domingo, 18 de março de 2012

Susan Kalik, a Midas do teatro baiano

Susan Kalik, a grande produtora do teatro baiano atual
Se ela está na produção, meu amigo, pode dormir sossegado.

Dona de uma invejável competência e de um talento raramente compatíveis com doçura e simpatia, Susan é "o cara" do teatro baiano no momento.

Eu adoraria ter feito uma entrevista com ela, mas a coisa me bateu de rompante e o que não se faz agora, vira saudade, lamento.

Acabo de passear pelo blog do MUST - MOSTRA UNIVERSITÁRIA SALVADOR DE TEATRO e vejo o que essa menina é capaz de fazer com qualquer evento com o qual se envolve. Seriedade, trabalho duro e um resultado belíssimo que parece ter sido feito por uma equipe muito bem articulada, bem orientada e sobretudo bem estimulada por sua líder.

Tive o prazer de ser professora de Susan, lá na Escola de Teatro, quando eu ainda começava minha carreira como professora universitária e ela estudava Direção Teatral. Do conteúdo eu levava pouca coisa, se comparado aos professores de carreira. Eu ali, timidamente tentando acertar. O que mais me apetecia nas aulas eram as discussões políticas, as provocações e os questionamentos. Desde lá, sua inteligência e maturidade já eram evidentes e sua passagem pela Escola foi brilhante.

Doralinas e Marias de Cecília Raiffer, no FIAC/2009

Depois voltei a trabalhar com Susan rapidinho, no FIAC onde apresentei Doralinas e Marias de Cecília Raiffer e ali o que mais me chamou a atenção foi sua capacidade de manter a calma, de ser gentil e generosa num meio onde se entenderia até um pouco mais de ânimos exaltados - a gente sabe com o é produção de Festival. Mas, ela falava com cada um de nós, olhava no olho, perguntava o que precisávamos e era sempre muito sincera.

Sei que Susan está metida com boa parte da produção teatral em nosso estado e fora dele, pois se eu não estou errada ela tem viajado Bahia afora com espetáculos diversos.

Sei que ela se envolve, mas não perde tempo com a parte vil das discussões pífias e arrogantes sobre o teatro baiano, com birras e provocações a respeito de políticas públicas em nosso estado, com isso ou com aquilo que alimenta discussões monótonas e improdutivas sobre o nosso universo teatral.

Susan opta, pelo que vejo, pelo argumento mais contundente e imbatível: O FAZER. Entre em qualquer post ou blog ou sei lá o que onde se digladiam titãs do teatro baiano. Não se encontrará um 'senão' sobre seu trabalho. Agora, entre em sites de divulgação, compre jornais, assista à TV, ou melhor, vá ao teatro. Lá, em vários palcos, você com certeza encontrará seu nome vinculado à produção. Se existe algo mais nobre e digno em relação ao fazer artístico, eu realmente desconheço.

Parabéns Susan, pelo MUST, pelo FIAC, por todas as peças que você vem produzindo e dirigindo.

Parabéns pelo seu comprometimento e talento. Você é parte fundamental do teatro baiano.

Evoé, Susan Kalik!!!!


ALGUMAS DAS PRODUÇÕES ONDE SUSAN METEU A MÃO:

Mostra Universitária de Salvador
Namíbia, Não!
Shirê Obá - A Festa do Rei

Meu nome é Mentira

quarta-feira, 14 de março de 2012

DOS RISCOS DE SE MISTURAR CIÊNCIA E ARTE NUM MESMO TUBO DE ENSAIO

Prezados leitores. Este post é um desabafo. Uma socialização de dor e de espanto.


Por muito tempo debatemos na nossa área de pesquisa em arte, quer seja nos encontros da ABRACE - Associação Brasileira da Pesquisa em Artes - quer seja nas nossas salas de mestrado e doutorado, ou ainda nos botecos para onde vamos geralmente depois da aula, sobre o embate cotidiano do universo da pesquisa acadêmica, com o universo da arte.

E debatemos sobre muitos aspectos.

Sobre o uso de parâmetros de um para medir o outro. Sobre a possibilidade, a necessitade e mesmo sobre a vontade que temos, nós artistas, de acharmos uma equação possível para a prática da pesquisa científica a partir de nosso próprio universo, que é o universo da criação, da transgressão, da desobediência que eu insisto em proclamar, mas, sobretudo da subjetividade. Como fazer pesquisa acadêmica, com rigor científico, se estamos trabalhando com subjetividades?


