é fundamental para a construção daquele patriarca do circo, daquela figura altiva e frágil ao mesmo tempo, para quem a família de atores dedica todo seu carinho, toda sua preocupação e devoção. O solo do personagem com capote (aquela alma sem corpo), diante da imóvel plateia construída pelos amigos fiéis é de matar um do coração. Um simples número de palhaço, já conhecido até, se torna um momento de puro enlevo.




A descoberta da cruel realidade e a revelação da aparentemente ingênua brincadeira com o Cirque du Soleil também é rápida, mas dolorosa. O ator que volta para reconstituir o nome original da trupe, toca tão silenciosamente em nossa vaidade porque nos diz em alto e bom som: 'seremos, sim, o que somos, custe o que custar'.

Esse espetáculo lembra, e foi Hannah, parceira de análise, que se deu conta, o filme de animação O Mágico, de Sylvain Chomet, mesmo realizador de As Bicicletas de Beleville. Esta obra, como a peça da Operakata, trata lindamente, apesar da crueldade encerrada em ambas, da vida do artista, da crueldade do mercado e da nossa incapacidade de viver sem isso.



Cristiano Martins e Shirley Ferreira na emblemática cena do atirador de facas
Para encerrar esse post imenso que eu não consigo terminar nunca, quero voltar-me à imagem da faca, por ser um número emblemático, muito engraçado, que reúne tensão, graça, revelação, mímese, enfim, todos os elementos que estão na obra como um todo. Mas não só por isso. Quero acessar a imagem da faca, do corte, da facada que levamos dia após dia, quer sejamos trabalhadores do palco ou do escritório. Quero falar das tantas farsas que produzimos na vida, de como forjamos números, de como fazemos cena. E essas tapeações que promovemos para os outros e na maioria das vezes para nós mesmos, ah, como elas são frágeis e num espirro se revelam.

Esse público que nunca vem, não é só para os artistas. A decisão entre ceder às demandas de fora e responder aos impulsos internos, eu insisto, não é só de artistas. Quantos bancários, secretárias, professoras, balconistas, domésticas, médicos, motoristas, advogados, abriram mão de suas verdadeiras aspirações para se render a uma vida que lhe garantiram ser melhor do que aquela que eles sentiam pulsar lá dentro. Ai, que isso tá ficando cafona, mas eu só consigo ver por estes olhos, o espetáculo.

O grupo pode ter feito um espetáculo que fala de artistas, mas sem saber (o que eu duvido muito) falou de todos e de cada um de nós que senta naquela plateia, artista ou não, e se vê em Soleinildo ou em cada um daquela frágil mas indestrutível trupe.

E se disserem "Nossa tanto de um espetáculo tão curto!" eu só posso responder:

Curta, é a vida, meu amigo! Curta é a vida!

Hannah Abnner registra bate-bapo da Operakata com o Arte do Espectador

Depois do espetáculo a trupe nos recebeu e conversamos sobre teatro, formação de plateia, sobre a trajetória bem sucedida do Soleinildo e, claro, sobre as recentes polêmicas envolvendo o II FESTIVAL DE CENAS CURTAS que aconteceu no final do ano passado e teve grande repercussão aqui no blog, você deve ter acompanhado. Confira esse delicioso bate papo-com a Operakata na retomada do nosso DEZ MINUTOS COM...clicando aqui.

E também a palavra da plateia com a volta do GOL DO ESPETÁCULO clicando aqui.

Comentários são sempre bem-vindos!

Gracias a la vida. Que nos ai dado tanto!

O CIRCO DE SOLEINILDO
TEXTO: Gilsérgio Botelho
DIREÇÃO: Gilsérgio Botelho e Shirley Ferreira
ELENCO: Kécia Prado, Cristiano Martins, Isac Flores e Shirley Ferreira
DESENHO DE LUZ: Raiza Lélis e Wandick Trindade
CENOGRAFIA: Gilsérgio Botelho
FIGURINO: Kécia Prado
PRODUÇÃO: Kétia Prado Damasceno




segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

XEGA DE XÓPIM??? E o que mais???


Diante da foto compartilhada à exaustão sobre a relação entre Shoppings, praças, museus... cultura, arte e tal, pus-me a pensar naquilo que a gente quer, acha que quer, diz que quer, mas será que quer mesmo?

Confesso que eu mesma peguei no mouse pra compartilhar, mas mui honestamente me perguntei se era isso mesmo que eu achava. E fui refletir.

Primeiro eu me dei conta de que talvez a maioria de quem compartilha já tem um shopping perto de sua casa e com mutia certeza compra suas roupas, livros, dvd's, coisas das americanas lá. E lá também come um Mac ou Bob's ou Subway que é mais in. E lá também compra os presentes de amigo secreto. E também vai ao cinema, lá. E vai comprar o material didático seu ou dos filhos lá.

E também é engraçado que mesmo que o número de Shoppings em Salvador seja realmente muito alto, não cheguei a ver nenhum deles, mesmo os recém inaugurados vazios. Por tanto, demanda, há.

