sábado, 17 de setembro de 2011

ENGENHO DE COMPOSIÇÃO

 Gentes.

Depois de um movimentado semestre de estréia (minha e de mais 3 novos professores de Artes da UESB - Jequié), eis que estamos prontos para nosso primeiro ritual de passagem. Trata-se da mostra ENGENHO DE COMPOSIÇÃO, onde serão apresentados para a comunidade de Jequié e região, com entrada franca, três espetáculos resultantes de disciplinas prático-criativas de Teatro e Dança.



O primeiro semestre vai apresentar o espetáculo LATUMIA ou A HISTÓRIA DE AMOR DE ROMEU E JULIETA, da obra de Ariano Suassuna, com direção de Roberto Abreu, já na sua terceira mostra, posto que é professor veterano, na casa desde a primeira turma do curso. Neste semestre, os estudantes de dança e teatro estão estudando o chamado tronco comum, e ocupam durante um ano, a mesma sala de aula.
20 e 21/09 (ter e qua) -18h e 20h





O 3º semestre de Dança apresenta a sua primeira coreografia, com orientação de Flaviana Sampaio, professora recém-chegada como eu, que encarou o duro desafio de já no primeiro semestre na casa, dirigir um espetáculo coreográfico completo. CABALÉ é uma provocação ao códigos do balé clássico, misturados ao universo do Cabaré. Uma provocação técnica e temática que resulta num espetáculo instigante, pelo que eu pude ver dos ensaios.
22 e 23/09 (qua e qui) - 18h e 20h



O terceiro semestre de Teatro está sob orientação de minha amiga (também caloura) Carla Meira Pires que ministra e disciplina Improvisação e Jogos Teatrais I. Essa turma coloca no palco o espetáculo VITRINE LUDENS, um jogo de cena inspirado nas memórias dos participantes. Carlinha também é retada, porque também encara a montagem de um espetáculo completo, já de chegada. A galera não tem medo de se jogar. Eu amo esse povo!
24 e 25/09 (sex e sáb) - 18h e 20h



INTERFACES POÉTICAS

Eu, Adriana Amorim, professora de Teóricas, vou expor discretamente entre as apresentações da noite, pequenos textos dramáticos produzidos por alguns dos estudantes do 3º semestre de teatro na disciplina INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO TEXTO DRAMÁTICO. As leituras serão feitas por professores do curso, sob minha orientação. A ideia é brincar com a relação entre estudantes e alunos, além de colocar os professores no palco, sobretudo os que não são de teatro e dança, para que experimentem esta estranha sensação de ser outro na frente de tantos. As apresentações seguem o roteiro abaixo:

QUARTA-FEIRA: entre as sessões de18h e 20h:

Leitura do texto Pão com Manteiga de Valter Amorim
Com os Profs. Marcos Aurélio Souza, de Literatura e Carla Meira de Teatro

QUINTA-FEIRA: entre as sessões de 18h e 20h:
Leitura do texto Vamos a la tierra de los pies juntos de Matheus Xavier
Com os Profs. Marcos Salviano, de Letras e outra professora que ainda estamos procurando...

SÁBADO:
Leitura do texto Chocóladra de Poliana Lopes
Com os Profs. Aroldo Fernandes, Roberto Abreu, Flaviana Xavier, Adriana Amorim, e outros que ainda estamos procurando...


Aroldo Fernandes, professor de TECNOLOGIAS APLICADAS À CENA e de ELEMENTOS DA MÚSICA PARA A CENA apresentará uma mostra de vídeos produzidos pelos próprios estudantes, incluindo roteiro, captação de imagens, edição e sonorização. A mostra estará exposta durante toda a programação.

Gostou?

Então, programe-se. Dê um pulinho no Centro de Cultura de Jequié entre os dias 20 e 25 de Setembro e veja a revolução artístico cultural que se ensaia no Sudoeste da Bahia.
Depois das apresentações, tem sempre um delicioso barzinho com boa comida, bebida, música e preço, esperando essa gente sedenta de cultura e alegria.
E vá se acostumando a essa mudança de eixo que acontece na Bahia, quando sair o interior e ir para a capital deixa de ser a única rota possível quando se fala em turismo cultural.
Além das festas juninas, essa inversão de direção já acontece com o Festival de Inverno, o Festival de Lençóis, Festival de Jazz da Chapada, as apresentações de óperas na Casa dos Carneiros de Elomar Figueira, em Conquista e tantos outros eventos que eu com certeza estou esquecendo.

Abra sua cabeça, pegue sua mochila e venha nos prestigiar.

Tem muita gente feliz aqui esperando para compartilhar dessa felicidade de estar vivo, de fazer arte, de viver o interior!

domingo, 4 de setembro de 2011

DRAMATURGIA FUTEBOLÍSTICA - para mim, a melhor de todas!!!!

Romeu e Julieta não morrem e se casam!

As filhas do Rei Lear são boazinhas e cuidam do papai até a morte!

Macbeth desiste de matar o Rei e fica bonzinho e tem filhos com a Lady que estava só de TPM!

Joaquim, Helena Lucília e Marcelo recuperam a fazenda de café depois de pagarem A Moratória.

Bahia vence o Flamengo de 3 X 1 no Engenhão.

É por aí.

A Dramaturgia do Futebol é mais ou menos como ilustrada acima.

Final conhecido? Jamais.

Previsível? Raramente.

A nação tricolor hoje viveu a alegria quase que inimaginável de vencer do Flamengo depois de uma série de jogos horrorosos, de desempenhos maçantes, contra um time carioca, favoritinho de juízes, repórteres comentaristas e torcedores. O queridinho do Brasil, depois de 5 jogos sem ganhar, achava que ia fazer a feira com o Bahia. Ledo engano.

Para o futebol, haverá sempre o imprevisível.

Para nossa dramaturgia futebolística, haverá sempre o destino e para narrá-la, haverá sempre o leitor-torcedor, dono absoluto da alegria de traduzir em palavras, ao longo da semana (ao menos até quarta-feira quando uma nova obra estreia) essa grande obra da natureza humana que é um jogo de futebol!

É bolada, Dramaturgo-Torcedor!


sábado, 3 de setembro de 2011

TRUPE DE TEATRO NOSSOS TRECOS

Parece trava língua, e de repente até é, mas trata-se de um grupo de teatro que vem produzindo e ganhando espaço no cenário de teatro infantil, principalmente, em Salvador e Região Metropolitana.

É a TRUPE DE TEATRO NOSSOS TRECOS, formada em sua maioria por jovens atores, diretores e dramaturgos, estudantes ou formados em Licenciatura em Teatro e que participaram de projetos sociais com o foco em teatro.

Uma nova de formação de atores, a integração da arte com processos educacionais, quer seja pelos projetos sociais com vinculação artística, como foi o CUIDA BEM DE MIM de onde saiu boa parte dos artistas da Trupe, quer pela prática do teatro nos cursos de Licenciatura.