Ora, pra mim, se não parece simples é ao menos cabível supor que a única saída é repensarmos os conceitos científicos e acadêmicos. Mais do que endurecermos as pesquisas em artes, seria o caso de amolecermos a ciência e não entendam aqui amolecer num sentido de torná-la pior, menos importante ou menos exigente. É só rever os parâmetros.

Posso parecer ingênua, mas não estou louca, muito  menos só. Numa das disciplinas de doutorado, estudamos inúmeros textos que tratam sobre a necessidade urgente de novos paradigmas para a pesquisa científica e a maioria destes textos indica que se a ciência se inspirasse nos modelos de pesquisa da experiência artística, estando diretamente associada ao que existe de mais vital que é a própria contigência de estar vivo, o universo científico não teria se perdido num emaranhado de fórmulas prontas e equações duras onde muito pouca coisa cabe.

Onde quero chegar?

Acabo de receber um parecer técnico sobre uma proposta de publicação da minha dissertação de mestrado, onde discuto sobre os aspectos artísticos, mais especificamente cênicos e dramatúrgicos do futebol, que a mairia de vocês estpa careca de saber.

Neste parecer, para minha surpresa, alcancei a tão temida por nosso gênio maior, o centenário Nelson Rodrigues, unanimidade.


Sim, eu sou uma unanimidade!

Num universo de 1 a 7, eu consegui a proeza de tirar a menor nota (1) em todos, eu disse todos os 7 quesitos de avaliação do projeto.

Segue a análise do parecerista:

Consistência do tema e do conteúdo com a área do saber: 1
Relevância técnico-científica: 1
Criatividade e inovação da abordagem: 1
Relevância das referências e fundamentação teórica: 1
Coerência entre resultados e problematização da pesquisa: 1
Clareza e objetividade da linguagem: 1
Avaliação Global da qualidade da obra: 1

E segue com o parecer:

O MANUSCRITO EM QUESTÃO, ALÉM DE VÁRIOS ERROS ORTOGRÁFICOS E DE DIGITAÇÃO, FRASES TRUNCADAS, ETC, NÃO REÚNE CONTEÚDO TÉCNICO CIENTÍFICO SUFICIENTE PARA A DEMONSTRAÇÃO DA TESE. OS CONCEITOS TEÓRICOS UTILIZADOS SÃO DEFICIENTES, SUPERFICIAIS, E NÃO SUSTENTAM AS ARGUMENTAÇÕES DO AUTOR, FRAGILIZANDO TODO O CORPO DA PESQUISA. O TRABALHO NÃO POSSUI RIGOR CIENTÍFICO NECESSÁRIO A UM TEXTO ACADÊMICO COM PRETENSÃO DE PUBLICAÇÃO. A OBRA EM TODA SUA EXTENSÃO NÃO ALCANÇA MINIMAMENTE OS QUESITOS DE QUALIDADE NECESSÁRIOS A UMA OBRA ACADÊMICA. NOSSO PARECER NÃO É FAVORÁVEL À PUBLICAÇÃO.

Gente.

É claro que eu entro num edital de publicação sabendo que eu posso ser contemplada ou não.
É claro que, apesar de ter sido aprovada com distinção por um Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas que tem a  nota máxima no conceito da CAPES (6,0) eu reconheço que a obra tem suas fragilidades, afinal de contas trata-se de uma dissertação de mestrado, que se configura ainda como introdução à pesquisa acadêmica.

É claro que eu ouviria de bom grado as considerações do parecerista, caso as houvesse. Mas, honestamente, não há! O que há, a meu ver, é uma completa tirania de grupos que se engessaram no poder e que se sentem no direito de avaliar a produção de uma pesquisadora séria como provavelmente eles são, mas que teve a infeliz ideia de atuar num ramo marginal, subjulgado, despreazado e por que não, temido pelo poder hegemônico de algumas áreas do conhecimento.


Mas, vamos por partes, como diria Jack:

Como se avalia a consistência do tema e do conteúdo neste caso? Não é consistente falar de cena, de drama e de rito a partir da análise do futebol?
Por que não?
Pra quem não?