Aí pensei em todas as pessoas que vão ao Shopping espalhadas pelas ruas da cidade. Confesso que mesmo estando em Conquista, minha referência ainda é Salvador. Fiquei imaginando a Joana Angélica mais cheia do que já é, com todos os frequentadores do Piedade e do Center Lapa espalhados por aquele calor que derrete aquelas calçadas curtas.

E dei-me conta ainda de que a gente realmente tem problemas nas nossas exigências e manifestações de repúdio. Algo parecido com o tal do NÃO PRECISAMOS DE COPA DO MUNDO (Leia o texto clicando aqui ). A velha mania de jogar o bebê com a água do banho.

Não que eu defenda os Shoppings, muito, muito, mas muito pelo contrário. É um programa que eu, particularmente não curto. Também não sou cega sobre a relevância deste espaço social como ícone da geração capitalista extremista da qual fazemos parte e temos lá nossa parcela de contribuição. Mas, mesmo não sendo viciada em Shopping Centers, não posso deixar de ler o manifesto acima com alguma criticidade.

A culpa do crime nunca é da faca, já me disse Eduardo Galeano.

Questão Tostines (para os que tem mais de 30...) Foi o Shopping que arruinou nossa sociedade ou nossa sociedade podre criou o Shopping?

Para termos mais praças, museus, teatros e tal, precisamos mesmo pedir que não haja mais shoppings? Quem faz shoppings, não é a mesma tchurma que faz museus, praças e afins. Mas não mesmo.

Deixem lá os shoppings reunindo os fiéis do consumo. Eu também odeio tudo isso. Meus filhos, que têm uma experiência artística, cultural bastante intensa, também adoram shopping. É lá que encontram seus amigos, é lá que compram as coisas que os unem, que os identificam como adolescentes de sua época. Não sejamos ingênuos. Não é porque na nossa época não havia shoppings, pelo menos não tantos como hoje, que podemos gritar que somos imunes a esse mal. Eu adorava ir ao Mapping ou às Pernambucanas no Natal comprar meus presentes.

O que me preocupa com reclamações desse tipo não é nem a reclamação em si, é que ao pensar nela assim de modo tão supostamente definitivo, a gente pode deixar de pensar de fato nas questões que envolvem o tema. Dizer NÃO ao Shopping pode parecer político, mas só dizer NÃO, é tão pouco. Adianta o que dizer NÃO e fazer SIM? Onde terá esse povo todo comprado o computador, ou o celular ou o I-Pod de onde compartilhou a foto?

É muito discurso pra pouca reflexão, pra pouca ação. E dormimos o sono dos justos, o sono dos certos, botando a culpa da merda em que o mundo virou sempre nos outros. A gente é tão correto, tão politizado, né?

Eu quero é mais que os Shoppings reúnam sob luz e ar artificiais essa coisa estranha em que nos tornamos (vai dizer que você não adooooooora o ar condicionado do shopping!).

É assustador, eu também acho, mas não é dizendo NÃO ao templo que transformaremos essa religião.

Religião virou mercado e mercado religião.

Deixe essas lojas todas uma em cima da outra. Se for pra destruir, vai ser mais rápido. Ser for ficar a cabo do tempo, quando tudo isso estiver abandonado, pelo menos se terá gastado menos terreno.

Que nesse terrenos onde não ser construirão lojas (porque elas estão todas umas em cima das outras) neste terreno livre sim, que se construam praças, museus, arenas, campos de futebol, quadras, pistas de skate, quiosques, sob muitas árvores.

Mas até lá, tantas paredes que não as do shopping precisarão ser demolidas. Tantas...

Podemos começar com o protesto de quem compartilhou a foto de nunca mais entrar num shopping center. Quem topa?


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

UMA PRAÇA E UM VIOLÃO

Foi apenas disso que Dona Maria da Graça Costa Penna Burgos precisou para encantar ainda mais o natal de Vitória da Conquista.
"Onde o que eu sou se afoga!"

Eu nem sei direito por onde começar, ou mesmo o que escrever depois de tão linda experiência.

Ela entrou no horário marcado, com a delicadeza de diva. Aparentava  um certo receio, parecia acanhada e eu diria até que talvez tivesse exagerado na dose de Rivotril. No asfalto, nos perguntávamos qual seria o repertório. Ela escolheria as mais famosas ou cantaria as novas canções?

Na imensidão do pequeno palco, apenas um respeitável violão, com seu tocador a postos. E ela surge, elegante, toda de preto, com seus belíssimos e inconfundíveis cabelos negros, livres e autoritários!

Ela foi tirando da manga uma arsenal de encantos e aos poucos, o que não é novidade, foi ficando com a plateia na palma das mãos. A cada nova canção, a gente era mais escravo daquela voz que é um privilégio poder ouvir pessoalmente.

E atacou de Bossa Nova, de Chico Buarque de Caetano Veloso.

