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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Iauretê: Teatro de raiz, corpo e voz

A ansiedade era grande, devido à mobilização causada pelas instalações na entrada do teatro.

Uma, referendada em tradições e elementos icônicos da cultura pataxó, outra com o pé na modernidade, projetava na parede da entrada uma obra com imagens de índios transitando entre seus costumes e garrafa Pet de Coca-Cola.

O toré de entrada foi simpático, mas a adesão do público, tímida. Os músicos, empunhando flauta, tambor e vozes, entoavam belíssimos cantos tribais. Os mestre de cerimônia, já nossos conhecidos, estavam a caráter (ou quase!) e divertiam o público que chegava timidamente.
Maria Janaína e seu canto - Foto: Aldren Lincoln

Lá dentro, um belo cenário com uma luz modesta nos esperava. Não fosse o tapete persa ou indiano que destoava do universo criado sobre o palco, o ambiente onde os músicos executavam a precisa trilha, estava quase que completamente integrado à proposta cênica. Talvez me falte algum dado na leitura do tapete, aí eu peço sinceras desculpas pelo deslize.

Pela plateia entra uma bela índia, de presença impactante e voz vigorosa. Seu canto e sua chegada marcante seguram bem a plateia.

A cena no palco, no entanto, se enfraquece com a dificuldade de compreensão do texto falado pela atriz. O barulho do ar condicionado e a evidente diferença da voz de Maria Janaína quando está cantando para quando está falando, foram fazendo com que o espectador aos poucos fosse se perdendo da cena. Contudo, mesmo sem o apoio dos significados daqueles significantes, a cena mantinha a sedução. A luz muito delicada (e ao mesmo tempo forte) colaborava para a predominância dos signos visuais sobre as palavras ditas e pouco compreendidas pela plateia.

Victor Kizza - O homem-onça em foto de Aldren Lincoln

O impacto da cena completou-se com a entrada vigorosa do ator Victor Kizza, com uma presença de palco comovente. A princípio também pouco se entendia do que ele falava, mas uma vez mais a força da cena parecia prescindir desta premissa. A construção da personagem era tão intensa, que mesmo pouco entendendo daquele Português 'envenenado' que era lindamente dito por aquele ser da natureza, com formas ora humanas ora 'bichescas' a plateia ficava completamente encantada com aquele corpo escultural, construindo diante dos nossos olhos aquele ser híbrido, forte mas ao mesmo tempo dono de uma simpatia e de um carisma inusitados. Custo a acreditar que alguém tenha resistido àquele sorriso de menino naquele corpo de guerreiro.

Era tão preciosa a presença corporal de Victo Kizza que até mesmo seu suor derretendo a maquiagem era parte da magia da cena. A luz precisa de Everton Machado, dialogava com aquela construção e assim, entre  índia e onça, a cena foi-se desenvolvendo.

Talvez em alguns momentos, a plateia se pegasse querendo algo mais, mas acho que nunca é muito se dispor a receber aquilo que a cena tem para dar e aos poucos foi exatamente o que fui fazendo: permitindo-me deixar levar pela proposta. Fui sentindo e experimentando a cena nos detalhes de cada elemento que ela me oferecia, desde o mais simples som ao vivo (ou não) desde uma troca de luz até os detalhes das interpretações daqueles irmãos em cena.

Dirigidos pela mãe, filho e filha vão ao palco celebrar o hibridismo, a miscigenação deste povo tão negro-índio-luso. Assim, só podemos compreender Iauretê como um canto de louvor aos laços familiares que nos unem, quer sejam eles o de mãe e filhos, como nesta peça, quer seja o vínculo ontológico, antropológico, religioso e cultural que nos une a todos nós, filhos destes que aqui estavam, daqueles que aqui chegaram e mais aqueles que para cá foram trazidos. Uma celebração às nossas origens.

Um Guimarães Rosa trazido ao palco, traído pela dificuldade de compreensão do texto falado, mas emancipado na linguagem da cena, plena, bela e absoluta.

Minhas saudações ao Grupo de Teatro Palmares Iñaron e a seu importante e belo trabalho.

Confira o gostoso bate-papo com essa galera no DEZ MINUTOS COM, CLICANDO AQUI.



Iauretê - Grupo de Teatro Palmares Iñaron:

Direção e Adaptação: Lia Spósito
Direção Musical: Bira Reis
Orientação Artística: Antonio Jorge Godi
Elenco: Maria Janaína e Victor Kizza
Percussionistas: Alessandro Mônaco e Marcos Antonio Costa
Designer de Luz: Everton Machado 





quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

UMA BALEIA EM NOITE DE CHUVA – Vidas Secas em Vitória da Conquista


Há quase um ano que a região de Vitória da Conquista sofre com a pior estiagem dos últimos 30 anos. Além do racionamento, da alta dos preços na feira, da ‘vida seca’ que se impõe na zona rural, paira sobre a terra rachada uma tristeza de dar dó.

Mas é justamente numa semana de intensas chuvas que chega aos palcos de nossa cidade o espetáculo da Cia de Teatro Primeiro Ato, inspirado na obra de Graciliano Ramos, Vidas Secas. O espetáculo vem ‘a mando’ do projeto Verão Cênico, como os leitores já devem estar sabendo.

Mais uma noite de plateia lotada, mesmo com o tempo fechado. É uma lindeza ver esse teatro lotado toda quarta-feira, chova ou faça lua!

E vamos ao espetáculo. Logo de entrada o cenário simples nos dava o tom da encenação.

E como começou abruptamente o espetáculo hoje!!! Sem sinais, sem vinheta. Isso acabou por atrapalhar um pouco o começo do espetáculo. A plateia ainda conversava com empolgação quando a cena inicial já rolava, com uma projeção que tinha narração e que a gente não conseguiu acompanhar bem. Aos poucos – bem devagar – a plateia começou a silenciar, mas sobrou ainda aquele celular ligado e aquele povo, educado pela audiência de televisão que tem o péssimo hábito de ficar batendo papo atrás da gente, bem no meio do espetáculo. E acham que porque estão sussurrando, não estão incomodando. Incomoda, gente. Quer conversar? Não entra! Não se pode conversar, nem baixinho, numa sala de cinema ou numa sala de espetáculo. Ali é um espaço público e é imprescindível que você respeite o espaço do outro. Sala de espetáculo não é lugar para bater papo. E tenho dito!

Voltemos à cena.

O espetáculo dirigido por Devilles, mentor da Cia que há mais de vinte anos produz teatro no extremo norte da Bahia, apresenta uma sucessão bem trabalhada de elementos cênicos. Uma luz bem recortada, sem cor que ilustra a secura da vida daquelas personagens. Algumas vezes sinto que a luz antecipa a cena, mas na maioria das vezes ela ajuda a compor imagens fortes cuja estagnação dá o tom do espetáculo. Os cortes são precisos, a direção aparece cuidadosa e primorosa nas marcações das cenas e no diálogo entre os elementos essenciais.
Imagem disponível no blog da Cia

Apesar de gostar do espetáculo, não posso deixar de sinalizar que na transposição da obra literária para a obra cênica, sinto que a profundidade da construção das personagens, tanto cada uma delas em si mesma, quanto na relação entre elas, fica prejudicada. O problema maior parece estar na soberania da história contada, isso que chamamos em dramaturgia de fábula. Sim, estão presentes as personagens e as histórias vividas por elas, mas sinto falta do peso daquelas subjetividades, daquelas humanidades que são tão intensas no romance e que parecem um pouco mais superficiais no palco. Aí não saberia apontar se o problema está no trabalho dos atores, especificamente ou na direção destes. Helder Ferrari que dá vida ao Fabiano tem uma presença de cena inegável, no entanto reluz uma juventude que talvez não remeta ao Fabiano da minha distante leitura da obra original. Ronali Barbosa, apesar de demonstrar potencial, acaba por sombrear Sinhá Vitória com sua voz frágil. Mesmo que isso diminua o envolvimento da plateia com o espetáculo, quero deixar registrado que é visível o potencial dela e dos demais integrantes do elenco, que com a prática dos palcos, com certeza produzirão trabalhos de inegável qualidade.