Novos e cheios de vontade, livres dos ranços e das brigas e embates que engessam a velha guarda do teatro baiano atolada em muitas reclamações e poucas produções, esses meninos e meninas querem mais é fazer o teatro deles, conseguir verba para trabalhar de forma justa e viajar em suas experimentações estéticas.

Admiro demais essa gente que se juntou com quem se afina e não ficou na lamúria de tentar entrar nos grandes círculos (herméticos) em busca de ser o novo Wagner Moura ou o novo Lázaro Ramos. Querem ser eles mesmos, fazer o que tão a fim e, de quebra, se der, fazer sucesso, claro.

Público, eles já tem aos montes. Com seu primeiro espetáculo LARISSA E SEUS AMIGOS MÁGICOS, conquistaram o exigente público infantil e em três anos poucas vezes estiveram fora dos palcos. Infelizmente eu não assisti ainda (VERGONHA...), mas tenho certeza que assito em breve e comento aqui.

Apesar do nome guti-guti, eles também já fizeram um espetáculo adulto INSUPORTÁVEL, UMA COMÉDIA DE BATOM VERMELHO, com texto também de Jones Mota, como as demais produções do grupo. Para conhecer quem é quem na trupe, entre nos sítios do grupo, relacionados logo no finalzinho do post.


Mas, eu já falei demais, né.

Assista ao animado bate papo com JEFERSON ALBUQUERQUE, IVE-ANNE STANCHI, LORENA GIAMBERTINI e TAIANA LEMOS (todos meus ex-alunos, atuais colegas e sempre amigos) onde falam da história, da relação com o público, os desafios  ao longo destes anos e sobre a nova produção que estão preparando: MEIA DÚZIA DE PEPINOS.

Eu curti muito fazer, espero que vocês curtam assistitr.


Para saber mais sobre o grupo acesse o site:


ou blog:

http://trupenossostrecos.blogspot.com/

E, agora sim, assista à entrevista CLICANDO AQUI.




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DUAS TEMPORADAS DE VOLTA

Gentes.

Dois ESPETÁCULO inspiraram textos do VI E QUERO COMENTAR e do DEZ MINUTOS COM... estão de volta aos palcos baianos.

Por isso, aproveito a oportunidade para convidá-lo a ler ou reler nossas considerações sobre estes espetáculos e artistas:

O primeiro deles é DÁ UM TOQUE QUE EU RETORNO, que eu comentei e critiquei bastante o espaço onde estrearam, comprometendo-me a reassistir assim que eles voltassem em outros espaço, para que eu fizesse um novo comentário. Não fui ainda, mas estou comprometida. Assim que der eu quero ver a nova temporada. CLIQUE AQUI PARA LER O POST





 Outro que volta aos palcos - e que para nosso bem, quase nunca sai deles - é o talentosíssimo e plural FABIO VIDAL, que volta com a CONEXÃO VIDAL, presente tanto no BAHIA EM CENA quanto no FILTE.
CLIQUE AQUI E LEIA O POST e EM SEGUIDA ASSISTA À entrevista com o idealizador deste trabalho.



Leia, comente, divulgue, siga!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

GRAND THEATER PÃO E CIRCO

Gente, infelizmente não pude ver essa temporada da excelente peça da Manada Confraria de Teatro, grupo que eu admiro profundamente. Assisti há aproximadamente dois anos e afirmo até hoje que é uma das melhroes peças que eu já tive o prazer de assitir.

Curiosamente mexendo em meus back-ups, encontrei um trabalho produzido para a disciplina TEORIA DA RECEPÇÃO quando ainda estava no mestrado. Nesta disciplina, ministrada pelo meu querido orientador de então e de agora, tínhamos que fazer um comentário sobre algum espetáculo, mas a partir de um conceito de crítica bem diferente do que tenho feito aqui no blog. Neste princípio, devemos evitar fazer juízo de valor e devemos tentar nos ater apenas à descriação da experiência. É óbvio que eu não consegui mutia isenção, vocês já me conhecem...

O texto é longo, mas Kahrol Ribeiro com seu trabalho primoroso e impactante valem a longa leitura. Observem as mudanças no visual da peça, sobretudo no figurino e maquiagem que a peça foi sofrendo ao longo dos anos.

Espero que gostem. E lamento que teatro não é como cinema que deixa a obra aí pra sempre. Queria que essa peça ficasse em cartaz pra sempre, mas pra sempre não é da nossa natureza. Paciência.

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Análise do espetáculo Grand Theater Pão e Circo, da Cia Manada de Teatro.

Criação, direção e atuação: Carol Kahro


O grande cartaz com um boneco andrógino convidando o observador é provocativo. A sinopse parece um pouco pretensiosa. Diz-se que o espetáculo solo trata de questões da contemporaneidade, da influência da mídia em nossa geração, fazendo um paralelo com o pão e circo romano. Restava no ar o conflito entre o convite sedutor do cartaz e a desconfiança de sinopse tão abrangente.
No dia internacional do teatro, dentro da programação este espetáculo volta a cartaz e ei que vou render-me ao convite visual. Na entrada, o cartaz se configura em cima do palco. A atriz, andrógina como o personagem do cartaz com maquiagem precisa e figurino básico, parece assustada, recebe a platéia de cima do palco, acenando, indicando lugares para sentar. O cenário é repleto de quadrados de cores no tom terra. Algumas caixas de diferentes tamanhos e um tapete que avança para formar a parede do fundo, onde se encontram algumas telas de tv.
Terminada a entrada da platéia a atriz posiciona-se no proscênio e começa a narrar uma tragédia familiar, descrevendo os mínimos detalhes, ao mesmo passo em que vai desenhando o acontecimento com o corpo. Fala de uma família que está sob a mira de muitos revólveres de policiais que ameaçam invadir a casa se o marido não se entregar. Construindo com muita dinâmica a cena, ela passeia por todos os personagens, pai, mãe e crianças, ao mesmo tempo em que descreve a cena.
Parada brusca na história. Daí em diante a atriz vai vivenciar cenas de uma mulher normal em seu cotidiano classe média. No intersecção das cenas, porém vão aparecendo cenas nas telas de TV da violência no oriente médio. A personagem vai dialogar com os fatos apresentados na TV. O texto, construído de forma extremamente eficiente constrói com a encenação uma sensação para o público de extrema clareza de seu conteúdo, de altíssima ironia e de uma proximidade com nossa própria história, que chega a nos constranger. Rimos, mas pensamos: e eu, por acaso não sou assim? Esta é a pergunta que vai nortear todo o espetáculo.