E a praça era um aglomerado de gente feliz, com os braços pra cima, olhando ora pra diva, ora pra os amigos, como se fosse fim de festa, todo mundo cantando junto, naquele calor humano que fez Conquista suar. Um céu lindo de estrelas cobria  festa.

A todo Vapor de 1971
E no meio dessa paixão mútua, sem excessos, sem desperdícios, as cordas do violão me dizem que ela vai entoar aquela poesia mágica e dilacerante de Wally Salomão.

Sim, nos primeiros acordes, os viciados já sabiam: lá vem Vapor Barato! Eu, em transe, fechei os olhos e aproveitei esse momento de contar pros netos um dia. Ela dominava aquela praça com apenas três armas: as cordas daquele impressionante violão, os versos do poeta jequieense e as vocalizes pelas quais ela será eternamente lembrada.

Eu me arrepiava e dizia: o mundo já pode acabar!

Eu só imaginava, ao olhar para aquela mulher iridescente, toda sua trajetória, toda a sua ousadia, beleza, vigor que durante tantos anos estiveram presentes nos palcos do mundo. Lembrava de todos os documentários e tapes de shows que assisti e sempre me vinha à mente a imagem daquela mulher magra de cabelos negros, com aquele sorriso agressivo e uma audácia contagiante e desconcertante. Uma estrela! E ao mesmo tempo, sentia-me tão feliz de minha filha de 14 anos estar ali, dividindo comigo essa experiência de se levar pra sempre. Aprendendo essa coisa toda de ser grande e de ser feliz, assim, só por ser artista! Um aprendizado!

Daí para o final da festa, tivemos Força Estranha, pra emocionar, Festa do Interior pra desopilar, e Gabriela pra lembrar que a gente é povo e que povo tem uma mania danada de ser feliz, contra tudo e contra todos!

Índia, álbum de 1973
Fico imaginando Gal Costa, a grande Gal Costa, intrépida, mulher ousada, bela como ela só, viajante do mundo, ícone de uma geração, agora mãe, madura, meio cansada, mas nunca menos diva, ali, naquele palco em plena praça na caatinga baiana, cantando para pessoas de diversas idades, classes sociais, gêneros, tribos. Senhorinhas na plateia, sentadas em frente ao palco ou amontoadas na frente, dançando como se nem lembrassem das restrições médica. Fico pensando o que é para essa mulher, artista do mundo fazer parte de um projeto deste, olhar pra frente e se deparar com tanta beleza, com tanta verdade e simplicidade.

Que o Natal da Cidade continue a promover belezas como essa, momentos de puro deleite e glória.

Obrigada, Gal Costa pela sua obra, pela sua elegância, pela sua luz! Obrigada pelo acertado repertório no mais puro estilo THE BEST OF... que foi um acerto sem precedentes. Conquista, em coro, lhe respondeu cantando, como num rito religioso, pois tudo que se viu naquela noite, pelo menos do pequeno pedaço de chão onde eu me encontrava foi o mais puro RELIGARE que se pode experimentar.

Feliz Natal, grande diva!


Feliz Natal, minha Gal!


Gal Costa e Luiz Meira ao violão em noite iluminada em Vitória da Conquista - Foto Vítor Nascimento


sábado, 15 de dezembro de 2012

Vai que o mundo acaba...

Calendário Maia

A primeira vez que ouvi falar sobre o fim do mundo marcado para 2012 foi em 2007, através de uma grande amiga-irmã, bastante espiritualizada, que me falou na ocasião não apenas sobre as grandes transformações pelas quais o mundo passaria nesta ocasião, mas também sobre a existência de crianças índigo.

De lá pra cá, esta data tornou-se uma obsessão na minha vida. O 21 de dezembro eu só descobriria mais tarde e já nem me lembro como foi.

Sei que no meu processo de amadurecimento tem sido importante ter uma possível (e sonhada) data limite. Um marco. Um dia 'D'. Posso afirmar que passei esses quatro anos dedicando-me ao fim do mundo, de uma forma ou de outra, mesmo que entre as quatro paredes do meu pequeno ser. Eu adoro a ideia de que o mundo vai acabar. Não tenho tendências suicidas, mas acho morrer uma ideia fantástica!

Ontem, voltando de Jequié para Conquista, numa das últimas viagens que faço, caso o danado do mundo se acabe mesmo, sem conseguir dormir, me pus a pensar no que sentiria falta, depois que o mundo se acabasse.

Fui me dando conta de que mesmo cansativas na maioria das vezes, me fariam falta essas viagens de lá pra cá. Essas horas de olho na estrada, no sol da manhã ou no nascer da lua. Faria falta também a lida dentro da sala de aula. De modo algum lamentaria o fim das reuniões de departamentos, os protocolos e as burocracias. Podem ir em tsunamis, essas baboseiras. E os comprovantes do Curriculo Lattes, eu jogaria fora eu mesma, pouco antes do mundo acabar. Que fiquem na memória.