Devilles ousa em cena ao trazer ao palco uma criança e uma cadela. Essa opção pode ser um problema ou um achado numa montagem e neste caso, considero que foi um achado. A cadela é uma diva. Não se assusta com a plateia, permanece em cena com uma tranqüilidade impressionante e comove com seu olhar de bicho, convocando a todos da plateia a ler aquela cachorra em cena. Não é à toa que ela se chama Baleia na vida real. E é isso que nos chama para dentro da cena: a Baleia verdadeira. Ruan Medrado e Wagner Libório também cativam pelo que são de verdade e vê-los em cena nos atrai e nos seduz. O diretor usa isso a seu favor, ou que o diga, em favor da cena.

Insisto na questão do aprofundamento das relações entre os personagens, porque acredito que seja algo que se consiga com mais estrada, com mais apresentações. A cena da morte de Baleia, eu me lembro que quando li fiquei quase um mês de luto, atravessada por aquela dor. Na peça acho que a cena foi desperdiçada, breve, simples. Talvez seja uma demanda minha especificamente, mas senti falta da dor de Fabiano – que na minha leitura sofre com a necessidade de matar a cachorra – a dor dos meninos. Senti falta do silêncio de Fabiano, de sua profundeza dura, mais do que de sua grosseria. Senti falta do vazio de Sinhá Vitória, de sua obsessão pela cama de tiras de couro. Em termos de enredo, estava tudo lá, mas faltaram as sensações profundas que essa história promove.

A cena final é uma preciosidade. Os quadros recortados pela luz dos personagens esvaziados pelo eterno ciclo das estiagens. Aquele silêncio ensurdecedor. Aquele tempo dilatado. Estes elementos sintetizam todo o sumo da obra literária e da obra cênica. Ficaria tranquilamente sem a projeção final. Para mim ,o peso do silêncio e a dor dos personagens me bastariam. (Pois, então, eu que dirigisse minha peça, né não? Eita povo pra se meter no trabalho dos outros. Eu sei de tudo isso, gente.)

E, não podemos deixar de sinalizar que Maria Bethânia cantando canções da seca é sempre uma dor profunda.

Que fique registrado, por fim, que estas palavras revelam todo o meu deleite e, sobretudo, respeito com a obra assistida. Obviamente eu poderia lançar mão do argumento mais fácil e hipócrita (e na minha opinião improdutivo) de que para uma peça do interior da Bahia está muito bom. Prefiro arriscar-me a comentar o espetáculo como ele merece ser comentado: como um espetáculo profissional, com carreira, temporadas e viagens. Prefiro fazer uma leitura sincera e legítima do uso dos códigos teatrais, dentro do que me é possível como espectadora e como estudiosa da linguagem. Acredito que essa é a forma mais honesta de dizer o quanto eu gostei de ter assistido a este espetáculo.

Outro dado que deve ser levado em consideração, sobretudo neste contexto, é o importante trabalho que o grupo realiza em sua região com montagens que visam à formação de plateia não só em Juazeiro como nas cidades vizinhas. O grupo tem um relevante trabalho de arte-educação, construindo e circulando espetáculos que são transposições de obras literárias. Vidas Secas, por exemplo, é o último espetáculo da trilogia da seca, composta também pelos espetáculos O Quinze, inspirado na obra de Raquel de Queiroz e Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. 

Adaptação da Cia 1º Ato para O Quinze de Rachel de Queiróz

Encenação de Morte e Vida Severina - poema dramático de João Cabral de Melo Neto

Uma vigorosa produção sobre a temática da seca, a partir de autores que conhecem de perto esta realidade, encenada por artistas também acostumados às dores da seca que encontraram nesta experiência um instrumento de diálogo com o público local. Inteligente e sagaz estratégia de sobrevivência. Podemos observar no blog da Cia 1º Ato o que se vê em cena: que existe um importante trabalho com jovens atores da cidade e região.

Pois então. Estou aguardando fotos da sessão de ontem para ilustrar melhor este post. Fiquem com um bate-papo que essa trupe simpática e batalhadora teve com a gente no nosso DEZ MINUTOS COM... clicando aqui.

E, nunca é demais lembrar, comente à vontade. O que mais vale, no blog, no teatro, no boteco e na vida é bater um bom papo e trocar uma ideia. Sinta-se em casa!

Arte do Espectador saúda Baleia - Foto Hannah Abnner

Cia 1º Ato e equipe do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima - Foto Hannah Abnner

E por falar em casa, já está sabendo da novidade? Clique e conheça o projeto TEATRO-ESCOLA CASA DO REBANHO.

FICHA TÉCNICA:

VIDAS SECAS
Adaptação do Romance homônimo de Graciliano Ramos
Adaptação: Antônio Carlos dos Santos
Direção: Devilles
ELENCO:
Helder Ferrari
Ronali Barbosa
Ruan Medrado
Wagner Libório
Davi Monteiro
Maurício Fábio




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A faca e o corte: de que trata, afinal, o Circo de Soleinildo?

Texto elaborado a quatro mãos, por Adriana Amorim e Hannah Abnner.
Fotos produzidas e gentilmente cedidas por: Erica Daniela

Parte da fila para entrar - ESTREIA DO PROJETO VERÃO CÊNICO/2013

A acomodação da plateia levou quase uma hora
Ontem foi a estreia da edição 2013 do projeto da FUNCEB (Fundação Cultural do Estado da Bahia) órgão da Secretaria de Cultura, VERÃO CÊNICO. Diferente da edição do ano passado, quando a adesão do público parece ter sido baixa, a repercussão dessa nova edição desde o começo do mês já dava sinais de que seria um evento bem sucedido.

Não sei como foi nas outras cidades, mas aqui em Conquista, sucesso é pouco para definir esta abertura.

O saguão do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima estava completamente tomado por um público majoritariamente jovem, organizado em duas filas que faziam lindas e sugestivas curvas tanto para a compra do bilhete (R$ 1,00 a inteira e 0,50 a meia) e outra para entrar. Já dali se via um belo espetáculo.

A cena era ainda mais bela posto que ao fundo, nas paredes do Centro, as lindas pinturas de J. Murilo a partir do universo de Guimarães Rosa preenchiam nossos olhos e almas. Lindas pinturas em tela, em madeira e umas mais lindas ainda numas molduras de janelas antigas que eu enlouqueci de deleite.

Do lado de fora um lindo mural em papel metro, desenhado com carvão, eu acho, lindo demais. Umas das belas obras do artista plástico Arisson Sena, autor também  do Rola-bosta que fica no jardim do Centro de Cultura.(aguardando o nome das obras).

Completavam a cena a presença do próprio Camilo de Jesus Lima (interpretado por ator local) e duas personagens que não sei se devo chamar de travestis ou Drag Queens, mas uma delícia de mestres de cerimônias. Enfim, uma festa sempre completada pelo vendedor de cachaça e o tiozinho das balas.

Na entrada uma coisa de gente! Cadeiras extras pra lá e pra cá. Muita gente transgredindo as fitas que isolavam as cadeiras de onde não se teria um visão boa da peça. Invasão da área central, onde, colado ao palco foi montado o cenário (o espetáculo desceu, recusando usar o distante palco principal). De novo, uma festa!