Essa personagem vai ganhando vida através de cenas separadas com muita definição. O apuro técnico tanta do trabalho da atriz quanto das opções de encenação dão ao todo mais clareza e crueldade, pois os fatos parecem ser incontestáveis e a viagem estética que se promove através de cores e formas geométricas parece hipnotizar o espectador. A precisão do texto está no cenário, no figurino e sobretudo no trabalho da atriz.
A partir da entrada na vida desta personagem, sua relação com o filho, com a empregada, com os amigos e sobretudo consigo mesma, através das cenas de extrema solidão, mais do que revelar o stanislavkiana psicologia da personagem, vai nos provocando e retomando a todo instante a pergunta inicial: e eu, sou assim?
Uma das cenas que chama atenção pelo contraste, próprio do dia-a-dia, entre o discurso proferido e a ação realizada ao mesmo tempo. A personagem que se diz defensora dos direitos humanos e sentiu-se tocada a pouco pela morte de uma mulher no oriente médio diz para a empregada, ao reclamar da arrumação equivocada do armário: “Esta parte ficam as comidas do meu filho, aqui as minhas e aqui as que você também pode mexer.” No mesmo instante ao negar aumento de salário para a empregada, argumentando que tem que pagar a academia, pede no mesmo discurso para que a empregada cuide de seu filho no domingo à noite, implorando, recorrendo aos sentimentos da empregada, que obviamente, não recebe o aumento e ainda aceita trabalhar no domingo a noite. Independente da simplicidade do enredo desta cena, o impacto está na interpretação da atriz, que sozinha, entre caixas, nos permite experimentar a existência da empregada, dos móveis, da casa.

Em outras cenas a personagem experimenta de uma solidão profunda ao esperar pelo homem que ela considera seu namorado, mas que obviamente – isso percebe-se pela ingenuidade do diálogo dela no telefone com ele – não tem mais interesse nela. Ela, no restaurante, sem dizer palavra, senta-se, entusiasmada e o relógio digital nas telas da tv vai marcando o passar cruel da noite. 19, 20, 21... 24h. Seu humor altera-se e toda a compreensão descrita aqui parte do trabalho corporal da atriz. O intervalo entre as horas de espera no restaurante é permeada por cenas que cruzam esta, marcando horário anterior á chegada no restaurante, incluindo uma conversa com uma amiga e a conversa citada acima com a empregada. O tempo é todo cortado e o espectador é convidado a aceitar o estranho, o que não se compreende, mas se delicia no olhar, para depois respirar aliviado: Ah, entendi!!!
Durante a apreciação parece impossível não apreciar o trabalho da atriz para além da encenação. Além de nos envolvermos com a história que é contada ali e com o jogo cênico, surpreende as mudanças de personagem ou de humor da atriz fazendo o mesmo ou outros personagens.


Numa cena em que o suposto assaltante que violenta a personagem é interrogado, a atriz coloca-se no lugar de promotor público e diz impropérios a um balão de gás hélio preso a uma caixa de madeira. O balão é azul e de uma infantilidade tocante. Mas ali, na contracena com a atriz o balão é o cruel assassino que merece ser torturado e pagar por sua deficiência de moral e caráter. Num discurso contundente, irônico e provocativo a atriz como que encostasse uma navalha no pescoço do público questionando: “e você o que acha disso?” Num dado momento ela pega o dito marginal pelo “pescoço”e diz-lhe: “Alguma coisa deu errado em você. A natureza falhou. Você é um defeito da natureza.” Então convida todas as vítimas do criminoso a se vingarem dele. Promove uma fila para o linchamento organizando explicando: “crianças, idosos e gestante tem preferência.” Como fica parada esperado o primeiro a reagir, uma pessoa da platéia aceita o convite, no que a atriz rebate: “ a senhora agora, não, tem que ir para o fim da fila.” A platéia, que já estava em suspensão por conta da intensidade da cena do promotor e da crescente empolgação que adquire ao organizar o linchamento, aplaude e apega-se a este momento de poder retornar a um nível menos pesado da existência.
A seguir, a empregada volta pra casa e encontra-se com seu marido e seus filhos. Aos poucos, através das cenas realizadas e através das imagens de violência na TV, quando são projetados recortes de telejornais onde só se fala na intensidade da violência urbana, na crueldade dos métodos, na ação dos policiais que deveriam proteger e dar segurança aos civis, vamos percebendo que esta família é a família do início do espetáculo e já começamos a sofrer por antecipação, pois já sabemos o final da história. O que não nos assegura, porém de não sofrermos, pois a cena vai sendo criada numa velocidade compatível com o que vivemos hoje nas nossas relações urbanas e midiatizadas. De um outro ponto de vista, o que foi descrito no começo, vemos a mãe, os filhos e o pai, acuados pela polícia, Nas telas do cenário, os telejornais vão contando a história que passa a nossa frente, com cortes bruscos e imagens de diferentes emissoras sobre o mesmo caso. A tensão vai subindo, os textos da atriz em qualquer um dos personagens – pai, mãe e crianças – casa perfeitamente com os textos da TV. Aos poucos vamos entrando na tensão criada pela cena, a atriz, como mãe gritando desesperada para proteger os filhos, pedindo que o marido se entregue, como pai, tentando compreender o que está acontecendo, sem saber porque deveria se entregar, como os filhos, gritando com medo da morte, até que grita incansáveis vezes o nome do marido, quando atriz e platéia, já exaustos, descansam sobre a crueldade do desenrolar da história, sobre o desespero do vazio, sobre a dor de não sabermos o que fazer diante do que percebemos, mas não compreendemos.
Com os olhos cheios de lágrimas, comovida pela experiência, pelo vigor político e pelo trabalho artístico realizado diante dos meus olhos, bato palmas incansavelmente durante, sem dúvida, mais de dois minutos. A platéia em delírio. A atriz chora comovida e agradece a presença de todos.

Eu saio da sala de teatro tremendo, invadida por impressões, certezas e dúvidas. Uma sensação de maremoto toma conta de mim. Sinto tontura até. Aguardo ansiosa por um contato com a atriz, dou-lhe um breve abraço, parabenizo-a e sobretudo, agradeço. Até hoje, aguardo a volta do espetáculo para recuperar partes do enredo, soluções cênicas, imagens perdidas na escolha do olhar que requer o teatro. E fortaleço-me com o sentimento de que a arte enaltece a existência, traduz o indizível, recolore as tintas desbotadas da existência.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

O palco na Telona

Não é de hoje que o teatro inspira outras atividades humanas. Psicologia, Filosofia, Música entre tantas outras, buscam no universo paralelo criado pelo teatro (seja na dramaturgia, seja na encenação ou mesmo na prática cotidiana de se fazer teatro, de se viver para o teatro) um tema, um mote, uma história, uma reflexão, uma teoria...
Tudo isso e muito mais nos é oferecido o tempo todo pelo generoso ato de representar, e aqui eu digo representar num amplo sentido aristotélico de recriar o princípio criador.