Dos meus amigos de hoje, de ontem e os de sempre, eu sentiria muita falta, caso não fossemos para o mesmo lugar.

As músicas que quero morrer ouvindo, nem que seja em pensamento, dei-me conta que são todas de gente nossa, ou vizinha. Queria que o mundo se acabasse ao som da Ária das Bachianas nº 5 do louco do Villa-Lobos, de Años de Soledade, de Piazolla e se a desgracera for demorada, toca o cancioneiro de Luiz Gonzaga e Elomar que eu morro feliz!

Se do lado de lá tiver uma ante-sala pra receber a gente, porque mesmo com três destinos possíveis, é muita gente morrendo ao mesmo tempo, vai dar uma confusão doida... Eu espero que não tenha as insuportáveis televisões que invadiram restaurantes, supermercados, consultórios médicos, a porra toda, mas vai lá que tem uma tela pra gente se distrair. Ah, eu queria assistir Tudo Sobre Minha Mãe do poeta transgressor Almodovar, e também Eternamente Pagu de Norma Bengel, que me lembra tanto eu mesma. E queria ver também, antes que me chamassem O Marido da Cabeleireira  do francês Patrice Leconte. Mais por mim, do que por elas.

E se servissem uma boquinha pra gente não morrer de novo, agora de fome, eu pedia um cuscuz com ovo frito com cebola e uma média sem açúcar, que eu acabei me acostumando. Mas, bem quentinho o café, viu, que café frio é o inferno!

Se eu pudesse ler um livro, antes de ir pra sempre pro lado de lá, eu pedia pra ler de novo Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques. E se desse tempo, pedia pra me trazer um exemplar de Cacos para um Vitral, de Adélia Prado. E já que o mundo vai acabar antes de minha promessa: desce um Domeq com mel e limão que eu morro doce e temperada!

E se tivesse interrogatório lá na porta de onde quer que eu estivesse, eu ia tentar responder coisas que tento responder agora:
Paulo Ricardo e o cabelo Pigmaleão

Amei tudo o que vivi. Amei ser professora.
Amei toda e cada vez que raspei a cabeça. Amei todas as cores que os pelos já tiveram.
Amei todo e cada homem que amei.
Amei todas as cidades que visitei.
Amei todas as dores das quais sarei.
Amei a moda 80 com calça-pra-que-blusa, biquine asa-delta e cabelo pigmaleão.
Amei a internet, o orkut, o messenger. Amei tornar-me blogueira.
Amei tantas risadas que dei, meu deus como eu sorri, mesmo sendo tão chorona.

Bicicleta, bicicleta! Eu amo bicicleta e tricô!

Amei as cores do meu Baêa e todas as alegrias que meu time me deu.
Amei o Porto da Barra, a Lagoa das Bateias e a Rua Augusta.

Bom, chega de amei isso amei aquilo.

Vai que o danado do mundo não acaba e eu com tanta coisa pra fazer do dia 22 em diante.
Tanta coisa ainda pra viver. E tanta coisa pra aprender. Pra descobrir e pra fazer.
Vou voltar aos braços dos meus filhos, marido, amigos, família, alunos. Volto para os livros, os palcos, os blogs...

E eis que inspirada no fim do mundo, a inspiração para o post acabou por aqui e eu termino ele assim, sem graça e sem frase de efeito. Vai que o mundo vai é acabar assim: sem graça e sem plantão!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

CENTENÁRIO DO VELHO LUA

Hoje, dia de Santa Luzia, protetora dos olhos, é o centenário do Velho Lua, querido poeta do sertão.

Pouco a dizer de tão expressivo artista, um dos maiores do nosso país que representa o homem simples e complexo do sertão.

Deixo apenas meu sincero abraço e minha devoção a este cabra forte que sempre, sempre, sempre me emociona.

Obrigada, Véi Lua!



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

VOU WALLY E NÃO VOLTO MAIS... Algaravias o Marujeiro da Lua




A partir do dia 13 de dezembro e até o dia 16 do mesmo mês, estará acontecendo o espetáculo/jogo construído a partir das provocações da obra e vida (que sempre foram a mesma coisa neste caso - e quando não é? enfim...) do poeta mundano-jequieense Wally Salomão. Esta obra é resultado do trabalho intenso (e bota intenso nisso, né galera) do Grupo de Pesquisa Olaria (GPO) da Universidade Estadual da Bahia (UESB) sob coordenação e regência do Profº Roberto de Abreu, que não por coincidência nem por foça do destino, mas por obra de seu intenso trabalho e inteligência, uniu sua prática como professor e artista a sua pesquisa em nível de doutorado sobre as três dimensões do jogo: dimensões estas referentes à formação do professor de teatro, à criação cênica e à espetacularidade do jogo como obra (in)acabada, para ficar de bem com Eco e Pareyson.

(Tá certo até aqui, Beto?)

Mas este post está muito pouco algavárico!