E a relevância técnico científica? Estamos à beira de uma Copa do Mundo em nosso país ou é impressão minha? O país respira futebol ou eu estou louca? Ah, isso é um assunto do mundo cotidiano. Não cabe na perfeição do universo teórico e acadêmico.

Não há criatividade e inovação na abordagem geral? Ok, me aponte então as obras que tratam do tema, porque eu as procurei e não as encontrei. Também avisa aos participantes dos eventos que eu frequento e diga a eles que eles enlouqueceram, que este tema não é inovador nem entusiasmante, como eles insistem em definir minha pesquisa.

E a relevância das referências e da fundamentaçaõ teórica? Ora, eu posso ter até escrito a chuva de abobrinhas como o parecer faz crer, mas vamos lá que eu me referencio em José Miguel, Wisnik (porque insisto em ler pesquisadores nacionais), Patrice Pavis, Johan Huizinga, Gerd Bornheim, Luigi Pareyson e aquele menino das 3 unidades, como é o nome dele? Ah, Aristóteles.
Oh, talvez me falte ter citado filósofos e não só gente de teatro.
Talvez me tenham faltado os europeus todos, os franceses sobretudo. É, aquela meia dúzia de nomes que os mais de 6 bilhões de habitantes do planeta têm obrigatoriamente que ler e que citar.

Clareza e objetividade da linguagem eu deixo pra vocês, leitores do blog julgarem se as possuo.

O texto corrido que joga todo meu sério trabalho na lama, também é pra mim fator de estranhamento, e infelizmente não é o brechtiano.


Eu acredito que por mais que pareça uma forte pancada na minha vaidade pessoal (e talvez o seja em alguma medida) o espanto e a indignação são justamente contrários à ideia de vaidade pessoal. Eu acho que esse parecer não é direcionado a mim como pessoa, ou como pesquisadora em particular, mas a toda um área de conhecimento.

Desculpem-me todos, mas eu não me julgo ser a nota mínima em todos os quesitos. Posso não estar dentro do que a instituição que lançou o edital espera, mas o que se diz nesse parecer é muito mais do que isso. Posso ser recusada por outros tantos editais, de outras tantas insituições e acho até justo, porque reconheço muitas fragilidades do meu trabalho. Mas o que fizeram aqui, foi excessivo.
Foi quase uma performance!!!

E este não é o grito de uma moleca que não sabe perder.
Não, não é.
Já perdi muitas coisas na minha vida.
Testes de aptidão, audições, editais, prêmios, concursos.
E aprendi muito com essas derrotas.
E sei que vou perder outras tantas coisas.
Já perdi um bebê na barriga e já perdi meu pai.
Mas tem um senso de justiça do qual eu não abro mão.
Não me revoltei quando perdi meu pai, porque sei que foi justo ele dedicar quase 70 anos de sua vida ao cigarro e morrer de câncer no pulmão.
É justo.
E este parecer não é justo!


Retomando o título deste post, o risco de se misturar ciência e arte não está na nossa prática, tão legítima, tão suada de construirmos nosso universo acadêmico em Arte, no qual inclusive o Brasil tem grande relevância, sobretudo a Bahia e o nosso Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, uma referência mundial em pesquisa em arte.

O nosso risco, pareceiros, é cotidiano, é ordinário. Nós o experimentamos sempre e estamos com ele durante toda a nossa prática criativa, sobretudo a teatral e a futebolística.

O grande risco de se misutar ciência e arte pode estar na dança das cadeiras, pode estar na desestruturação passível e possível  de acontecer no universo acadêmico e em toda a sociedade.

E à desestruturação... ah, a essa nem todos estão acostumados. Não como nós artistas, desestruturados e desestruturantes por natureza.

Mas, felizmente, somos um fato. Existimos e estamos aí, aqui, acolá, fazendo barulho, promovendo revoluções.
Não fosse isso, não mereceríamos tratamento como este que a mim foi dispensado e que, honestamente, não julgo ter sido pessoal.

Tem nada, não! Só não vou publicar minha pesquisa agora. Vou ali dar minhas aulas, montar meus espetáculos, fazer meu doutorado. Acariciar meus filhos, beijar meu marido.
Só não queria ficar calada. Atrizes não se calam!

Poderia terminar o texto com os passarões e passarinhos de Mário Quintana, mas vou ficar com a contudência da Poeta Pagu, pela cumplicidade do gênero (só há homens nas ilustrações, credo!) e pela insistência na delícia de sermos o que somos:

"Este crime, o crime sagrado de divergir e ser consequente, nós o cometeremos sempre!"



