Fotos produzidas e gentilmente cedidas por: Erica Daniela
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| Parte da fila para entrar - ESTREIA DO PROJETO VERÃO CÊNICO/2013 |
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| A acomodação da plateia levou quase uma hora |
Não sei como foi nas outras cidades, mas aqui em Conquista, sucesso é pouco para definir esta abertura.
O saguão do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima estava completamente tomado por um público majoritariamente jovem, organizado em duas filas que faziam lindas e sugestivas curvas tanto para a compra do bilhete (R$ 1,00 a inteira e 0,50 a meia) e outra para entrar. Já dali se via um belo espetáculo.
A cena era ainda mais bela posto que ao fundo, nas paredes do Centro, as lindas pinturas de J. Murilo a partir do universo de Guimarães Rosa preenchiam nossos olhos e almas. Lindas pinturas em tela, em madeira e umas mais lindas ainda numas molduras de janelas antigas que eu enlouqueci de deleite.
Do lado de fora um lindo mural em papel metro, desenhado com carvão, eu acho, lindo demais. Umas das belas obras do artista plástico Arisson Sena, autor também do Rola-bosta que fica no jardim do Centro de Cultura.(aguardando o nome das obras).
Completavam a cena a presença do próprio Camilo de Jesus Lima (interpretado por ator local) e duas personagens que não sei se devo chamar de travestis ou Drag Queens, mas uma delícia de mestres de cerimônias. Enfim, uma festa sempre completada pelo vendedor de cachaça e o tiozinho das balas.
Na entrada uma coisa de gente! Cadeiras extras pra lá e pra cá. Muita gente transgredindo as fitas que isolavam as cadeiras de onde não se teria um visão boa da peça. Invasão da área central, onde, colado ao palco foi montado o cenário (o espetáculo desceu, recusando usar o distante palco principal). De novo, uma festa!
Mas, vamos ao espetáculo?E esse não é um convite à toa. Não no caso desta peça. O Circo de Soleinildo é daquelas obras que de tão simples, mas de tão simples, a gente pára e quase nem respira. Sabe aquelas obras que a gente sente que nos melhoram como pessoa? Aquela que a gente pensa, como não haviam feito isso antes? O Circo... é assim.
E em sua metalinguagem O Circo de Soleinildo fala mais, muito mais do que da vida de artista. Porque eu, honestamente, acho que o artista é um extrato pleno e vigoroso do ser humano. A gente representa o exagero de tudo aquilo que todo mundo tem, mas a gente assume, a gente aumenta, a gente estrangula ao máximo tudo o que passa por nós.
A dor e a solidão, a insegurança, a tristeza, a dúvida, a vontade de continuar, o medo de parar, aquele sentimento de 'e agora?' esses sentimentos todos são de todos nós, mas o artista, sempre em sua vida e em sua obra, os viverá intensa e declaradamente.
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| Tentando diminuir a tristeza de Solenildo |
E já que (não) estou falando do elenco, me permitam os homens (ótimos atores) fazer um revelação: Soleinildo é mulher! Calma, calma, eu não estou falando aqui ingenuamente, como se ninguém soubesse, que Soleinildo é interpretado por uma atriz.
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| Isac Flores com expressiva tristeza e fragilidade |
Shirley Ferreira é uma coisa! Uma diva! Eu já havia assistido ao espetáculo no Festival da Juventude na Praça Barão do Rio Branco em Conquista no ano passado com outra atriz, Iara Barbosa, também muito boa, mas que trazia uma leveza à personagem. Ria-se das mesmas cenas com Iara Barbosa, sem tanto pesar e dor quanto se ri das cenas supostamente cômicas com Shirley Ferreira. Em cena, essa atriz brilhante (eu não tenho nenhum pudor em dizer isso) transformada pela maquiagem e pelo figurino é o próprio peso da solidão e da experiência. Cada cena sua, cada gesto é de fazer chorar. Seu olhar afunda a gente e a peça nos trespassa sem chance de dizermos NÃO!.