Tá ficando pesado o post, né? Parecendo tese... por que será? Vai piorar, veja só:

Mas o cinema, ah, este tem um verdadeiro caso de amor com o teatro. A gente até chega a achar que é seu filho direto. Cleise Mendes em As Estratégias do Drama nos lembra ao discutir sobre a Convivêcnia Dramática:

Existe uma arte do drama e uma arte do teatro. Se durante séculos o palco foi o lugar privilegiado para uma leitura produtiva dos textos dramáticos, no presente o drama tem íntimas e inquietantes relações com outras linguagens, entre as quais a grande arte cinematográfica.” (MENDES, 1995. P. 30)
Num falei? Rolou até citação... Isso que dá fazer post no meio dos estudos do doutorado. Mas, avancemos...

Não é à toa que a relação do teatro com o cinema é mais do que íntima, é de parentesco. Cineteatro. O termo vem justamente do cinema enquanto lugar onde se assiste o filme. Lembrando aos desavisados que teatro é, etimologicamente, o lugar preparado para o olhar, do grego THEATRON. Home-theater não é para você assistir a peças me casa, mas sim, a filmes. E nos traillers a gente sempre vê em inglês: ONLY ON THEATERS (ou theatres ambos corretos), que é APENAS NOS CIMENAS, ou seja, ainda não em dvd. Só na sala preparada para o seu olhar.

O que eu quero dizer em relação à citação de Cleise Mendes (minha querida professora de Dramaturgia) é que não estou falando apenas do drama (do grego DRONTAS, ação) no cinema, quer seja a dramaturgia do roteiro ou um texto dramático que tenha virado filme. Essa categoria será a segunda leva de sugestão de filmes, porque são muitos, muitos, muitos filmes cujo roteiro é a adaptação de uma peça.

As diferenças entre texto dramático e texto teatral são ótimos de serem estudados, mas não cabe aqui, né. Alô queridos estudantes de Jequié, esse papo é privilégio nosso...


O que está nessa página O PALCO NA TELONA, nesta primeira edição é uma lista de 20 filmes que versam sobre o universo do teatro.

Histórias sobre atrizes, atores, grupos, autores, sobre um determinado período da história do teatro, portanto da humanidade, ou mesmo reflexões sobre este mundo que olhado assim, bem de pertinho nos falam tanto dessa tarefa árdua e doce de ser gente.

Não é à toa que segundo Harold Bloom (lá vem eu de novo...) diz que Shakespeare inventa o ser-humano, ou que a Tragédia Grega seja apontada nos estudos da Psicologia e da Filosofia como o berço do homem ocidental, como o conhecemos (e o somos) hoje. Mas, voltemos à lista:

A maioria deles eu já assiti, outros foi buscando em blog mesmo. Alguns eu gosto muito, outros eu acho chatos, mas todos importantes.

Entre os meus favoritos está o clássico A VIAGEM DO CAPITÃO TORNADO do maravilhoso Ettore Scola de quem eu amo todos os filmes. Além de uma linda viagem pela Commedia Dell'Arte o filme é uma viagem pela o universo da beleza. Enfim, clássico é clássico, né.

Outro queridinho é do meu outro ídolo do cinema Fernando Meirelles, que apesar de ser uma adaptação de uma obra canadense, tem uma íntima relação com nossa realidade brasileira. Elenco, direção, roteiro, Afi Maria é tudo perfeito. E a trilha? Secos e Molhados para os novos conhecerem e os velhos morrerm de saudosismo. Tudo de bom. SOM E FÚRIA coloca Shakespeare dentro da nossa sala, do título ao roteiro, passando obviamente pelas obras encenadas pelo grupo. A humanidade das personagens, todas elas, do protagonista aos figurantes é tocante. A brincadeira interna dos nomes, todos ou sua maioria tirados do universo dos grandes autores e diretores e personagens da dramaturgia universal (sem contar com a homenagem-veneno à grande crítica Bárbara Heliodora)são um presentinho para quem faz teatro e entende a piada. Amo muito.

PERGUNTE-ME SE ESTOU FELIZ é menos conhecido, mas nem por isso menor. Linda comédia sobre atores amigos e sobre uma montagem de Cyrano de Bergerac que acabou por inspirar o rebanho de atores numa de nossas montagens. Delicioso!

Alguns eu conheci há pouco. ILLUMINATA eu assisti por acaso num canal fechado nessas madrugadas que a gente fica zapeando. Belíssimo. LOPE eu assisti porque é tarefa de quem faz teatro assistir a essas obras, mas honestamente eu num gostei, não. Primeirisimamente porque fala mal de Miguel de Cervantes e não dá pra levar muito a sério alguém que solta vários venenos questionando a qualidade literária de Cervantes. Tudo bem que sua grande obra seja um romance, mas eu acho feio esculhambar um artista para elogiar outro. Fico já de má vontade com essas práticas. Depois, o filme é ruim, o ator principal não tem carisma, o roteiro é previsível até a alma e tem cenas que são uma cópia da versão cinematográfica de Cyrano de Bergerac (de novo) na versão com Gerard Depardieu, que eu adoro! Gosto da direção de arte, da ambientação, da reconstituição história e só. Mas tem que assistir, viu, gente, não dá pra ficar com a minha opinião só, né.

O restante são filmes importantes que mereceriam também ser comentados, mas o post ia ficar imenso e eu com as costas podres...(já sinto uma dor na cervical).

Termino com aquele que jamais pode ser esquecido. Para mim o melhor filme de Almodóvar (todos ótimos). TUDO SOBRE MINHA MÃE fala de tanta coisa, meu pai, que eu fico pensando quem é esse espanhol que consegue fazer tanta coisa num filme só. Alinhavados pela prática do teatro estão na tela amor de mãe, homossexualidade, transexualidade, amizade, AIDS, prostituição, drogas, enfim, como diz minha querida Antônia Pereira: deus, o mundo e as cabras do seu Raimundo. Aqui, no nosso caso, as cabras do seu Almodóvar, esse mestre da ficação e da beleza.

Chega né, gente. Larga essa intenet e vá ver um filme sobre teatro, porque é gostoso demais.

Deliciem-se.

O PALCO NA TELONA - CLIQUE AQUI

Conto com vocês para aumentar essa lista. Indiquem nos comentários deste post novos títulos que eu não conheça ou tenha me esquecido.


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sábado, 27 de agosto de 2011

Vi o luar e Quero Protocolar





Acabo de chegar do espetáculo PROTOCOLO LUNAR, do Grupo OS IMAGINÁRIOS.


O luar, ah o luar!

Um ótimo lugar para recomeçar depois de mais de dois meses afastada das plateias de teatro. Um ótimo lugar para ver e comentar, com todo o carinho e respeito que tenho pelo grupo e seus integrantes. Com toda a emoção e alegria com que saio do espetáculo.