Mas, vamos ao espetáculo?
E esse não é um convite à toa. Não no caso desta peça. O Circo de Soleinildo é daquelas obras que de tão simples, mas de tão simples, a gente pára e quase nem respira. Sabe aquelas obras que a gente sente que nos melhoram como pessoa? Aquela que a gente pensa, como não haviam feito isso antes? O Circo... é assim.



E em sua metalinguagem O Circo de Soleinildo fala mais, muito mais do que da vida de artista. Porque eu, honestamente, acho que o artista é um extrato pleno e vigoroso do ser humano. A gente representa o exagero de tudo aquilo que todo mundo tem, mas a gente assume, a gente aumenta, a gente estrangula ao máximo tudo o que passa por nós.

A dor e a solidão, a insegurança, a tristeza, a dúvida, a vontade de continuar, o medo de parar, aquele sentimento de 'e agora?' esses sentimentos todos são de todos nós, mas o artista, sempre em sua vida e em sua obra, os viverá intensa e declaradamente.

Tentando diminuir a tristeza de Solenildo
É tanta coisa para se dizer deste espetáculo que eu vou pular as partes sobre as quais muito já se falou. Eu não vou falar que o texto dramático é primoroso, que a encenação é irretocável, que os elementos de cena são todos de uma delicadeza e qualidade estética que nos envolve sem possibilidade de volta. Também não vou falar da simplicidade e do primor do trabalho dos atores, no ponto, envolvidos, íntimos em seu conjunto. Posso também abrir mão de dizer que Sérgio e Shirley optam por uma direção limpa e delicada, simples e contundente, muito, muito arriscada, que só se completa por conta da intimidade que o elenco desenvolveu.

E já que (não) estou falando do elenco, me permitam os homens (ótimos atores) fazer um revelação: Soleinildo é mulher! Calma, calma, eu não estou falando aqui ingenuamente, como se ninguém soubesse, que Soleinildo é interpretado por uma atriz.

Isac Flores com expressiva tristeza e fragilidade
Eu estou dizendo que o espetáculo (e tudo o que ele representa) é delas. É elas! E os atores, brilhantemente parecem entender isso e em cena estão ali a serviço delas. Assim, Cristiano Martins e Isac Flores fazem um primoroso trabalho de delicadeza e de companheirismo. Irreparável. Aqui, delicados são os homens! E isso é lindo demais!

Shirley Ferreira é uma coisa! Uma diva! Eu já havia assistido ao espetáculo no Festival da Juventude na Praça Barão do Rio Branco em Conquista no ano passado com outra atriz, Iara Barbosa, também muito boa, mas que trazia uma leveza à personagem. Ria-se das mesmas cenas com Iara Barbosa, sem tanto pesar e dor quanto se ri das cenas supostamente cômicas com Shirley Ferreira. Em cena, essa atriz brilhante (eu não tenho nenhum pudor em dizer isso) transformada pela maquiagem e pelo figurino é o próprio peso da solidão e da experiência. Cada cena sua, cada gesto é de fazer chorar. Seu olhar afunda a gente e a peça nos trespassa sem chance de dizermos NÃO!.

Shirley Ferreira em cena. Aguenta coração!

Que mulher é essa que olha pra gente e a gente congela? Que abre a boa e a terra treme? Eu realmente não tenho códigos para decifrar Shirley Ferreira! Só sei sentí-la!

Kécia Prado dá vida a Solenildo

E o monstrinho é esse que faz Soleinildo? Olhando desavisadamente, Kécia Prado parece pequena, frágil, um sorriso de menina. Mas a danada abre a boca e sai de baixo. Um vozerão que nem Soleinildo teria, se falasse. E essa ambiguidade de menina e leão é fundamental para a construção daquele patriarca do circo, daquela figura altiva e frágil ao mesmo tempo, para quem a família de atores dedica todo seu carinho, toda sua preocupação e devoção. O solo do personagem com capote (aquela alma sem corpo), diante da imóvel plateia construída pelos amigos fiéis é de matar um do coração. Um simples número de palhaço, já conhecido até, se torna um momento de puro enlevo.




A descoberta da cruel realidade e a revelação da aparentemente ingênua brincadeira com o Cirque du Soleil também é rápida, mas dolorosa. O ator que volta para reconstituir o nome original da trupe, toca tão silenciosamente em nossa vaidade porque nos diz em alto e bom som: 'seremos, sim, o que somos, custe o que custar'.

Esse espetáculo lembra, e foi Hannah, parceira de análise, que se deu conta, o filme de animação O Mágico, de Sylvain Chomet, mesmo realizador de As Bicicletas de Beleville. Esta obra, como a peça da Operakata, trata lindamente, apesar da crueldade encerrada em ambas, da vida do artista, da crueldade do mercado e da nossa incapacidade de viver sem isso.



Cristiano Martins e Shirley Ferreira na emblemática cena do atirador de facas
Para encerrar esse post imenso que eu não consigo terminar nunca, quero voltar-me à imagem da faca, por ser um número emblemático, muito engraçado, que reúne tensão, graça, revelação, mímese, enfim, todos os elementos que estão na obra como um todo. Mas não só por isso. Quero acessar a imagem da faca, do corte, da facada que levamos dia após dia, quer sejamos trabalhadores do palco ou do escritório. Quero falar das tantas farsas que produzimos na vida, de como forjamos números, de como fazemos cena. E essas tapeações que promovemos para os outros e na maioria das vezes para nós mesmos, ah, como elas são frágeis e num espirro se revelam.

Esse público que nunca vem, não é só para os artistas. A decisão entre ceder às demandas de fora e responder aos impulsos internos, eu insisto, não é só de artistas. Quantos bancários, secretárias, professoras, balconistas, domésticas, médicos, motoristas, advogados, abriram mão de suas verdadeiras aspirações para se render a uma vida que lhe garantiram ser melhor do que aquela que eles sentiam pulsar lá dentro. Ai, que isso tá ficando cafona, mas eu só consigo ver por estes olhos, o espetáculo.

O grupo pode ter feito um espetáculo que fala de artistas, mas sem saber (o que eu duvido muito) falou de todos e de cada um de nós que senta naquela plateia, artista ou não, e se vê em Soleinildo ou em cada um daquela frágil mas indestrutível trupe.

E se disserem "Nossa tanto de um espetáculo tão curto!" eu só posso responder:

Curta, é a vida, meu amigo! Curta é a vida!

Hannah Abnner registra bate-bapo da Operakata com o Arte do Espectador

Depois do espetáculo a trupe nos recebeu e conversamos sobre teatro, formação de plateia, sobre a trajetória bem sucedida do Soleinildo e, claro, sobre as recentes polêmicas envolvendo o II FESTIVAL DE CENAS CURTAS que aconteceu no final do ano passado e teve grande repercussão aqui no blog, você deve ter acompanhado. Confira esse delicioso bate papo-com a Operakata na retomada do nosso DEZ MINUTOS COM...clicando aqui.

E também a palavra da plateia com a volta do GOL DO ESPETÁCULO clicando aqui.

Comentários são sempre bem-vindos!

Gracias a la vida. Que nos ai dado tanto!

O CIRCO DE SOLEINILDO
TEXTO: Gilsérgio Botelho
DIREÇÃO: Gilsérgio Botelho e Shirley Ferreira
ELENCO: Kécia Prado, Cristiano Martins, Isac Flores e Shirley Ferreira
DESENHO DE LUZ: Raiza Lélis e Wandick Trindade
CENOGRAFIA: Gilsérgio Botelho
FIGURINO: Kécia Prado
PRODUÇÃO: Kétia Prado Damasceno




sexta-feira, 25 de novembro de 2011

AUGUSTO BOAL, ZELITO VIANA E EU

Gente, quanto tempo eu não apareço, né?