Tive o prazer e privilégio de assistir a um ensaio dessa trupe de jogadores que levam o termo a sério e se jogam de peito aberto no mar ora calmo ora intempestuso da cena.


O espaço já é um convite aos sentidos: O MUSEU HISTÓRICO DE JEQUIÉ numa das avenidas mais movimentadas da cidade. Um lindo imóvel branco e azul que impressiona, seduz e assusta por motivos que só você estando lá para conhecer. O ar lá dentro já é diferente. Mais puro talvez. Ar de espaços distintos do cotidiano. Gostoso.

O branco e azul de fora dão lugar a uma profusão de cores e estímulos lá dentro. Opa, sinto que não posso falar muito.

Deixo pra falar quando a temporada acabar, essa primeira, pois que venham muitas.

A poesia de Wally é daquelas tarjas-pretas que os terapeutas e psicanalistas deveriam receitar. Mudam tudo na gente. Acho que não receitam porque podem não dar conta dos efeitos colaterais. Pois, ora, se o 'normal' enlouquece com suas palavras e ritmos o que acontecerá ao já diagnosticado 'estranho'?

Bom, eu que sou estranha assumida, fiquei ainda mais e saio da SALAMANGUE completamente enebriada, louca para me aprofundar no universo desse marujeiro louco e eterno.

Que seja louca e eterna, meus queridos parceiros de sala, palco e vida, essa experiência e seus desdobramentos...





O QUÊ?
“Algaravias- O Marujeiro da Lua” Um espetáculo/jogo que se baseia na vida, na obra, e na poética do poeta jequieense Waly Salomão.
QUANDO??
De 13 a 16 de Dezembro de 2012, às 20:00h. (QUI à DOM - ingressos distribuídos uma hora antes no Museu).
ONDE?
No Museu Histórico de Jequié.
QUANTO?
Um livro de poesia.

Grupo de Pesquisa Olaria (GPO)
"Jogos Performativos" - PIBID-UESB CAPES
"Jogo e Cena: Política Poética e Estética" Pesquisa UESB
Formação de Espectadores - PROCENA (Programa de Extensão em Artes Cênicas/UESB

Ficha Técnica/escalação:

Direção e Dramaturgia: Roberto de Abreu
Assistência de direção: Silvana Ribas

Jogadores:
Emanuelle Nascimento
Jomir Gomes
Matheus Xavier
Mônica Alves
Mylena Oliveira
Pyter Rodrigues

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Ao gestor, um post novo


Cessados os ânimos e reduzida a enxurrada de 'indelicadezas' talvez seja a hora de começarmos a tentar buscar a gênese de tamanha comoção.

Eu, simples atriz, professora, espectadora, desavisada e ingênua, emergi de paragens ciganas e ofereci meus saberes e olhares ao diálogo com uma classe que eu julgava parceira e colega de profissão. Ofereci meu horizonte na condição de jurada e ofereci minha casa, este blog aberto para um café com bobagens, onde o café foi pouco, já o acompanhamento... farto.

E do cansaço do fato dado e do seu rescaldo, em silêncio contemplo, então, mais nada a revelar.

O que se pode ler, talvez, no arroubo e no pahtos que se apresentaram em ocasião tão oportuna, seja um importante sinalizador de como a falta de investimento direto, concreto e contínuo na formação e na produção artística da cidade acabou por levar a auto proclamada 'classe teatral' a um deus-nos-acuda sem precedentes .

Quem esbraveja palavrões e ofensas pessoais, em detrimento do diálogo e do argumento o faz na falta de ferramentas melhores para lançar mão. Ao ler nova e cuidadosamente o assunto no blog, post a post, comentário por comentário, vejo o semelhante entrar em confusão.

Como é desagradável o tal do Anônimo (que virou uma entidade)!

Mas ele não é o único nem ao menos o principal responsável por sua própria incapacidade argumentativa.

Sua fragilidade se revela fruto da falta de diversidade de experiências formativas, na falta de um repertório estético com o qual possa dialogar, na falta de experiência política e social de saber se portar em grupo e em público, na falta de educação ao lidar com um semelhante. Tem culpa o pobre coitado de ser assim tão despreparado para um debate sobre o tal do 'futuro do teatro conquistense'? Teria, se as oportunidades lhe tivessem sido dadas e desperdiçadas, mas, pergunto-me: foram?

E os que estão do outro lado?

E os que não estão de lado nenhum, porque entendem que não há lados?

Fatigado e farto de clamar às pedras, talvez este tenha preferido, diante de tão desastroso fórum,  não debater, porque aqui do jeito que a coisa anda, qualquer 'ai' que se diga, estará nada mais, nada menos do que legitimando a baixaria como forma de protesto, ou de manifestação pública. Seria como pregar no deserto, pois a incapacidade do diálogo ficou evidente. E também, cá pra nós, não é espaço legítimo para um debate tão sério e caro para uma cidade, este blog, onde eu falo como administradora e os demais comentam como visitantes provocações sugeridas por mim. Eu tenho plena consciência de que isso tá indo longe demais no lugar errado, do jeito errado. Mas, se foi assim que se deu, que seja. Minha participação neste evento já deu! Já foi! Chega. 