Uma poesia em cena, com imagens encantadoras, com uma atmosfera sutil e tranquila, lugar para ser leve, alegre e feliz.

Tenho o privilégio de ter assistido aos três espetáculos dessa gentil e bela companhia. O primeiro deles, Ciranda de Estórias me encantou pelo apuro estético e pelo vigor artístico-pedagógico que inaugurava na escola (corrijam-me se eu estiver errada) o trabalho com teatro de animação. O segundo, já um espetáculo mais maduro e tecnicamente mais elaborado - para mim o melhor do grupo - uma versão cruel de tão poética da obra de Samuel Beckett, Fragmentos.

Mas, voltemos ao luar, ou melhor, ao PROTOCOLO LUNAR:

A profundidade do belo palco do Martim Gonçalves ajuda a criar aquele universo imenso onde nos perdemos ao som da sanfona de Zé de Rocha e das virtuosas cordas de Tales Braches. Diretores musicais e compositores das canções executadas ao vivo. Belíssimo começo, meninos. A música é, para mim, uma das estrelas do espetáculo. E falar de estrelas num espetáculo como este não é pouca coisa.

O grande trunfo do espetáculo é, sem dúvida, a capacidade de produzir ali no palco, na sua inteireza e consistência, na sua fisicalidade e presença, a poesia, coisa assim tão tênue, tão volátil (eu adoro esse nome) tão etérea.

A presença dos bonecos (confeccionados por parte do elenco) e o belíssimo cenário - da própria Sônia Rangel que também assina texto e direção - junto com a trilha, como já se disse e com a bela luz de Pedro Dutra que não exagera nem na luz nem no escuro - é responsável direta por essa materialização da poesia. Poesia encarnada nas imagens. A força dos bonecos é tamanha que, para mim, o espetáculo começa de fato quando eles entram em cena.

A imponência dos belíssimos adereços já vai nos transportando pelo imaginário da proposta. Os sete livros da velha Senhora são verdadeiras obras de arte autônomas dentro daquele universo. No entanto, a cena inicial com as atrizes (na minha modesta opinião, é importante sempre lembrar) parece destoar um pouco do restante do espetáculo. A interpretação ainda está bastante didática, talvez pelo pouco tempo de espetáculo em cartaz, já que esta é sua primeira temporada. Não sei se é a expectativa da entrada dos bonecos, mas acho que a cena com a Menina e a Senhora fica devendo ao que o cenário propõe. Sinto que as atrizes ainda não estão introsadas (que comentário de futebol este, meu deus!) e que as falas saem ainda sem brilho, decoradas, educadas e disciplinadas demais para uma peça cujo universo é oposto a essa organização.

A narrativa verbal parece querer ser dona da história, sem saber ela que toda a história já está lindamente narrada nas imagens e na presença e interação dos bonecos. O excesso de falas, ainda que falas poéticas na maioria das vezes, faz com que as cenas sem os bonecos sejam um pouco cansativas.
Ainda em relação às atrizes, senti que elas mereciam uma maquiagem mais próxima do universo da montagem, mais ousada, mais inspiradora. O tempo todo eu sentia falta de uma maquiagem poética por assim dizer. O figurino da Menina (interpretada por Juliana de Sá) também fica muito a dever à visualidade da peça. Se o da Senhora (interpretada por Sônia Rangel) dialoga um pouco mais com a proposta do cenário e adereços, sobretudo o seu sobretudo (me permitam a brincadeira infame) o de Juliana passa longe de qualquer apuro na criação. Parece, a meu ver, que foi aquele último detalhe que não deu pra cuidar antes da estreia da temporada. Se for, que este seja um ponto importante para a nova temporada (que com certeza vai haver). Se não for, desculpem esta espectadora ousada e intrometida por demais.

Outro aspecto que a meu ver atrapalha a visualidade é justamente o que para o cenário é uma vantagem, que é a profundidade do palco. Atuando quase que o tempo todo na direita-alta (mais para o fundo do palco) os bonceos acabam por se perder na imensidão do palco. E ainda mais em se trantando de Martim Gonçalves, com uma plateia tão grande. Talvez seja o desafio de numa mesma peça ter que lidar com as especificidades do teatro de imagens e do teatro de bonecos - dos quais eu só entendo como espectadora mesmo. Para mim parece que a profundidade do palco favorece o primeiro e prejudica o segundo.

Eu tenho algumas restrições com peças que acabam-mas-não-acabam. Fico sempre achando que o segundo final tem que ser muito grandioso para merecer a pegadinha. Apesar de achar que em termos cênicos, o primeiro final era suficiente, a alegria e o encantamento da canção que encerra de fato o espetáculo fazem com que eu perdoe os dois finais. Terminei a peça, feliz.

Não posso deixar de comentar sobre a delícia de ver no palco as belas palavras de Sônia Rangel, que tive o prazer de conhecer em seus dois livros CASA TEMPO e OLHO DESARMADO, em suas aulas de mestrado e doutorado, como sua colega nos ofício da docência na mesma e querida Escola de Teatro da UFBA e mais especialmente, no universo criativo, quando seu primeiro livro serviu de inspiração para a construçao do espetáculo DORALINAS E MARIAS do qual fiz parte do elenco em 2009.


A poesia da presença da criança, da alegria, da imagem, da música, do imaginário, dos conceitos, da beleza de existir, tudo isso que caracteriza Sônia como artista, professora e pessoa, estão generosamente colocados sobre o palco e servido a nós, com toda humanidade e bondade que pode ser possível a um ser humano no ato de se doar, ato este chamado fazer teatro. Colocar-se como atriz, dividindo palco com seus alunos e colegas de pesquisa revela a generosidade e sabedoria dessa bruxa-artista que promove nesta linda história de amor sobre o palco, um lindo encontro da plateia com a beleza e a poesia.


Obrigada, Sônia Rangel. Obrigada, meninos IMAGINÁRIOS: Adiel Alves, Cláudio dos Anjos, Heyder Moura, Isis Fraga, Jeane Sánchez, Juliana de Sà, Ricardo Steward, Ruth Marinho, Vera Pessoa, Yarassarath Lyra.


FICHA TÉCNICA - Eu sempre roubo de outro blog.