É Bolada, pesquisador-artista!!! 
 (Homenagem ao blog www.futeboldeartista.blogspot.com)

terça-feira, 6 de março de 2012

60 e ASSISTE: Uma Hora de Puro Teatro

Eita blog abandonado, meu Deus. Mas é que é muito filho pra criar. Dedicação total ao curso de Licenciatura em Artes com Formação em Teatro e Dança, na UESB Jequié.

E é de lá que vêm as novidades para o artista espectador, seguidor deste blog.

No dia 28 de Fevereiro, estreamos um projeto inspirado no ATO DE 4 da Escola de Teatro da UFBA ( nossa irmã). É o 60 E ASSISTE, uma Hora de Puro Teatro.

60 e assiste: uma hora de puro teatro

Neste projeto, que começa como resultado prático de disciplinas do 2º semestre, onde misturam-se estudantes de dança e de teatro, mas que pretende ser um projeto contínuo, cinco cenas curtas são apresentadas todas as terças às 19h no Auditório Administrativo (que precisa ser rebatizado) do Campus Jequié.

Gente, e que alegria foi acompanhar estes meninos produzindo tanta beleza!!!

As cenas foram criadas a partir de um jogo com texto escrito. O texto foi O Tio Vânia de Anton Tcheckov. Foi distribuído para toda a turma, o mesmo fragmento do texto, numa versão completamente sem pontuação. As palavras seguidas umas das outras, perdiam completamente o sentido em si. Estávamos trabalhando aí a noção de paradigma e sintagma. Todos de posse do mesmo original, passaram a construir diferentes cenas.

O resultado cênico foi apresentado uma primeira vez, no pátio. Em seguida foram feitas leituras da turma sobre as cenas assistidas e a intevenção da professora (eu). E como é difícil a gente se livrar do horizonte realista impregnado em nós pela hegemonia da telenovela. E como é difícil aceitar que gesto é discurso, que cor é sentimento, que silêncio é frase!

Depois disso, partimos para as noções de signos teatrais. Também trabalhamos com o estudo da linguagem corporal a partir de Peter Weil e Ronald Tapakow, com a obra O CORPO FALA. Estudamos a relação das partes do corpo e seus discursos:

CABEÇA - ÁGUIA - MENTE/INTELECTO
TÓRAX - LEÃO - SENTIMENTO
QUADRIL - BOI - INSTINTO

A partir destes e de outros estudos teórico-práticos, os grupos voltaram ao trabalho e refizeram suas cenas, incremetaram suas dramaturgias, reconstruíram seus personagens.

Os resultados estãos sendo apresentados neste projeto. Nele, sinto-me plena como pessoa, professora, artista e plateia.

Vejo a beleza de artistas iniciantes que confiam na minha orientação e se atiram precipício abaixo, sem medo do que tem lá embaixo esperando por eles. Loucos!!! Mal sabem eles que eu também não sei de nada!

Vejo a beleza de olhinhos brilhando no palco e no público. Vejo um grupo de estudantes mobilizados pela produção artística na criação de um evento transformador que mexe com toda a faculdade.

Vi uma plateia lotada de gente que eu não imaginei que viria ver o nosso trabalho tão despretensioso. Vi as cadeiras lotadas em poucos minutos e gente se espalhando pelo chão.
Vi crianças de um grupo de teatro de uma das estudantes do curso, correndo, chegando na portacom seus olhinhos infatis e famintos perguntando à queima roupa: "O TEATRO É AQUI?"
Com muito prazer, respondi: "SIM, MEU AMOR, O TEATRO É AQUI!"

Vi o grupo se ajudando e se revezando nas funções técnicas, de contra-regragem, produção, divulgação.

Enfim, vi tudo aquilo que a arte é capaz de nos mostrar: um povo realizado. Uma alegria profunda por se entender como gente.
Gente criativa gozando do direito de ser livre e desobediente.

Vi a transgressão criando novas realidades.
E vi, ao fim da noite, no espelho do banheiro, uma professora feliz.