O que acho importante, na minha saída de campo, é deixar para os gestores da cidade que me orgulharam com o convite, algumas reflexões que nada têm de originais e que são, eu sei, cantilena da classe há anos:

Guilheme Menezes Prefeito re-eleito de Vitória da Conquista

A cidade de Vitória da Conquista não pode mais prescindir de uma Secretaria de Cultura autônoma, independente gerida por um artista que se revele competente no jogo burocrático que a função exige, mas que não perca jamais, na mesa de negociações com quem quer que seja, a sensibilidade e a transgressão próprias da experiência artística.

A hora é essa! (Na verdade já passou da hora, mas se não foi até agora, que seja a partir de agora!)

Conquista não pode, não deve não quer ser uma cidade tal como Salvador, que não oferece nada de substancial em termos de políticas públicas para todas as linguagens. Salvador não tem um teatro municipal (o Gregório de Matos está fechado há anos!!!), não tem um edital de montagem ou circulação, não tem instrumentos de formação em arte. Acha e faz o povo crer que o Governo do Estado é a prefeitura da capital e sente-se coberta pelos editais e políticas estaduais que de uma forma ou de outra acabam privilegiando projetos da capital e acalmando a massa. O resultado se vê nas ruas. A cidade está morrendo, sucumbindo tristemente!

Há tantas outras cidades que podem servir como modelo de gestão cultural. Cidades do interior de São Paulo, como São José dos Campos, que tem um Encontro Anual de Cultura Popular, com apresentações acadêmicas e uma farta programação cultural e artística. Cidades, como Guaramiranga no interior do Ceará que tem seus calendários de editais de montagem e circulação, de ocupação dos centros, de eventos formativos como fóruns, congressos, festivais, mesas redondas, oficinas, intercâmbio. Como é possível para uma secretaria que na verdade são quatro, dar conta de tanta demanda? Na real? Não é possível!

Respeitável Sr. Prefeito a quem eu admiro tanto, porque conheci a Vitória da Conquista da década de 80 e conheço a de hoje, te digo com pureza de menina: serei eternamente grata pela grande revolução a que você Guilherme Menezes deu início na sua primeira gestão, e já lá se vão 16 anos ou mais. A marca de seu trabalho estará sempre associada ao desenvolvimento vertiginoso dessa agora metrópole. A ousadia que o senhor usou no enfrentamento dos cartéis do transporte público, a moralização do tratamento com o funcionalismo público e o pagamento em dias, dos proventos fortalecendo a dignidade do trabalhador, a coragem da implementação do orçamento participativo, a revolução na criação dos centros de saúde por bairros e o atendimento domiciliar, todas essas qualidades, que o senhor já provou ter, estão sendo aguardadas ansiosamente no campo da cultura.

E digo ainda mais, se me permite a ousadia o senhor que é da área de saúde: investir em cultura e arte é, irremediavelmente, investir em saúde, educação e redução da violência. É seu efeito colateral!

"Dê ao homem apenas o que ele necessita e ele terá se transformado num animal", nos disse o bardo inglês através de seu príncipe dinamarquês confuso!

Na Grécia Antiga, os médicos receitavam peças de teatro para esta ou aquela enfermidade, a depender do que carecia o paciente e do que ofereciam em termos de sentimentos aquela tragédia ou essa comédia. A experiência artística potencializa substâncias que o corpo precisa e a alma experimenta.

Arte e cultura são balaústres da saúde pública, coletiva, social!

A capacidade de abstração, desenvolvida na experiência artística, já ficou comprovado por estudos sociológicos, reduz índices de violência, desde a violência doméstica até as mais temidas violências urbanas.

Conquista é uma cidade antenada com o mundo. Não ter uma Secretaria de Cultura em quase duas décadas de gestão participativa parece um contra-senso  O alinhamento vertical das gestões municipal, estadual e federal é quase um alinhamento cósmico raro e deve produzir no campo da cultura e das artes o mesmo bem que vem produzindo na dimensão econômica e social, porque dela também faz parte. O Ministério da Cultura e a Secretaria Estadual da Cultura (que na gestão de Márcio Meireles caracterizou-se pela interiorização das ações e na do Profº Albino Rubim identifica-se pelo investimento na formação em artes) podem, sem sombra de dúvidas, auxiliar nossa cidade na construção, estruturação e manutenção desta nova e urgente secretaria.

E para encerrar minha argumentação, não posso deixar de declarar o lugar de onde falo. Além de Conquistense de nascença, atriz de formação sou também professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, que teve a ousadia e a coragem de sediar os primeiros cursos de artes do interior da Bahia. Uma verdadeira revolução na Instituição. O bacharelado em Cinema em nossa cidade e as licenciaturas em Teatro e Dança em Jequié (onde há muitos estudantes de Vitória da Conquista) vão gerar uma demanda imensa para a cidade e uma secretaria preparada para esta realidade precisa ser pensada e implementada urgentemente!