DRAMATURGIA E DIREÇÃO: Sonia Rangel
CO-DIREÇÃO: Rita Rocha
ASSISTENTE DE DIREÇÃO: Yohanna Marie Assumpção
ELENCO:
Adiel Alves, Claudio dos Anjos, Heyder Moura, Isis Fraga, Jeane Sánchez, Juliana de Sá, Ricardo Stewart, Ruth Marinho, Sonia Rangel, Vera Pessoa, Yarasarrath Lyra
PARTICIPAÇÃO ESPECIAL NO POEMA GRAVADO: Harildo Dêda
DIREÇÃO E PARTICIPAÇÃO MUSICAL: Thales Branche (violão) e Zé de Rocha (acordeon)
PREPARAÇÃO CORPORAL: Saulo Moreira
CENÁRIO E FIGURINO: Sonia Rangel
MONTAGEM CENÁRIO: Zuarte Júnior e Agnaldo Queiroz
CRIAÇÃO E REALIZAÇÃO DOS BONECOS: Jeane Sánchez, Juliana de Sá, Rita Rocha, Sonia Rangel, Wilson Júnior, Yarasarrath Lyra
CRIAÇÃO DE LUZ: Pedro Dultra
OPERAÇÃO DE LUZ: Camila Guimarães
FILMAGENS PARA A CENA: Mariana Dornelas
COMPUTAÇÃO GRÁFICA: Leandro Sena
OPERAÇÃO DE SOM E DE IMAGEM: Móises Victório
MAQUIAGEM: Renata Cardoso
FOTOGRAFIA: Isabel Gouvêa
CARPINTARIA: Ademir França
METALURGIA: Lico Santana
PROGRAMAÇÃO VISUAL: Solisluna
PRODUÇÃO: Sonia Rangel
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Yarasarrath Lyra com colaboração do Grupo Os Imaginários

sábado, 20 de agosto de 2011

INSPIRAÇÕES

Algumas imagens me convocam a criar.
 
Sempre quis fazer um espetáculo que levasse ao palco a sensação que tenho ao ver o copo de escovas de dente na pia. Esta é uma imagem que me convoca, me inspira me intriga.
 
Ela fala pra mim das relações da casa, da família, das visitas que vão e vêm, enchendo e esvaziando este espaço de convívio. Juntinhas, as escovas de dente encostam pés e separam cabeças com cedras que arrepiadas indicam o tempo passado e juntinhas, durinhas, indicam sua antipática e dolorosa juventude.
 
Amo as quatro escovas coloridas, pedaços de mim, meu amor e nossos filhos. Somos nós, dentro daquele copo. Em Jequié, minha escova pende em diagonal, sozinha no banheiro do fundo. Tão eloquente!
 
Outra coisa que me inspira são nomes para possíveis peças que eu faria. Como a imagem das escovas, eu não penso em mais nada além disso, desse impulso inspirador. Não sei avançar. Não trabalho nisso. Curto sozinha a criação. Isso é horrível.
 
São nomes que eu adoro. Como já quis botar em meus futuros filhos, quando eu tinha 15 anos, nomes como Cibalena, Adis-Abeba, Atrib, penso em nomes de espetáculos que me ganham pela sonoridade.
No momento, divirto-me com uma peça em minha cabeça. Seu nome?
 
Avec la participación....
 
Eu adoro ler isso nos filmes franceses ou em produções mistas. É tão sonoro, tão bonito. Aí, eu passo os dias vivendo este espetáculo. Penso nas cenas, vejo, me divirto... Avec la participación...
 
Mas, depois ela passa.
 
Tantas outras que eu já pensei, senti e conclui, sem nunca sair de mim. Isso é que eu chamo de teatro íntimo.
 
Adriana Amorim em: Avec la participación....
 
kkkkkkk. Adoro!
 
O que tem me incomodado porém, é que da fase da inspiração eu não passo. Falta trabalho.
Falta trabalho, porque é trabalho demais.
Ouço Mautner, Arnaldo Antunes, Gilberto Gil, Amy, leio Clarice Lispector, vejo a porra de sua entrevista, meu deus.... Queria fazer poesia ou música, tão mais paupável que teatro. O fazer mais pessoal, mais íntimo, mais possível...
Fazer teatro é difícil demais, minha gente. É um negócio grande, tão grande, envolve tanta coisa.
Num podia ser só isso, no nosso quarto, com a gente mesmo.
 
Ser atriz é uma escravidão.
 
Queria ser Cantora, compositora, escritora, pintora, escultora, afi Camile Claudel.
 
Mas canto e me dou conta que sou só atriz.
Escrevo e me dou conta de que sou só atriz.
Pinto e e me dou conta...
 
Quanta crise para quem ia falar de inspiração.

Mas, entre as escovas de dente e os títulos lindos que me enfeitam o dia-a-dia de professora e mãe, vou vivendo estes anos que passam tão rápido, como ônibus em estrada bem asfaltada.
Dentro de minha cabeça tem um mundo lindo. Mas não sai de mim. Ou aprendo a tirá-lo daqui, ou aprendo a ser feliz assim.


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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

SEGUINDO MACBETH - EM CARTAZ NO XISTO BAHIA

Seguindo Macbeth
O rebanho de atores tem no imaginário popular sua maior referência. A teatralização do cordel Militão, Brosogó e o Diabo, de Patativa do Assaré, ou a cordelização do clássico francês de Edmond Ronstand, Cyrano de Bergerac são talvez nossos maiores ícones.

Mas, em 12 anos de existência, o rebanho não se acomodou nessa compreensão estilizada do popular e boa parte destes anos de trabalho é dedicada ao estudo da obra de William Shakespeare, o grande homem do teatro popular.

Adaptção do rebanho de atores - Prêmio Carlos Petrovich - FUNCEB

O Sertanejo, Os Ovos de Militão















Alam Félix além da paixão incodicional pelo bardo inglês, tem um aprofundado conhecimento de parte de sua obra, das teorias sobre seu trabalho e de sua biografia. São horas e horas de leitura diletante, por puro prazer. De Heliodora a Harold Bloom, ele lê como se lesse um romance leve. E eles não são leves. Não pra mim...

Eu respeito o ídolo, mas a paixão não chega a ser nada avassalador. Admiro seus diálogos, os personagens me encantam, as histórias, e muitas das re-leituras de sua obra também me chamam atenção, mas definitivamente não é minha grande tara.
Do Cyrano, adaptação do rebanho de atores para Cyrano de Bergerac, no auditória do Colégio Noêmia Rêgo, em Valéria. Projeto vencedor do Edital Myriam Muniz de Teatro - 2007

Talvez por isso mesmo, em determinado momento do grupo, nós nos dedicamos a nossos projetos pessoais. Eu toquei o Solo Compartilhada, com texto e direção minha, inspirados em Denise Stoklos, Caetanos Veloso, Torquato Neto e, sobretudo, na minha cachaça particular, Adélia Prado. Alam tocou Seguindo Macbeth.