Vejam vocês também, fragmentos desse momento:

FOTOS: Aroldo Fernandes

Chamada do público no pátio

Respeitável Público

Joadson Prado e Luanna Azevedo em DUO HOSPÍCIO

Joadson Prado

Joadson Prado

Luanna Azevedo

Mais plateia

Mylena Edna, Mabel Almeida e Ana Barroso em ANESTESIA

Ana Barroso

Ana Barroso e Mabel Almeida

Mabel Almeida e Mylena Edna

Silvana Souza e Eliana Santos em ESTÃO CHEGANDO OS CAVALOS

Silvana Souza, Eliana Santos e Gecy Melo

Vicente de Paulo em CAESTOU

Vicente de Paulo e Caio Braga

Caio Braga e Flávia Sanctos

Solange Souza em PAU PEDRA

Everton Paixão, Solange Souza e Gil Rufino


Grupo de estudantes ao final das apresentações

Hoje tem mais. Com cenas novas, estudantes estreando. Até o final do Mês teremos ainda as cenas PRECIPÍCIO, SEGREDOS e VOCÊ ESTÁ FALANDO GREGO, PROFESSORA? esta última resultado da disciplina optativa FUNDAMENTOS DO TEATRO GREGO, também ministrada por mim.

A alegria é sempre muito grande e fundamenta-se (já que estamos falando tanto de fundamentos) na certeza de que se há alguma prática que pode servir de modelo e inspiração para a educação no terceiro milênio, uma educação que faça sentido e da qual o estudante se sinta de fato participante, esta prática é a experiência estética. Afinal, o que nos configura como raça é essa capacidade criadora de que tanto nos fala Fayga Ostrower, este nosso potencial criativo que nos transforma e ao mesmo tempo nos configura.

EVOÉ, JEQUIÉ!!!


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domingo, 15 de janeiro de 2012

DE NÃO-INDICADOS E OCUPADOS, SALVADOR VAI SE AGITANDO

Eu sei que começo de ano é época de fazermos uma retrospectiva do ano que passou. Mas 2012 (o último, queira Deus) chegou com tudo, pra dar tempo, né...

Em Conquista, muita família, bicicleta, filmes, friozinho e investidas em mim mesma. Tá ótimo.



Em Jequié, um lindo processo de 2ª fase do Vestibular para Teatro e Dança da UESB com as provas de habilidades específicas. Sem palavras (até porque não pode.) Ainda em Jequié, pude ver o belíssimo trabalho do IMPÉRIO CIRKUS, uma família linda, onde todos fazem tudo e apresentam um delicioso espetáculo completo. Ia fazer um post sobre eles, mas as viagens me afastaram do computador e cá pra nós, eu adoro ficar longe dele. Talvez ainda faça, em homenagem à família e ao meu amigo Reginaldo Carvalho, de quem eu lembrei durante todo o evento.


Em Salvador, o babado corre solto. DESOCUPA SALVADOR é um movimento que ocupa as páginas do Face e nos cobre de orgulho. Ainda ontem, fomos ao Pelô à pé pela Avenida Sete e constatamos que ir embora foi de fato a melhor saída. Sujeira, ambulantes desordenados, carros nas calçadas, ui, que cansaço de Salvador. Desculpa gente, eu tô na torcida, mas perdi as forças para lutar por esta cidade. O movimento foi forte, foi organizado e contou com uma juíza louca para ajudar na divulgação. A meretíssima (será que eu posso falar assim num blog ou posso ser presa por desacato?) achou de proibir a manifestação, achando ela que estamos do outro lado do mundo e sem primavera... enfim, valeu pela polêmica gerada.



Ah,  por falar em polêmica, tá rolando um bafon com os não indicados ao Prêmio Braskem de Teatro.


Oh, gente, é pra rir, né.

Depois do babado todo do FIAC, já era pra ter aprendido, né não?

Eu que já fui recusada em tanto festival e nunca fui indicada a um prêmio sei bem que dor é essa. Mas, meu silêncio frustrado e dolorido me dá o direito de rir e achar ridícula a chuva de manifestações ditas justas, mas justo quando não são lembrados. KKKK. Bem vindos ao clube, grandes homens de teatro. Eu de cá, indicada ou não, festivada ou não, sempre respeitei - sobretudo no âmbito público (porque ás vezes, em casa, com as janelas fechadas a gente diz as nossas, né) os envolvidos no processo, sobretudo quando são profissionais de valor reconhecido e de muito trabalho realizado, trabalho que talvez boa parte dos que estão engrossando o coro dos descontentes, jamais se dedicou a fazer.