Talvez assim, depois da criação desta secretaria, da elaboração e implementação de políticas públicas contundentes e concretas não haja tanta dor e desespero ao emergir das entranhas uma beleza estranha, mas ao invés disso, num esplendor de glória, se aviste u'a grande luz!

Vô prossiguino estrada a fora, até porque eu acho que já escrevi mais do que devia e se alguém postar um comentário de que eu já tô passando do ponto, eu vou até concordar. Mas, como o nosso personagem, o Anônimo, não tem culpa das besteiras que diz, também não sou tão responsável pelas supostas besteiras que faço. Faço-as porque me sinto condicionada a elas, porque  tudo o que vivi e aprendi me trouxeram pra este lugar, pra esta cidade, pra esta universidade, pra este corpo de jurados, pra este festival, pra este blog, pra este post, pra essa esse parágrafo final.

As reflexões propostas aqui são fruto de intenso e contínuo debate com colegas da lida, amigos da vida, parceiros da arte. Sua escrita foi embalada pela inspiradora canção A MEU DEUS UM CANTO NOVO do queridíssimo Elomar Figueira, meu poeta favorito, que não trata deste assunto, mas me inspirou, e essas são coisas de processos criativos, fazer o quê?  

Os artistas clamam, cada vez mais alto, Sr. Prefeito:


Sê cult, Guilherme, SECULT!!!


Evoé, Conquista!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

DUCHAMP: Um Osso Duro de Roer: Uma parábola sobre a 'verdadeira' arte!

A Fonte, Marcel Duchapm, 1917

Em 1917 um artista francês, depois de ter provado durante anos que era um exímio pintor, colocou no museu como proposta de obra de arte um (hoje) famoso urinol, que não tinha sido feito por ele nem por nenhum outro grande artista. O que ele fez foi apenas pegar um objeto do dia-a-dia e colocar num espaço que se queria, deliberada e exclusivamente, artístico.

Não era o primeiro ready-made, mas, sem dúvida foi o mais polêmico.

A façanha tem quase 100 anos, mas ainda está longe o dia em que seu ato contundente e vigoroso será apenas um detalhe no mundo das artes.

Ao propor esta obra de arte, Duchamp que já era e ainda seria muito mais polêmico ao longo de sua brilhante vida, pegou o mundo pela gola, o sacudiu e disse:

O QUE É ARTE, AFINAL?
O PRODUTO?
A RELAÇÃO?
A PROPOSTA?
O CONCEITO?
O DISCURSO?

Isso tudo porque o mundo da arte havia desde já virado uma grande indústria. Um palco onde deveriam brilhar apenas alguns escolhidos, aqueles que demonstrassem para um público que se entendia sabidinho e inteligente que o tradição era posto, que a obra deveria ser avaliada apenas pela importância de quem assina, e que o artista deveria passivamente demonstrar habilidades, reproduzindo peças que se diziam inovadoras mas que ao fim e ao cabo apenas reproduziam um modelo de séculos.

Obviamente foi um escândalo!

"Quem Marcel Duchamp pensa que é pra nos ofender com seu urinol?" Bradou um!

"Está cuspindo na grande arte." Gritaram outros!

"Ora, como quer que nós, pessoas que estudamos que nos dedicamos ao nosso ofício possamos aceitar que alguém que se diz artista coloque o objeto que não foi ele quem fez e que ainda por cima é escatológico, numa galeria ao lado das nossas tão bem produzidas obras de arte?"

"Onde está a obra de arte?"

"A Arte morreu!"

kkkkkkkkkkkkkkkkk

E Duchamp assistindo a todo aquele reboliço, provavelmente sentado com seu charuto, jogando seu bom xadrez!

Marcel Duchamp: um ícone

O que a massa gritante e escandalosa não entendia (pois estava de olhos fechados para o futuro, pregados com cravos no presente, embotados com o gesso grego do passado) era que o que Duchamp estava colocando dentro do museu era um conceito. Um debate. Uma problematização. E que um produto artístico que não se preste a isso não deve mais ser considerado como importante, ou pelo menos, única forma artística.

A 'Arte' tal como entendemos hoje, como uma instituição fechada que se pode conceituar facilmente, é um conceito moderno, extremamente recente e não um fato natural. Durante muito tempo, em muitas civilizações a experiência artística sempre esteve lado a lado com a vida concreta e não era dela separada.

Duchamp, vendo o rumo que o conceito de arte do início do Século XX, dominado por quem estava se beneficiando muito com esse modelo, propõe discutir literalmente: 'QUE MERDA É ESSA?'

Em nenhum momento, ele virou as costas ou debochou da arte, muito pelo contrário. Sua atitude foi de um verdadeiro artista que bate uma palma bem grande, bota a mão na cintura e pergunta: 'QUE MERDA É ESSA?' Mas fez isso com sua obra, através do discurso estético. Sem gritar com ninguém!