Seguindo Macbeth ficou em cartaz na Sala 5 da Escola de Teatro, como mostra da disciplina na qual foi gerado, depois apresentou-se no Festival da Cooperativa, o Lá Vem a Cooperativa Ano II, e em uma versão reduzida, com direção de André Mustáfá, foi um dos finalistas baianos do Festival de peças curtas do Rio de Janeiro.
Nesta adaptação, a figura do rei sanguinário ganha as ruas de um lugar qualquer, de um tempo qualquer e suas inquietações, dúvidas, vaidades, maldades desfilam na nossa cara, de um jeito agressivo, cruel, tosco.
Um exercício de pesquisa de ator, de experimentações cênicas, de transposição de universos, enfim, uma ousadia que talvez incomode, mas que em nada deixa a desejar às inúmeras experiências contemporâneas de encenação.

Deixo o restinho para vocês irem conferir e volto a comentar depois da estreia, com direito a Gol do Espetáculo e Dez Minutos com...
Vejo todos lá, nas quintas-feiras de agosto, sempre às 20h no Xisto. Eu não me lembro o valor do inrgesso, porque sabem como é, né, a pessoa tá em Jequié e não dá pra produzir nessa loucura.

Vale sempre lembrar que esta temporada faz parte do projeto COOPERATIVA EM CENA que durante todo o ano ocupa diversos teatros da cidade com espetáculos do repertório de seus grupos. vale a pena entrar no blog da cooperativa (clique aqui) e conferir a programação.

Espero vocês no teatro e depois a gente toma um café aqui no blog, debatendo e comentando a peça do meu querido parceiro de grupo e amor pra vida toda...


SERVIÇO

Seguindo Macbeth
Texto: Cícero Ferreira
Direção e atuação: Alam Félix
Teatro Xisto Bahia
Todas as quintas de agosto
20h



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segunda-feira, 25 de julho de 2011

TEM QUE SER AGORA?

Ouvindo Michael Jackson,

"and they say: why? why?"

Sua voz me comove quando estou bem, pense quando estou assim, neste intervalo de alma...

Olhando fotos de hoje e de outrora sinto uma tristeza que a máquina capta, registra e nos entrega. O puncto de Barthes é meu olhar tristonho e cansado.

Sou uma jovem senhora cansada.

Dos cabelos brancos à celulite, tudo em mim envelhece.

Afi, entra Gonzaguinha... Será que eu te aguento?

"Coisas dessa vida tão cigana. Vontade de chegar e olha eu chegando e vem essa cigarra no meu peito já querendo ir cantar em outro lugar..."

Mas o olhar na foto... este não tem tinta nem jeans que esconda.

Talvez outros nem percebam, mas eu que sei dos olhares que já tive, grandes olhos árabes dando voz ao olhar curioso e apaixonado de adolescente tão esfomeada que fui um dia.

Tantos sinais de mudança. Tantas convocatórias.


E os planos? E os desejos? Chora essa saudade estrangulada.

Saudade da porra de mim.

Eu era um projeto tão legal.

É preciso, mais que nunca, prosseguir.

Pra onde, Gonzaguinha?

Ai, que agora sento em frente à Tabacaria de Pessoa e simplesmente sou.

"Que sei eu do que serei, eu que nem sei quem sou?"

Os mesmos erros. As mesmas dúvidas chatas, como as nuvens de Ariano.

Sometimes I fell like a motherless child.

Essa playlist vai me matar.

Não consigo me concentrar.

Angústia e tristeza são bichos ruins. O mundo perde o brilho.

"Todo dia a gente vai dormir pensando em acordar amanhã. Mas quando a gente acorda, sempre ainda é hoje." Iracy, minha mãe.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Em Jequié - porque a vida me quer!

É, meus leitores.

Já se foram quase trinta dias e este blog assim, com umas teiiinhas de aranha.

Mas, sei que todos meus queridos leitores e amigos entendem.

Agora, de volta à vida e às coisas, pessoas e acontecimentos lindos que ela tem para me oferecer, o que me mantém afastada desse blog-mundo que eu tanto amo é a correria do dia-a-dia desta professora de teatro. E como professora trabalha, gente, benzadeus...

Descobrir Jequié com suas montanhas encantadas tem sido uma tarefa doce, mas corrida. Corrida como suas motos barulhentas.

Os dois recém criados cursos de Licenciatura em Teatro e Licenciatura em Dança, dos quais tenho a honra de ser professora tem sido uma grande experiência educacional e artística, além de social e humana, nunca demasiado, mas sempre humana.


Ter a oportunidade de pensar estes dois cursos no seu nascedouro, estar entre amigos, participar de reuniões divertidas e ao mesmo tempo produtivas (sim, isso é possível!!!) tem me deixado bastante feliz! Já são quatro turmas agora e a cada ano serão mais duas. Essa progressão geométrica anima e gera novos espaços, para novos estudantes e para novos professores.

É bom demais ver, e mais que isso, participar, da ida de profissionais para o interior do estado, criando um forte vínculo entre a Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFBA, quebrando a hegemonia da capital (essa tendência pós-moderna). E ainda por cima, possibilitanto alguma estabilidade para essa gente guerreira, cansada de apanhar dando aula sem receber com dignidade no terceiro setor, no primeiro e no segundo - porque professor de arte apanha de ong, apanha de escola particular e apanha dos programas torpes e vis do Governo do Estado (Redas e PST's da vida, credo!). É  bom ver gente do bem fazendo coisas boas e lindas, ainda mais assim, no interior no estado da nossa Bahia, do nosso Nordestão!


O Sudoeste da Bahia tem se tornado importante pólo cultura e educacional com a força dos cursos públicos universitários. Isso aconteceu em Vitória da Conquista com os cursos da área de saúde e agora um grande passo é dado com a criação destes cursos de artes. Veja só: são três novos cursos de Arte, gente (Teatro, Dança e Cinema!) Isso tem que ser comemorado. Isso é uma revolução!

Mais do que a criação de um curso, é a criação de uma nova área do conhecimento na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. É tão bom ver que existe um grande projeto a ser realizado ali, existe um importante trabalho social a ser capitaneado por um projeto cultural e mais que isso, por cursos de Artes. Eu tenho tanta alegria e tanto orgulho de fazer parte disso, vocês não têm ideia. Não é mais um curso de Administração com Ênfases Diversas ou de Comércio Exterior (nada contra), mas é uma área de Arte, que se não vai gerar umas cifras garantidas logo ali na semana que vem, vai fazer toda diferença nestas cidades, nestas regiões, neste estado muito em breve, e uma diferença relevante, uma diferença que fica, que transforma, que melhora o mundo!

Quero aproveitar para dar um grande abraço nos meus novos parceiros de sala de aula. Esses meninos e meninas de todas as idades que olham para gente com aquela carinha linda de quem tem interesse em dialogar com a gente, em ouvir as coisas que a gente tem pra dizer e em dizer-nos suas lindas coisas, histórias e experiências.

Professor-Diretor Roberto de Abreu e as 1as.  turmas de Teatro e de Dança

Gente feliz fazendo teatro

Apresentação do espetáculo João Nínguém no Teatro Martim Gonçalves, em Salvador - primeiro intercâmbio de muitos!