Lembremos que a comissão não é um conselho e é convidada a assistir, avaliar e julgar a partir de seus próprios princípios, vivências, compreensões, e - por que não - seu próprio gosto. Não se trata de uma câmara de vereadores com representantes do povo que devem prestar contas de suas ações. Se não gosta do Prêmio, por que nunca recusou? Por que nunca se recusou a ser indicado? Ou por que nunca disse: "Olha, esse ano eu acho que não deveria ser indicado, não, porque, honestamente, tem coisa melhor do que meu trabalho esse ano pra ser indicado..." Ah, faça-me o favor.

Depois vem pra cá dizer que os novatos ou 'comunitários' fazem do teatro da Bahia (sempre a genralização) um teatro amador, pouco profissional. O que fode com o nosso meio teatral é essa meia dúzia de viúvas apegadas que não se conformam com um ano sem láureas e puxações de saco.



E por falar em saco, enchi o meu desse assunto. Vocês que são de teatro-profissional é que se entendam. Eu ontem assisti  A Malvada (ou no original ALL ABOUT EVE) e fiquei horas refletindo sobre seus diálogos primorosos, sobre a atuação de Bette Davis (a cara de Marrion Cottilard) e sobre o que eu entendo por teatro e o que tenho feito e tenho sonhado em sua direção. Como é bom ouvir quem tem o que dizer.





E assim vai correndo este ano de 2012, ano de sexta-feira 13, ano bissexto, ano de Nostradamus e Calendário Maia. Ano de qualificação, mudanças, direção didática de Plínio Marcos, quem sabe um grande evento de Artes Cências, enfim, mil coisas, mil coisas acontecendo pra eu ficar me envolvendo com vaidosas e esvaziadas polêmicas. Eu de cá, dou é muita da risada, porque rico não é aquele que tem muito, mas sim aquele que precisa de pouco.


Feliz e agitado 2012, caríssismos espectadores.



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sábado, 10 de dezembro de 2011

INDO EMBORA DE VOLTA

Hoje é oficialmente meu último dia em Salvador. Foram, nesta última edição, doze anos e três meses morando nesta cidade que, por ora, não amo mais.

Há um misto de alegria, alívio, ansiedade, expectativa e, por que não, medo, tristeza e saudade. Sim, um shake de sentimentos.

Quando partimos de um lugar, inevitavelmente nos aventuramos em outro. Ah, quem me dera sair de um e poder não ir para outro. Experimentar um não -lugar para descansar. Mas, não posso. Não aqui neste mundo limitado.

Arrumar as malas é tarefa dolorosa. Se deixo Salvador, essa terra que se estraga, também deixo minha casa, meu apê que tem tanta história pra contar e que deu tanto trabalho pra comprar.

Deixo as janelas imensas e o taco de madeira que tanto amo.
Deixo o pequeno quintal, portal de alegria e estádio de futebol de meu pequeno.
Deixo o vento e a lua que entram pela janela.
Deixo as portas coloridas e a grande estante de livros.

Mas também deixo o aperto, a sujeira de apartamento velho, o guarda roupa caindo aos pedaços. Os tacos soltos que machucam o pé e a falta de sinal do celular. As grades que o ladrão me fez colocar, deixo também.

O corpo se acostuma à casa. O braço viciado ao interruptor leva tempo para aprender o novo lar.

Os bibelôs parecem temer que não haja espaço para eles, tantos que são, lembranças de viagens nossas e de amigos. Desejei tanto este dia chegar e hoje vivo-o como se estivesse fora de mim.

Mudarão a padaria, o mercadinho, o açougue. Mudará o ponto de ônibus. 
A escola das crianças, mudará também.
E o caminho feito já às cegas para a Escola de Teatro não servirá mais.

Mudará o número de telefone fixo. As revistas e cobranças não sabem mais pra onde ir e eu vivo o presente reconhecendo-o como memória.

E ao pegar  BR-116, esse monstro que me assusta, eu volto para o ponto de onde parti há 22 anos, criança ainda, para construir minha história.

Estudos, experiências, amigos inesquecíveis, dores, amores, prazeres.

Volto e minha casa já não é mais a mesma. É uma grande e bela casa, que meus pais reformaram com esmero, dedicação e trabalho, muito trabalho. Meus sobrinhos, nasceram e cresceram. A cidade, que era província, virou metrópole. Eu que era menina virei mulher. Meus cabelos enbranqueceram, minha pele amolece e a calma se instala aos poucos.