É bom que dá pra vocês lerem as postagens antigas, relerem as mais queridas e ficar na expectativa por um novo bate-papo.

Pois bem, tenho que dar uma paradinha na correria da vida uesbiana para escrever algo sobre o qual realmente não dá para não escrever.


Fazendo um dos jogos de Boal para aquecimento da plateia
Falo sobre o documentário do queridíssimo ZELITO VIANA sobre outro não menos querido AUGUSTO BOAL, esse nosso grande homem de teatro, de política, e de tudo de bom que se relaciona com o fato imponderável de estar vivo.

Como parte das comemorações pelos 30 ANOS DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA, os três campi - Vitória da Conquista, Itapetinga e Jequié - receberam a presença do diretor, para um bate papo sobre o documentário exibido, que ainda entrará em circuito comercial. Infelizmente, como vocês podem ver, a plateia foi tímida, mas só em número, viu, porque o debate foi ótimo. Valeu por quem foi!

Eu e Zelito Viana
A oportunidade foi das mais raras e deliciosas. Eu tive o prazer de dividir a mesa com ele, em Jequié e bater um papo com a plateia. Ele é uma figura ímpar. Acessível e simpático, boa conversa, olha nos olhos da gente, ouve, pergunta e faz a gente se sentir amigo de longas datas. Quer mais? Ele adora futebol! Vascaíno, tivemos bons momentos conversando sobre o assunto. Eu, de minha parte, esperei meia hora para ganhar intimidade e importuná-lo conversando sobre a minha verdadeira paixão por sua obra VILLA-LOBOS, UMA VIDA DE PAIXÃO, recitando quase todas as falas que eu sei de coração, porque, sem exagero, já devo ter assistido mais de 15 vezes. Eu morrendo de vergonha de tietar - o que inclui fotos, claro - e no final do jantar quando nos despedimos ele me confessou: "Fiquei emocionado por você saber quase todas as falas do filme!".

Mas, vamos chamar o Boal para a conversa, né.

O documentário, como o próprio Zelito comenta no debate, era pra ser um filme sobre o Teatro do Oprimido. Sua equipe acompanharia o trabalho de Boal pelo mundo, aplicando suas técnicas, o que resultaria na obra planejada. Porém, todos foram (ou melhor, fomos) surpreendidos com a partida do teatrólogo no comecinho do trabalho, quando ainda estavam sendo feitas entrevistas para fazer o roteiro do filme. De posse das imagens captadas até ali, Zelito esperou diminuir a dor da família e dos amigos, e decidiu fazer um filme com as imagens que tinha. Na sessão de exibição do Rio de Janeiro a comoção foi total e toda a plateia chorou junta a saudade de nosso Augusto diretor e professor.

O documentário deverá ser um divisor de águas na relação em que temos no Brasil com o Teatro do Oprimido. Estudado e aplicado em praticamente todos os continentes do mundo, o método desenvolvido por Boal sempre sofreu de grande preconceito em nosso próprio país. Primeiro por nossa reconhecida síndrome de colonizado, que não nos permite valorizar nada que é nosso. Segundo por nossa aversão a temas e realizações populares, a menos que elas sejam abordadas de forma folclórica, exótica ou romanceada. Se é um método que serve a pequenas manifestações de teatro em comunidades, presídios, casas de saúde mental, acampamento do MST, deve ser tratado do ponto de vista antropológico, e certamente, seu valor estético se reduz diante de sua função social, certo? Errado. Bela merda esse discurso que se reproduz ao infinito dentro das academias e dos programas de pós graduação espalhados pelo nosso país. Tanto a aprender ainda temos! Mas, enfim, deixa eu me acalmar aqui. Não posso negar que este quadro está mudando e repito, este filme será uma importante ferramenta neste processo.

O próprio Zelito diz que o filme ficou didático porque ele mesmo estava aprendendo sobre o método, já qu enão o conhecia diretamente, apesar de ser muito amigo de seu criador. Quando perguntado sobre a motivação de fazer o filme, ele diz que a admiração por Boal foi a porta de entrada. Boal, segundo ele, era um homem encantador, que acreditava na mudança da humanidade, da sociedade e que essa crença não era algo utópico, mas bastante concreto e contagiante. O lema de Boal, segundo seu amigo, era "cabeça nas nuvens, pés no chão e mãos à obra"! Isso chamava sua atenção!

O documentário, devo concordar com seu autor, é didático, mas para o bem e não como um defeito. Ele introduz o iniciante nas mais elementares informações sobre o método, mas vai muito além, trazendo depoimentos de pessoas dos mais diversos países, das mais diferentes culturas que aplicam o TO na luta contra as mais diversas e impensadas opressões. Para quem já conhece o método, como era o meu caso, pois eu já passei pela formação do TO através do Programa Ponto de Cultura e também porque estudo sua obra já há quase uma década, fica aquela certeza de que é de fato um grande método, que contribui para a prática de teatro, seu ensino e aprendizagem sua interferência contundente na sociedade.

E para quem gosta tanto de padrões internacionais para medir aquilo que presta e o que não presta, o trabalho de Boal ao redor do mundo compara-se, em importância e genialidade, ao trabalho de Stanislavski e Brecth. Para fechar o caixão da questão, basta dizer que a Royal Shakespeare Company o chamou para dirigir seus atores, para que eles se aproximassem de fato de Shakespeare e seu princípios de teatro popular. Deu, né?

A tempo: um grande abraço ao parceiro Esmon Primo, que com muita garra tem peitado boas brigas pelo cinema na uesb e na região. Abraço, querido, é muito bom trabalhar com sua euqipe!

Assim que souberem deste filme nos cinemas, não deixem de assistir. Quando sair em DVD não deixemos de invadir as escolas, associações, comunidades, famílias com esse material de importância ímpar para nossa prática teatral. E quando tiver um filme de Zelito Viana em cartaz, ou nas locadoras, não deixem de ver. Esses brasileiros são realmente figuras com as quais vale a pena estar por perto. Se não dá para estar perto deles pessoalmente, que estejamos com o melhor que eles têm: sua arte!

Confiram os trailers enquanto aguardam pelo filme:




quinta-feira, 29 de setembro de 2011

BREVE espaço para o afeto

Ontem fui ver alguns amigos queridos no palco. É o espetáculo BREVE do diretor Thiago Romero e seu Teatro da Queda.

No começo estava bem empolgada com o clima que estava sendo construído com a plateia. Gostei muito da ambientação da sala de espetáculo, adoro linólio branco. Acho bonito. Só isso. Isso que é tanto e ao mesmo tempo tão pouco nesse universo de apreciação estética.

Achei a peça jovem. Talvez excessivamente jovem. Fiquei me perguntando por que os jovens fazem mais teatro que os maduros. Longas hipóteses e possibilidades.

O clima criado na peça me agradava e eu achava que uma experiência estética legal e descontraída estava sendo proposta ali. Por que não? Qual o problema nisso?

No entanto, a peça foi se redendo ao realismo e a um drama que eu julgo desnecessário. O que era uma promessa de um jogo entre elenco e plateia, tornou-se, ao apagar das luzes gerais, mais uma peça fechadinha, dentro de um jogo que se impunha mas foi abortado. E o teatro realista realizado no 'invés de' não foi suficiente para justificar a troca.