Tenho me dedicado ultimamente a um exercício de viver a sala de aula como quem vive um encontro sagrado. Tenho buscado, no mais íntimo das minhas vontades e alegrias, que este encontro seja sempre bom e afetuoso. Que seja um encontro de amigos, sempre! Que consigamos ultrapassar as barreiras das diferenças, dos preconceitos (todos, deles e meus) dos rancores antecipados (ah, nunca é tempo de rancor!) do julgamento, da resistência ao novo (ou ao velho). Tenho tentado implodir modelos e transgredir regras toscas e inúteis que de tão velhas nem sabemos mais a que servem. Só quero o que me trouxer a certeza de que serve para fazer o mundo melhor. Meu mundo, o mundo dos estudantes, o mundo de todos nós (Credo, ficou quase petista essa frase!)

Quero me reinventar a cada dia e descobrir sempre um jeito melhor de dar aulas, um jeito sempre melhor de fazer amigos, um jeito sempre melhor de ser gente. E a sala de aula tem sido este palco, esta horta, este campo, enfim, esta sala de aula tridimensional: aula pra eles, aula pra mim.

Entre as motos e os paralelepípedos.
Entre as montanhas e os bons-dias
Entre o café quente e a noite fria
Entre as diferenças e as simpatias:

Tenho eu me descoberto nova, me descoberto viva, me descoberto feliz.

Obrigada Jequié!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A Beleza de um adeus

Vida boa, de gente simples
Não há dor maior que a morte de um pai.

Por mais que eu soubesse que esse era o caminho. Por mais que eu compreenda que ele libertou-se da dor e encontra-se mais feliz e calmo e me olha com seu olhar suave e sereno, para quem fica, a dor é indescritível.
E por mais que eu tenha me afastado de blogs, faces, e todos estes espaços que eu tanto gosto mas que nenhuma falta me fizeram nestas duas últimas semanas, sinto-me impulsinada a escrever sobre esta experiêcia, por mais inusitado e equivocado que possa parecer. Quero e respeito esse querer.



Experiência. Influência árabe e muita união entre irmãos
Quero porque vi, mesmo na minha dor profunda, um lindo espetáculo de adeus.

Vi a linda partida de um homem bravo, homem de roça e capital que como todo bom nordestino dividiu sua existência entre o idílico Guigó (distrito meio zona rural, meio bairro de Conquista) e a selva de São Paulo.

Vi um homem sofrer nos corredores de um hospital público.
Vi a falta que lhe fazia o amigo cigarro, que o empurrou para este doloroso fim.

Guigó: terra boa de gente guerreira
Vi a dignidade de um pai que tira a máscara de oxigênio e beija a filha em seu leito de morte, quando as palavras não são mais possíveis.
Vivi a dor da notícia fatídica.
Vivi a força de uma família.
Vivi a força do amor.
Vi a nobreza da infância e da velhice em momentos-limite.
Vi um lugarejo moblizado para dar adeus ao amigo Ático. Vi um domingo ensolarado em pleno inverno. Vi tantos e tantos trabalhadores rurais vindo a pé de suas roças para a cerimônia do adeus.



Terra seca e forte

Vi um ritual católico cantado, sereno e acolhedor. Ouvi o canto das carpideiras.

Experimentei o almoço coletivo na praça.

Vivi o silêncio do cortejo na estrada.

Vi a saudade da cachorra sob o caixão, dentro da igreja e ao longo da caminhada de adeus.

Flores da caatinga
Andei por uma estrada de chão seco, com plantações de ambos os lados. Vi o gado solene, acompanhar o ritual andando aos passos dos  homens. Aquele olhar melancólico de vacas e bezerros que nos olhavam como se tentassem nos explicar aquilo que não tem explicação.

Meu grande pai ia na frente, deitado, soberano.

A natureza o recebia.

Um joguinho para sorrir
Num cemitério grande, aberto, alto, com uma linda vista para o campo, vi um ritual comovente de homens revezando a pá e a enxada , devolvendo meu pai à terra. Nenhuma palavra se dizia. Homens daquela terra, muitos com mais de setenta anos, firmemente participavam do rito da terra. Ao fim, as mulheres colocavam suas flores coloridas e cheirosas. Excessivamente cheirosas. Um cheiro que ainda hoje me assalta repentinamente. O cheiro de morte não passa.

A cachorra Sandy, companheira de domingos, foi a última a deixar o Campo Santo. A vida real é piegas...

Domingo era seu dia favorito. Ele não nos deixou ir no São João, apenas pediu às filhas: "Eu quero que vocês venham no domingo!" Obedecemos, pai.

Não fosse o consolo da beleza daquele momento e a certeza que ele nos dava de que era um momento bom, um momento feliz, de equilíbrio, de encontro entre a vida e a morte, talvez eu não estivesse tão forte. Não fosse essa certeza, a de que tal espetáculo só pode dizer respeito a um momento sereno e feliz, talvez eu sentisse ainda mais dor do que sinto.

Sinto que se não narrasse essa experiência, ela não se completaria em mim. Virei Benjaminiana convicta. Preciso dessa narrativa para entender o que vai em mim. Sinto-me mais leve, ao mesmo tempo em que mais plena.

Teorias filosóficas não me apetecem neste momento. Respeito o doutorado e todas as experiências pelas quais passei na vida, mas elas pareciam perder o sentido naquelas terras do Guigó, onde parecia que eu dava de cara com as respostas que busco tão desesperadamente nas páginas dos livros.

Sei que vou voltar a eles e que eles voltarão a fazer sentido pra mim. Não há como fugir de onde já cheguei. Não há como negar tudo que li. Sei que vou voltar à minha vida cotidiana, aos problemas prosaicos e tolos que agoram parecem até engraçados. Mas, espero conservar certa sabedoria que a morte de alguém tão querido parece nos oferecer. Espero continuar sem pressa, serena e mais afeita às relações do que às aquisições. Nada me conforta mais do que saber que dei todo carinho que pude ao meu pai e que isso era tudo o que havia para ser dado e tudo o que ele esperava receber. Sei que ele fez sua passagem de forma serena, porque era um homem bom e desapegado. Sei que ele me escuta e está feliz porque volto à vida, aos poucos.

De volta ao meu blog tão querido, aos meus amigos, leitores, seguidores, críticos... Viver é estranho, mas é um lindo espetáculo, que como o futebol, assistimos e fazemos, fazemos e assistimos.

A propósito, em homenagem ao grande corintiano que partiu, o Timão deu 5 X 0 no Arqui-rival São Paulo no dia de seu adeus. O velho Ático ainda deu uma passadinha pelo estádio. Ah, velho danado...

Eu te amo, meu pai. Fica bem! Fica em paz!


Escrevi outro texto quando soube de seu estado de saúde. Para ler Clique aqui. 



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