Assim como hoje, um dia eu soube, lá em janeiro de 1990 que era véspera da partida. No auge dos meus 15 anos outrora completados, eu sonnhava com o mundo que me esperava, sem ter a menor noção de como ele era. Só sabia que ele era novo e isso era vibrante.

Hoje, conheço  o caminho para o qual me conduzo. Já andei naquelas ruas, já comprei naquelas vendas. Já senti o cheiro daquelas árvores daquela praça com nome daquela santa.

Conheço o coração que me espera. De mãe que rezou pela minha volta durantes essas duas décadas, mesmo sabendo que essa volta era uma possibilidade remota. Conheço a irmã que me recebe com pureza nos olhos e um sorriso que não se cansa.

Conheço a tartaruga que desfila sua inteligência.

Conheço cada canto marcado pela presença de meu pai, que não esperou meu retorno.

Fazer as malas sempre será um ato poético.

Como o teatro que se renova sempre no fazer, partir ou voltar será sempre uma transgressão, um salto no abismo, um grito solto no ar. Por mais ensaios de marcação, por mais reconhecimento de cenário, figurino, luzes e adereços, a hora da estreia e cada nova sessão será sempre seguida de um friozinho na barriga, de mais uma ousadia da criação, de mais uma exposição e desafio.

Vou de volta ao que sempre fui e só volto EU, porque me recriei.

Viver assim, consciente de tudo o que não se sabe, dói, mas pelo menos é uma dor sabida.

Volto para a caatinga de Elomar, para os agudos de Xangai, para a poesia de Camilo de Jesus Lima, para o nervo de Glauber Rocha, para a melodia de Gilberto Gil. Volto para a neblina e para o biscoito avoador, volto para céu de Central do Brasil.


Aos amigos, muitos e tão queridos que fiz aqui, meu muito obrigada, minha eterna gratidão e lembrança e minhas portas abertas para recebê-los.

Despeço-me com as palavras de Elomar, que no momento descrevem e transcrevem todo meu sentimentos de catingueira errante, na belíssima canção  APERGUNTA:

"Só a terra que você dexô
Quinda tá lá num ritirou-se não.
Os povo, as gente, os bicho, as coisa tudo...
Uns ritirou-se in pirigrinação
Os otro, os mais véio, mais cabiçudo
Voltaro pru qui era: pru pó do chão"

"Mãe lua magrinha qui está no céu:
Será qui cuano eu chegue in minha terra
Ainda vou encontrá o qui é meu?"


E volto, para a cidade escondida atrás da Serra, que no final da viagem se revela e me encoraja a pedir sem meias palavras, do alto do Periperi, tal qual o Cristo de Mário Cravo:

"Abraça-me de volta, Conquista!"

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

AUGUSTO BOAL, ZELITO VIANA E EU

Gente, quanto tempo eu não apareço, né?

É bom que dá pra vocês lerem as postagens antigas, relerem as mais queridas e ficar na expectativa por um novo bate-papo.

Pois bem, tenho que dar uma paradinha na correria da vida uesbiana para escrever algo sobre o qual realmente não dá para não escrever.


Fazendo um dos jogos de Boal para aquecimento da plateia
Falo sobre o documentário do queridíssimo ZELITO VIANA sobre outro não menos querido AUGUSTO BOAL, esse nosso grande homem de teatro, de política, e de tudo de bom que se relaciona com o fato imponderável de estar vivo.

Como parte das comemorações pelos 30 ANOS DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA, os três campi - Vitória da Conquista, Itapetinga e Jequié - receberam a presença do diretor, para um bate papo sobre o documentário exibido, que ainda entrará em circuito comercial. Infelizmente, como vocês podem ver, a plateia foi tímida, mas só em número, viu, porque o debate foi ótimo. Valeu por quem foi!