Acho que dava para ter radicalizado na proposta inicial. Ainda temos, como atores e diretores, medo dos riscos de envolver de fato a plateia no jogo cênico, e ficamos, na maioria dos espetáculos com interação, simulando uma participação do público, fazendo o público dizer aquilo que queremos ouvir, porque é mais seguro que ele nos diga isso.

Em vários momentos da peça, senti vontade de intervir, mas não havia no código criado ali espaço para minha interferência. Era como se dissessem: 'essa parte é teatro sério, não cabe sua participação'.

Queria dizer, por exemplo, que a cena do chilique de Duda Woyda não convence, por mais que os atores construam realistica e stanislaviskianamente a cena que era pra parecer verdade, mas que todo mundo sabia - eu acho - que era cena.

Eu já havia sentido esse mesmo incômodo com a peça que veio do Rio de Janeiro e que eu achei bem chata, com outro Duda, o Moscovski, a peça CORTE SECO. Um jogo pela metade. Um simulacro de jogo.

Eu sinto que a coisa de contar histórias pessoais, de infância, do cotidiano da casa viraram a cachaça da vez nos palcos brasileiros. Já vi isso em muita peças e eu mesma já fiz isso em Solo Compartilhada. Rastros do Teatro Essencial de Denise Stoklos. Mas, o modelo foi sendo reaplicado, sem mudanças, sem variações e sem críticas, talvez. Era lindo e poético quando era subversivo. Agora virou o padrão. E cá pra nós, nem todo mundo tem aquele tempo cênico de transformar lembranças em cena.

Mas, tem uma coisa HIGH TECH em Thiago Romero que eu gosto muito e tem uma vontade de fazer outras coisa que não teatro realista que eu acho louvável neste grupo. Se eles ainda estão engatinhando, que engatinhem, levantem e andem. De que serve pisar na cabeça da criança que engatinha?

Eu gosto da alegria e do colorido do projeto, desde a divulgação até o cenário, como já disse. Repito que o que me incomoda na peça é quando ela não confia naquilo que propõe e acaba por se trair, recorrendo a cenas realistas (e aquela coreografia modernosa que eu também não sou muito fã, mas enfim) como se estes recursos fossem necessários para legitimar aquela experiência como teatro.

Desde Arde que eu acho a poesia e memória da dramaturgia de Romero um pouco frágeis para serem levadas aos palcos. Gostaria, talvez, de ler seus textos. Mas, acho que ele pesquisa e experimenta e isso é coragem e vontade de fazer. Reconheço seu talento, sobretudo no campo da visualidade da peça. Adorei Córtex, que é muito visual. Acho interessante que Romero invista em atores que não são do circuito de queridinhos do palco soteropolitano que se contam nos dedos da mão. Acho que existe uma afetividade em seu trabalho, na equipe que trabalha com ele e isso pra mim, ainda é - e eu espero que seja sempre - fundamenal.

Quanto ao trabalho dos atores, acho que é difícil falar, porque eles operam num limite entre algo que poderia ser o espetáculo e o que ele acaba sendo. Como comentar sua performance? Do ponto de vista do desempenho na construção de personagens? Do carisma? Da expressão corporal? Mas também, o que podemos dizer de interpretações em época tão híbrida e de tantas provocações e possibilidades? Fica como qualidade, para mim, a disposição para tentar, para se descobrir. Só acho importante tentar fugir ao equívoco, à tentação de em considerando que se pode tudo, nada é nada. Se tudo vale, não tem porquê se esmerar em algo. Não que isso aconteça aqui, deliberadamente, mas em alguns momentos pode parecer um risco real.

Não acho que BREVE seja um acontecimento revolucionário do teatro, nem acho que era para ser isso. Acho que é um grupo experimentando uma linguagem, com coerência e dedicação. E não podemos negar que o Teatro da Queda tem um público cativo, sempre com casa cheia e isso não é pouca coisa. Talvez as críticas feitas à peça em outros espaços de análise não vejam como relevante o fato de se ter um teatro com temática ou estética jovem, adolescente talvez, levando gente ao teatro, mantendo jovens afeitos a um grupo específico servindo de importante entrada para o universo do teatro. Essa nossa mania de achar ruim tudo o que lota teatro, como se peça boa fosse peça para poucos.  Peça para os escolhidos, os iniciados, os especialistas, os bem dotados de intelecto e conceito. Coisa mais neoclássica (para não dizer cafona) impossível.

Acho que é isso.

Vejam bate-papo com THIAGO ROMERO, nosso primeiro entrevistado no DEZ MINUTOS COM... há algum tempo atrás. Tá lá no finalzinho da página. CLIQUE AQUI.

Acompanhe o blog do TEATRO DA QUEDA.


FICHA TÉCNICA

Concepção e Direção: Thiago Romero
Elenco: Duda Woyda, Guilherme Silva, Gustavo Nery, Karen Souza, Ricardo Albuquerque, Márcia Gil-Braz e Luiza Bocca
Figurino: Tina Melo
Cenário: Deilton José
Trilha: ZERO, Thiago Romero
Vídeos: Gustavo Nery

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

GRAND THEATER PÃO E CIRCO

Gente, infelizmente não pude ver essa temporada da excelente peça da Manada Confraria de Teatro, grupo que eu admiro profundamente. Assisti há aproximadamente dois anos e afirmo até hoje que é uma das melhroes peças que eu já tive o prazer de assitir.

Curiosamente mexendo em meus back-ups, encontrei um trabalho produzido para a disciplina TEORIA DA RECEPÇÃO quando ainda estava no mestrado. Nesta disciplina, ministrada pelo meu querido orientador de então e de agora, tínhamos que fazer um comentário sobre algum espetáculo, mas a partir de um conceito de crítica bem diferente do que tenho feito aqui no blog. Neste princípio, devemos evitar fazer juízo de valor e devemos tentar nos ater apenas à descriação da experiência. É óbvio que eu não consegui mutia isenção, vocês já me conhecem...

O texto é longo, mas Kahrol Ribeiro com seu trabalho primoroso e impactante valem a longa leitura. Observem as mudanças no visual da peça, sobretudo no figurino e maquiagem que a peça foi sofrendo ao longo dos anos.

Espero que gostem. E lamento que teatro não é como cinema que deixa a obra aí pra sempre. Queria que essa peça ficasse em cartaz pra sempre, mas pra sempre não é da nossa natureza. Paciência.

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Análise do espetáculo Grand Theater Pão e Circo, da Cia Manada de Teatro.

Criação, direção e atuação: Carol Kahro


O grande cartaz com um boneco andrógino convidando o observador é provocativo. A sinopse parece um pouco pretensiosa. Diz-se que o espetáculo solo trata de questões da contemporaneidade, da influência da mídia em nossa geração, fazendo um paralelo com o pão e circo romano. Restava no ar o conflito entre o convite sedutor do cartaz e a desconfiança de sinopse tão abrangente.
No dia internacional do teatro, dentro da programação este espetáculo volta a cartaz e ei que vou render-me ao convite visual. Na entrada, o cartaz se configura em cima do palco. A atriz, andrógina como o personagem do cartaz com maquiagem precisa e figurino básico, parece assustada, recebe a platéia de cima do palco, acenando, indicando lugares para sentar. O cenário é repleto de quadrados de cores no tom terra. Algumas caixas de diferentes tamanhos e um tapete que avança para formar a parede do fundo, onde se encontram algumas telas de tv.
Terminada a entrada da platéia a atriz posiciona-se no proscênio e começa a narrar uma tragédia familiar, descrevendo os mínimos detalhes, ao mesmo passo em que vai desenhando o acontecimento com o corpo. Fala de uma família que está sob a mira de muitos revólveres de policiais que ameaçam invadir a casa se o marido não se entregar. Construindo com muita dinâmica a cena, ela passeia por todos os personagens, pai, mãe e crianças, ao mesmo tempo em que descreve a cena.
Parada brusca na história. Daí em diante a atriz vai vivenciar cenas de uma mulher normal em seu cotidiano classe média. No intersecção das cenas, porém vão aparecendo cenas nas telas de TV da violência no oriente médio. A personagem vai dialogar com os fatos apresentados na TV. O texto, construído de forma extremamente eficiente constrói com a encenação uma sensação para o público de extrema clareza de seu conteúdo, de altíssima ironia e de uma proximidade com nossa própria história, que chega a nos constranger. Rimos, mas pensamos: e eu, por acaso não sou assim? Esta é a pergunta que vai nortear todo o espetáculo.