Detratores e defensores até hoje discutem sobre o feito. Outras obras polêmicas Duchamp criou. O mundo das artes deu saltos importantes depois dele, mas mesmo assim, Duchmp ainda não venceu. Pegaram seu unriol e colocaram no Museu, agora sem o conceito, sem o discurso. Hoje, um outro urinol que não o original (martelado por um consumidor de arte indignado) jaz atrás de uma redoma de vidro, com toda a aura de obra de arte que um dia seu autor quis destruir. Calaram de alguma forma o artista ao enjaularem sua obra. A massa de gorilas continua gritando seu Uh-Uh-Uh!

O debate entre a tradição e a inovação, o paradeiro e o movimento sempre causou transtornos imediatos e resultados a longo prazo. Amadurecer, muitas vezes, é fazer uma retrospectiva da sua vida e ver de que lado você ficou. No discurso, um vanguardista. Na prática: um reacionário!

Isso não é raro, pelo contrário, raro é o oposto.

Raro é conseguir não gritar pelo prêmio, não brigar pelo título, não puxar o cabelo do outro, não urrar como homem das cavernas, na rua ou no facebook!

Raro é conseguir largar o osso!

Drica




DE SOLAVANCOS E DE MARÉS... assim caminha a humanidade

Quero agradecer aos novos leitores do blog. Bem vindos a esta casa.

Lamento pelo anonimato dos comentários, na grande maioria, mas isso não me incomoda.

Também não me incomodam as críticas, nem tampouco os palavrões.Quem se expõe publicamente está sujeito a isso. Sei disso como atriz, como professora, como trabalhadora em atividades como esta: ser jurada num Festival.

Apesar de eu ter pedido um pouco de afeto, meu pedido não foi aceito, tudo bem, este não é meu primeiro pedido não aceito na minha vida.

Acho que o record total e absoluto (que eu de fato jamais esperaria num post meu) de comentários revela a importância do espaço para manifestações. Mas o anonimato e a repetição dos argumentos vazios mostram que é preciso qualificar o debate.

Beleza.

Mas também não vou posar de boa e dizer que tá tudo bem. Um pouco de clareza e maturidade bastam pra reconhecer que há algo estranho no ar.

Poderia responder um a um os comentários que merecem resposta, mas acho que não devo fazê-lo aqui por motivos óbvios. Acho que podemos debater o tema, os conceitos, as trajetórias, o que Conquista é, pensa ser e quer ser. Apesar de mais de 100 comentários tenho a impressão de que eles representam o pensamento de uma ou duas  dezenas de pessoas. Imagino que há pessoas que pensam de outra forma, porque senão não teríamos tido a diversidade que tivemos em cena. O que falta, talvez, seja um fórum onde possamos debater questões de ordem estética, política, enfim.

Agora me permitam um desabafo. Quem se arvora a dizer isso e aquilo do festival, da organização, do corpo de jurados, parece se auto conferir um título de dono da verdade e senhor absoluto que tudo sabe, que tudo vê. Faz o triste papel de, em frases de efeito e numa avalanche de zombaria, se eleger como a grande pessoa que entende do verdadeiro e puro teatro. Que pena! Espero que esses donos da verdade, sem a menor auto-crítica, sem o menor senso de diversidade não empalideçam o cenário teatral local, que é muito maior do que um, dois, três ou quatro esbravejadores que por não terem argumentos gritam tanto e tão alto, dialogando apenas consigo mesmo, com aquilo que já estabeleceu como certo e que quer atochar como verdade para todo o resto. Entendo a existência dessas figuras. Elas fazem parte da história de algum modo. E sim, eu deixarei todo e qualquer comentário aqui, desde o mais infame até o mais discreto. Ficará como registro histórico do bem que o evento em questão fez e de como Conquista terá caminhado em sua trajetória teatral.

Acredito que o Festival foi e continuará sendo um sucesso. Festival bom é Festival polêmico!

Parabenizo mais uma vez a todos os participantes. Adoraria ter um espaço onde pudesse falar dos nossos debates, dos nossos critérios de avaliação, das nossas leituras estéticas. Onde pudéssemos dialogar de forma madura sobre nossas experiências, nossas trajetórias, nossos quereres, nossos olhares. Qual cidade não ganha com esse diálogo? Qual cidade não ganha ao deixar de brigar pelo que é certo ou errado e decidir abrir espaço para todos? Qual teatro não ganha com a diversidade? Estamos caminhando para a qualificação do debate e isso, de alguma forma começa também no espaço aberto onde se diz o que quer, não se assina nada, não se compromete com aquilo que deveria ser seu conceito. Até isso faz parte e fiquem tranquilos, vocês em nada afetaram, mexeram ou desestabilizaram aquilo que sou como atriz, pesquisadora, blogueira, professora.

É um prazer contribuir para o debate.

Drica