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| Shirley Ferreira em cena. Aguenta coração! |
Que mulher é essa que olha pra gente e a gente congela? Que abre a boa e a terra treme? Eu realmente não tenho códigos para decifrar Shirley Ferreira! Só sei sentí-la!
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| Kécia Prado dá vida a Solenildo |
E o monstrinho é esse que faz Soleinildo? Olhando desavisadamente, Kécia Prado parece pequena, frágil, um sorriso de menina. Mas a danada abre a boca e sai de baixo. Um vozerão que nem Soleinildo teria, se falasse. E essa ambiguidade de menina e leão é fundamental para a construção daquele patriarca do circo, daquela figura altiva e frágil ao mesmo tempo, para quem a família de atores dedica todo seu carinho, toda sua preocupação e devoção. O solo do personagem com capote (aquela alma sem corpo), diante da imóvel plateia construída pelos amigos fiéis é de matar um do coração. Um simples número de palhaço, já conhecido até, se torna um momento de puro enlevo.
A descoberta da cruel realidade e a revelação da aparentemente ingênua brincadeira com o Cirque du Soleil também é rápida, mas dolorosa. O ator que volta para reconstituir o nome original da trupe, toca tão silenciosamente em nossa vaidade porque nos diz em alto e bom som: 'seremos, sim, o que somos, custe o que custar'.
Esse espetáculo lembra, e foi Hannah, parceira de análise, que se deu conta, o filme de animação O Mágico, de Sylvain Chomet, mesmo realizador de As Bicicletas de Beleville. Esta obra, como a peça da Operakata, trata lindamente, apesar da crueldade encerrada em ambas, da vida do artista, da crueldade do mercado e da nossa incapacidade de viver sem isso.
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| Cristiano Martins e Shirley Ferreira na emblemática cena do atirador de facas |
Esse público que nunca vem, não é só para os artistas. A decisão entre ceder às demandas de fora e responder aos impulsos internos, eu insisto, não é só de artistas. Quantos bancários, secretárias, professoras, balconistas, domésticas, médicos, motoristas, advogados, abriram mão de suas verdadeiras aspirações para se render a uma vida que lhe garantiram ser melhor do que aquela que eles sentiam pulsar lá dentro. Ai, que isso tá ficando cafona, mas eu só consigo ver por estes olhos, o espetáculo.
O grupo pode ter feito um espetáculo que fala de artistas, mas sem saber (o que eu duvido muito) falou de todos e de cada um de nós que senta naquela plateia, artista ou não, e se vê em Soleinildo ou em cada um daquela frágil mas indestrutível trupe.
E se disserem "Nossa tanto de um espetáculo tão curto!" eu só posso responder:
Curta, é a vida, meu amigo! Curta é a vida!
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| Hannah Abnner registra bate-bapo da Operakata com o Arte do Espectador |
Depois do espetáculo a trupe nos recebeu e conversamos sobre teatro, formação de plateia, sobre a trajetória bem sucedida do Soleinildo e, claro, sobre as recentes polêmicas envolvendo o II FESTIVAL DE CENAS CURTAS que aconteceu no final do ano passado e teve grande repercussão aqui no blog, você deve ter acompanhado. Confira esse delicioso bate papo-com a Operakata na retomada do nosso DEZ MINUTOS COM...clicando aqui.
E também a palavra da plateia com a volta do GOL DO ESPETÁCULO clicando aqui.
Comentários são sempre bem-vindos!
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| Gracias a la vida. Que nos ai dado tanto! |
O CIRCO DE SOLEINILDO
TEXTO: Gilsérgio Botelho
DIREÇÃO: Gilsérgio Botelho e Shirley Ferreira
ELENCO: Kécia Prado, Cristiano Martins, Isac Flores e Shirley Ferreira
DESENHO DE LUZ: Raiza Lélis e Wandick Trindade
CENOGRAFIA: Gilsérgio Botelho
FIGURINO: Kécia Prado
PRODUÇÃO: Kétia Prado Damasceno













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