Essa personagem vai ganhando vida através de cenas separadas com muita definição. O apuro técnico tanta do trabalho da atriz quanto das opções de encenação dão ao todo mais clareza e crueldade, pois os fatos parecem ser incontestáveis e a viagem estética que se promove através de cores e formas geométricas parece hipnotizar o espectador. A precisão do texto está no cenário, no figurino e sobretudo no trabalho da atriz.
A partir da entrada na vida desta personagem, sua relação com o filho, com a empregada, com os amigos e sobretudo consigo mesma, através das cenas de extrema solidão, mais do que revelar o stanislavkiana psicologia da personagem, vai nos provocando e retomando a todo instante a pergunta inicial: e eu, sou assim?
Uma das cenas que chama atenção pelo contraste, próprio do dia-a-dia, entre o discurso proferido e a ação realizada ao mesmo tempo. A personagem que se diz defensora dos direitos humanos e sentiu-se tocada a pouco pela morte de uma mulher no oriente médio diz para a empregada, ao reclamar da arrumação equivocada do armário: “Esta parte ficam as comidas do meu filho, aqui as minhas e aqui as que você também pode mexer.” No mesmo instante ao negar aumento de salário para a empregada, argumentando que tem que pagar a academia, pede no mesmo discurso para que a empregada cuide de seu filho no domingo à noite, implorando, recorrendo aos sentimentos da empregada, que obviamente, não recebe o aumento e ainda aceita trabalhar no domingo a noite. Independente da simplicidade do enredo desta cena, o impacto está na interpretação da atriz, que sozinha, entre caixas, nos permite experimentar a existência da empregada, dos móveis, da casa.

Em outras cenas a personagem experimenta de uma solidão profunda ao esperar pelo homem que ela considera seu namorado, mas que obviamente – isso percebe-se pela ingenuidade do diálogo dela no telefone com ele – não tem mais interesse nela. Ela, no restaurante, sem dizer palavra, senta-se, entusiasmada e o relógio digital nas telas da tv vai marcando o passar cruel da noite. 19, 20, 21... 24h. Seu humor altera-se e toda a compreensão descrita aqui parte do trabalho corporal da atriz. O intervalo entre as horas de espera no restaurante é permeada por cenas que cruzam esta, marcando horário anterior á chegada no restaurante, incluindo uma conversa com uma amiga e a conversa citada acima com a empregada. O tempo é todo cortado e o espectador é convidado a aceitar o estranho, o que não se compreende, mas se delicia no olhar, para depois respirar aliviado: Ah, entendi!!!
Durante a apreciação parece impossível não apreciar o trabalho da atriz para além da encenação. Além de nos envolvermos com a história que é contada ali e com o jogo cênico, surpreende as mudanças de personagem ou de humor da atriz fazendo o mesmo ou outros personagens.


Numa cena em que o suposto assaltante que violenta a personagem é interrogado, a atriz coloca-se no lugar de promotor público e diz impropérios a um balão de gás hélio preso a uma caixa de madeira. O balão é azul e de uma infantilidade tocante. Mas ali, na contracena com a atriz o balão é o cruel assassino que merece ser torturado e pagar por sua deficiência de moral e caráter. Num discurso contundente, irônico e provocativo a atriz como que encostasse uma navalha no pescoço do público questionando: “e você o que acha disso?” Num dado momento ela pega o dito marginal pelo “pescoço”e diz-lhe: “Alguma coisa deu errado em você. A natureza falhou. Você é um defeito da natureza.” Então convida todas as vítimas do criminoso a se vingarem dele. Promove uma fila para o linchamento organizando explicando: “crianças, idosos e gestante tem preferência.” Como fica parada esperado o primeiro a reagir, uma pessoa da platéia aceita o convite, no que a atriz rebate: “ a senhora agora, não, tem que ir para o fim da fila.” A platéia, que já estava em suspensão por conta da intensidade da cena do promotor e da crescente empolgação que adquire ao organizar o linchamento, aplaude e apega-se a este momento de poder retornar a um nível menos pesado da existência.
A seguir, a empregada volta pra casa e encontra-se com seu marido e seus filhos. Aos poucos, através das cenas realizadas e através das imagens de violência na TV, quando são projetados recortes de telejornais onde só se fala na intensidade da violência urbana, na crueldade dos métodos, na ação dos policiais que deveriam proteger e dar segurança aos civis, vamos percebendo que esta família é a família do início do espetáculo e já começamos a sofrer por antecipação, pois já sabemos o final da história. O que não nos assegura, porém de não sofrermos, pois a cena vai sendo criada numa velocidade compatível com o que vivemos hoje nas nossas relações urbanas e midiatizadas. De um outro ponto de vista, o que foi descrito no começo, vemos a mãe, os filhos e o pai, acuados pela polícia, Nas telas do cenário, os telejornais vão contando a história que passa a nossa frente, com cortes bruscos e imagens de diferentes emissoras sobre o mesmo caso. A tensão vai subindo, os textos da atriz em qualquer um dos personagens – pai, mãe e crianças – casa perfeitamente com os textos da TV. Aos poucos vamos entrando na tensão criada pela cena, a atriz, como mãe gritando desesperada para proteger os filhos, pedindo que o marido se entregue, como pai, tentando compreender o que está acontecendo, sem saber porque deveria se entregar, como os filhos, gritando com medo da morte, até que grita incansáveis vezes o nome do marido, quando atriz e platéia, já exaustos, descansam sobre a crueldade do desenrolar da história, sobre o desespero do vazio, sobre a dor de não sabermos o que fazer diante do que percebemos, mas não compreendemos.
Com os olhos cheios de lágrimas, comovida pela experiência, pelo vigor político e pelo trabalho artístico realizado diante dos meus olhos, bato palmas incansavelmente durante, sem dúvida, mais de dois minutos. A platéia em delírio. A atriz chora comovida e agradece a presença de todos.

Eu saio da sala de teatro tremendo, invadida por impressões, certezas e dúvidas. Uma sensação de maremoto toma conta de mim. Sinto tontura até. Aguardo ansiosa por um contato com a atriz, dou-lhe um breve abraço, parabenizo-a e sobretudo, agradeço. Até hoje, aguardo a volta do espetáculo para recuperar partes do enredo, soluções cênicas, imagens perdidas na escolha do olhar que requer o teatro. E fortaleço-me com o sentimento de que a arte enaltece a existência, traduz o indizível, recolore as tintas desbotadas da existência.


sábado, 27 de agosto de 2011

Vi o luar e Quero Protocolar





Acabo de chegar do espetáculo PROTOCOLO LUNAR, do Grupo OS IMAGINÁRIOS.


O luar, ah o luar!

Um ótimo lugar para recomeçar depois de mais de dois meses afastada das plateias de teatro. Um ótimo lugar para ver e comentar, com todo o carinho e respeito que tenho pelo grupo e seus integrantes. Com toda a emoção e alegria com que saio do espetáculo.

Uma poesia em cena, com imagens encantadoras, com uma atmosfera sutil e tranquila, lugar para ser leve, alegre e feliz.

Tenho o privilégio de ter assistido aos três espetáculos dessa gentil e bela companhia. O primeiro deles, Ciranda de Estórias me encantou pelo apuro estético e pelo vigor artístico-pedagógico que inaugurava na escola (corrijam-me se eu estiver errada) o trabalho com teatro de animação. O segundo, já um espetáculo mais maduro e tecnicamente mais elaborado - para mim o melhor do grupo - uma versão cruel de tão poética da obra de Samuel Beckett, Fragmentos.

Mas, voltemos ao luar, ou melhor, ao PROTOCOLO LUNAR:

A profundidade do belo palco do Martim Gonçalves ajuda a criar aquele universo imenso onde nos perdemos ao som da sanfona de Zé de Rocha e das virtuosas cordas de Tales Braches. Diretores musicais e compositores das canções executadas ao vivo. Belíssimo começo, meninos. A música é, para mim, uma das estrelas do espetáculo. E falar de estrelas num espetáculo como este não é pouca coisa.

O grande trunfo do espetáculo é, sem dúvida, a capacidade de produzir ali no palco, na sua inteireza e consistência, na sua fisicalidade e presença, a poesia, coisa assim tão tênue, tão volátil (eu adoro esse nome) tão etérea.

A presença dos bonecos (confeccionados por parte do elenco) e o belíssimo cenário - da própria Sônia Rangel que também assina texto e direção - junto com a trilha, como já se disse e com a bela luz de Pedro Dutra que não exagera nem na luz nem no escuro - é responsável direta por essa materialização da poesia. Poesia encarnada nas imagens. A força dos bonecos é tamanha que, para mim, o espetáculo começa de fato quando eles entram em cena.

A imponência dos belíssimos adereços já vai nos transportando pelo imaginário da proposta. Os sete livros da velha Senhora são verdadeiras obras de arte autônomas dentro daquele universo. No entanto, a cena inicial com as atrizes (na minha modesta opinião, é importante sempre lembrar) parece destoar um pouco do restante do espetáculo. A interpretação ainda está bastante didática, talvez pelo pouco tempo de espetáculo em cartaz, já que esta é sua primeira temporada. Não sei se é a expectativa da entrada dos bonecos, mas acho que a cena com a Menina e a Senhora fica devendo ao que o cenário propõe. Sinto que as atrizes ainda não estão introsadas (que comentário de futebol este, meu deus!) e que as falas saem ainda sem brilho, decoradas, educadas e disciplinadas demais para uma peça cujo universo é oposto a essa organização.

A narrativa verbal parece querer ser dona da história, sem saber ela que toda a história já está lindamente narrada nas imagens e na presença e interação dos bonecos. O excesso de falas, ainda que falas poéticas na maioria das vezes, faz com que as cenas sem os bonecos sejam um pouco cansativas.
Ainda em relação às atrizes, senti que elas mereciam uma maquiagem mais próxima do universo da montagem, mais ousada, mais inspiradora. O tempo todo eu sentia falta de uma maquiagem poética por assim dizer. O figurino da Menina (interpretada por Juliana de Sá) também fica muito a dever à visualidade da peça. Se o da Senhora (interpretada por Sônia Rangel) dialoga um pouco mais com a proposta do cenário e adereços, sobretudo o seu sobretudo (me permitam a brincadeira infame) o de Juliana passa longe de qualquer apuro na criação. Parece, a meu ver, que foi aquele último detalhe que não deu pra cuidar antes da estreia da temporada. Se for, que este seja um ponto importante para a nova temporada (que com certeza vai haver). Se não for, desculpem esta espectadora ousada e intrometida por demais.

Outro aspecto que a meu ver atrapalha a visualidade é justamente o que para o cenário é uma vantagem, que é a profundidade do palco. Atuando quase que o tempo todo na direita-alta (mais para o fundo do palco) os bonceos acabam por se perder na imensidão do palco. E ainda mais em se trantando de Martim Gonçalves, com uma plateia tão grande. Talvez seja o desafio de numa mesma peça ter que lidar com as especificidades do teatro de imagens e do teatro de bonecos - dos quais eu só entendo como espectadora mesmo. Para mim parece que a profundidade do palco favorece o primeiro e prejudica o segundo.

Eu tenho algumas restrições com peças que acabam-mas-não-acabam. Fico sempre achando que o segundo final tem que ser muito grandioso para merecer a pegadinha. Apesar de achar que em termos cênicos, o primeiro final era suficiente, a alegria e o encantamento da canção que encerra de fato o espetáculo fazem com que eu perdoe os dois finais. Terminei a peça, feliz.

Não posso deixar de comentar sobre a delícia de ver no palco as belas palavras de Sônia Rangel, que tive o prazer de conhecer em seus dois livros CASA TEMPO e OLHO DESARMADO, em suas aulas de mestrado e doutorado, como sua colega nos ofício da docência na mesma e querida Escola de Teatro da UFBA e mais especialmente, no universo criativo, quando seu primeiro livro serviu de inspiração para a construçao do espetáculo DORALINAS E MARIAS do qual fiz parte do elenco em 2009.


A poesia da presença da criança, da alegria, da imagem, da música, do imaginário, dos conceitos, da beleza de existir, tudo isso que caracteriza Sônia como artista, professora e pessoa, estão generosamente colocados sobre o palco e servido a nós, com toda humanidade e bondade que pode ser possível a um ser humano no ato de se doar, ato este chamado fazer teatro. Colocar-se como atriz, dividindo palco com seus alunos e colegas de pesquisa revela a generosidade e sabedoria dessa bruxa-artista que promove nesta linda história de amor sobre o palco, um lindo encontro da plateia com a beleza e a poesia.


Obrigada, Sônia Rangel. Obrigada, meninos IMAGINÁRIOS: Adiel Alves, Cláudio dos Anjos, Heyder Moura, Isis Fraga, Jeane Sánchez, Juliana de Sà, Ricardo Steward, Ruth Marinho, Vera Pessoa, Yarassarath Lyra.


FICHA TÉCNICA - Eu sempre roubo de outro blog.

DRAMATURGIA E DIREÇÃO: Sonia Rangel
CO-DIREÇÃO: Rita Rocha
ASSISTENTE DE DIREÇÃO: Yohanna Marie Assumpção
ELENCO:
Adiel Alves, Claudio dos Anjos, Heyder Moura, Isis Fraga, Jeane Sánchez, Juliana de Sá, Ricardo Stewart, Ruth Marinho, Sonia Rangel, Vera Pessoa, Yarasarrath Lyra
PARTICIPAÇÃO ESPECIAL NO POEMA GRAVADO: Harildo Dêda
DIREÇÃO E PARTICIPAÇÃO MUSICAL: Thales Branche (violão) e Zé de Rocha (acordeon)
PREPARAÇÃO CORPORAL: Saulo Moreira
CENÁRIO E FIGURINO: Sonia Rangel
MONTAGEM CENÁRIO: Zuarte Júnior e Agnaldo Queiroz
CRIAÇÃO E REALIZAÇÃO DOS BONECOS: Jeane Sánchez, Juliana de Sá, Rita Rocha, Sonia Rangel, Wilson Júnior, Yarasarrath Lyra
CRIAÇÃO DE LUZ: Pedro Dultra
OPERAÇÃO DE LUZ: Camila Guimarães
FILMAGENS PARA A CENA: Mariana Dornelas
COMPUTAÇÃO GRÁFICA: Leandro Sena
OPERAÇÃO DE SOM E DE IMAGEM: Móises Victório
MAQUIAGEM: Renata Cardoso
FOTOGRAFIA: Isabel Gouvêa
CARPINTARIA: Ademir França
METALURGIA: Lico Santana
PROGRAMAÇÃO VISUAL: Solisluna
PRODUÇÃO: Sonia Rangel
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Yarasarrath Lyra com colaboração do Grupo Os Imaginários

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Em cima do palco, em baixo da lona

Vira Lona, Lona Vira.

Eu levei um tempinho tentando bolar um título que brincasse com o título da peça que a gente assistiu e vai comentar, mas o máximo que eu consegui foi isso mesmo.

Este é o primeiro espetáculo infato-juvenil que a gente faz aqui no blog e a estreia não podia ser melhor. O Grupo Via Palco, além do espetáculo, apresenta no Teatro Xisto Bahia - que eu já confessei que adoro - uma bela exposição fotográfica, com parte de seus 13 anos de trabalhos nos palcos, além de manter uma simpática lolinha onde as famílias podem adquirir brinquedos e camisas com estampas do universo circense.

Mas, vamos ao palco. O palco que vira lona, a lona que vira sonho, o sonho que vira peça.

Chegamos e uma luz muito bem desenhada nos recebe. Aos poucos, porém uma linda trilha sonora, que permeará e enriquecerá todo o espetáculo nos afasta da loucura do dia-a-dia e nos convoca a sermos crianças de novo. E que convite gostoso. E como é bom aceitá-lo.

As cenas vão se apresentando uma a uma, com a calma de quem tem tempo, não tem pressa e não tem medo. As crianças entram no tempo e na lógica do esptáculo e a gente já não sabe mais o que é sonho e o que é real.

Números de circo, como esquetes de palhaços, malabarismos, cambalhotas e outras peripécias corporais fazem a gente viajar como se fosse num circo mesmo. O palco vira lona, insisto. E a proposta se consuma: e se todos os números de circo fossem feitos por palhaços?

Os elementos visuais, desde o figurino, maquiagem e adereços, a iluminação são muito bonitos e bem cuidados. Agamenon de Abreu, que já encanta o cenário (literalmente) teatral de nossa cidade fazendo belíssimos cenários e figurinos para as mais diversas produções, foi muito feliz nas escolhas e na construção da imagem visual (isso é um pleonasmo?) deste espetáculo.

Mas o que enche os olhos mesmo, me desculpem pelo disparate linguístico é a trilha sonora, um belíssimo trabalho de Rubinho D'Ávila.

Ah, eu acho que ainda não falei que a peça não tem palavras, não é? João Lima já havia se aventurado em experiência parecida com O Sapato do Meu Tio (vencedor do Prêmio Braskem de melhor Texto - não é ótimo isso? - cujo cenário também é de Agamenon de Abreu).

Mas, voltando à lona, a trilha ocupa boa parte da construção da dramaturgia, escrita também pela movimentação dos atores, pelo tempo-ritmo do espetáculo, pelo recorte de luz, enfim, várias vozes a serviço de um espetáculo literalmente sem palavras que encantou toda a plateia que se ria como criança feliz.

João Vicente, meu filho, se pulava na cadeira com as peripécias dos palhaços, sobretudo Agamenon que enche o palco cada vez que põe em cena seu nariz vermelho. Hannah, mais comedida ria-se educada, mas efusivamente.


O fato de o espetáculo estar estreando traz um pouquinho de rigidez ainda à realização das performances, sobretudo as que envolvem um certo risco. Nada mais natural, né gente. Acho que com o tempo as acrobacias vão sendo executadas com mais precisão e naturalidade e também os jogos entre os palhaços, A cena das mágicas, por exemplo, na minha modesta opinião, podem ser feitas mais como brincadeiras, tirando um barato mesmo, afinal de contas são palhaços fazendo... Acho que Agamenon consegue essa pegada, pois ele executa sua mágica de brincadeira, e se diverte com ela. Acho os demais truques acabam sendo feitos com muita seriedade, que não contribui para a cena, já que são evidentemente truques aprendidos. Se esses truques fossem assumidos como tal (não esclarecidos, como Mr. M), mas se fossem ridicularizados (acho que essa é a pior palavra possivel, mas não tô achando outra) a cena ganharia muito em ritmo e em troca com a plateia. E acho o final meio abrupto, mas, como sempre lembro, eu só acho tá gente, se eu tivesse certeza de alguma coisa eu tava lá no palco, fazendo e não aqui escrevendo sobre quem faz. EU AMO ESSE ESPETÁCULO!

Bolinhas de sabão e música de caixinha
Bom, eu adorei a cena das lavadeiras. O jogo de Fábio Neves com sua interpretação leve e acolhedora e a bela e doce Naiara Homem, embalados pela trilha sonora é simpesmente encantador.

João Vicente escolheu a cena da água, Agá e Ive Alencar essa grande menina-atriz, brincando de ser chafariz. E que técnica, hein Agá? Uma caixa d'água!!!
Hannah encantou-se a cena da bailarina, mais uma vez pela leveza e brilho da interpretação de Naiara.


 Alam gostou do gol do Bahia, pois o safado estava fotografando a peça e ouvindo o BAHIA X FLAMENGO pelo fone do rádio... pode???

E a peça é assim: a gente sai lembrando das cenas, dando tanta risada quanto deu lá dentro, trocando ideias sobre as cenas e isso é uma delícia. A capacidade de manter crianças intertidas (como diz meu pai) com uma peça sem uma palavrinha se quer, sem gritaria, sem ruído, sem efeitos especiais tecnológicos é de fato um acontecimento.
E é tão bom ver esse acontecimento 'acontecer' no teatro, esse lugar de resistência. Esse pedaço de mundo onde o encontro pessoal é uma condição indispensável. Onde atores ainda se dedicam - há quanto séculos, meu deus? - a pesquisar, trabalhar, ensaiar, criar, para no fim, em cima de um palco - ou em baixo de uma lona - atirar-se à fúria dos espectadores, que esperam de boca aberta devorar o desafiante.

A menos, obviamente, que este ator/atriz o seduza, o convença e o conquiste. Conseguido esse feito, sai ele dali, coitado, talvez sem dar-se conta, completamente transformado, escravo dessa delícia, espectador adepto e carente de cada vez mais teatro.

Tá bom, né... eu perco um pouco a conta quando escrevo...

Assista ao discontraído bate-papo com elenco e diretor no DEZ MINUTOS COM... VIA PALCO Foi muito gostoso e divertido.

Ouça o que a plateia tem a dizer no GOL DO ESPETÁCULO

Se gostou das infromações da peça, dê um pulo no site do grupo CLICANDO AQUI.

Nunca é demais lembrar que este espetáculo é parte do projeto COOPERATIVA EM CENA, sobre o qual a gente já falou e ainda vai falar muito mais, pois estamos agendando um DEZ MINUTOS COM... a Diretoria da Cooperativa.

E, claro, não deixe de comentar, é tão bom acordar e ter comentário no blog.


FOTOS DO POST: alam félix


FICHA TÉCNICA
Roteiro: Criação Coletiva
Direção: João Lima
Elenco: Agamenon de Abreu, Ive Alencar, Fábio Neves e Naiara Homem
Cenário/Figurino: Agamenon de Abreu
Iluminação: Luciano Reis
Coreografia: Léo Luz
Técnicas Circenses: Edi Carlos (Binho) e Jailson Pereira
Trilha Sonora: Rubinho D'Ávila
Produção: Infinito Mais Um Produções