Eu e Zelito Viana
A oportunidade foi das mais raras e deliciosas. Eu tive o prazer de dividir a mesa com ele, em Jequié e bater um papo com a plateia. Ele é uma figura ímpar. Acessível e simpático, boa conversa, olha nos olhos da gente, ouve, pergunta e faz a gente se sentir amigo de longas datas. Quer mais? Ele adora futebol! Vascaíno, tivemos bons momentos conversando sobre o assunto. Eu, de minha parte, esperei meia hora para ganhar intimidade e importuná-lo conversando sobre a minha verdadeira paixão por sua obra VILLA-LOBOS, UMA VIDA DE PAIXÃO, recitando quase todas as falas que eu sei de coração, porque, sem exagero, já devo ter assistido mais de 15 vezes. Eu morrendo de vergonha de tietar - o que inclui fotos, claro - e no final do jantar quando nos despedimos ele me confessou: "Fiquei emocionado por você saber quase todas as falas do filme!".

Mas, vamos chamar o Boal para a conversa, né.

O documentário, como o próprio Zelito comenta no debate, era pra ser um filme sobre o Teatro do Oprimido. Sua equipe acompanharia o trabalho de Boal pelo mundo, aplicando suas técnicas, o que resultaria na obra planejada. Porém, todos foram (ou melhor, fomos) surpreendidos com a partida do teatrólogo no comecinho do trabalho, quando ainda estavam sendo feitas entrevistas para fazer o roteiro do filme. De posse das imagens captadas até ali, Zelito esperou diminuir a dor da família e dos amigos, e decidiu fazer um filme com as imagens que tinha. Na sessão de exibição do Rio de Janeiro a comoção foi total e toda a plateia chorou junta a saudade de nosso Augusto diretor e professor.

O documentário deverá ser um divisor de águas na relação em que temos no Brasil com o Teatro do Oprimido. Estudado e aplicado em praticamente todos os continentes do mundo, o método desenvolvido por Boal sempre sofreu de grande preconceito em nosso próprio país. Primeiro por nossa reconhecida síndrome de colonizado, que não nos permite valorizar nada que é nosso. Segundo por nossa aversão a temas e realizações populares, a menos que elas sejam abordadas de forma folclórica, exótica ou romanceada. Se é um método que serve a pequenas manifestações de teatro em comunidades, presídios, casas de saúde mental, acampamento do MST, deve ser tratado do ponto de vista antropológico, e certamente, seu valor estético se reduz diante de sua função social, certo? Errado. Bela merda esse discurso que se reproduz ao infinito dentro das academias e dos programas de pós graduação espalhados pelo nosso país. Tanto a aprender ainda temos! Mas, enfim, deixa eu me acalmar aqui. Não posso negar que este quadro está mudando e repito, este filme será uma importante ferramenta neste processo.

O próprio Zelito diz que o filme ficou didático porque ele mesmo estava aprendendo sobre o método, já qu enão o conhecia diretamente, apesar de ser muito amigo de seu criador. Quando perguntado sobre a motivação de fazer o filme, ele diz que a admiração por Boal foi a porta de entrada. Boal, segundo ele, era um homem encantador, que acreditava na mudança da humanidade, da sociedade e que essa crença não era algo utópico, mas bastante concreto e contagiante. O lema de Boal, segundo seu amigo, era "cabeça nas nuvens, pés no chão e mãos à obra"! Isso chamava sua atenção!

O documentário, devo concordar com seu autor, é didático, mas para o bem e não como um defeito. Ele introduz o iniciante nas mais elementares informações sobre o método, mas vai muito além, trazendo depoimentos de pessoas dos mais diversos países, das mais diferentes culturas que aplicam o TO na luta contra as mais diversas e impensadas opressões. Para quem já conhece o método, como era o meu caso, pois eu já passei pela formação do TO através do Programa Ponto de Cultura e também porque estudo sua obra já há quase uma década, fica aquela certeza de que é de fato um grande método, que contribui para a prática de teatro, seu ensino e aprendizagem sua interferência contundente na sociedade.

E para quem gosta tanto de padrões internacionais para medir aquilo que presta e o que não presta, o trabalho de Boal ao redor do mundo compara-se, em importância e genialidade, ao trabalho de Stanislavski e Brecth. Para fechar o caixão da questão, basta dizer que a Royal Shakespeare Company o chamou para dirigir seus atores, para que eles se aproximassem de fato de Shakespeare e seu princípios de teatro popular. Deu, né?

A tempo: um grande abraço ao parceiro Esmon Primo, que com muita garra tem peitado boas brigas pelo cinema na uesb e na região. Abraço, querido, é muito bom trabalhar com sua euqipe!

Assim que souberem deste filme nos cinemas, não deixem de assistir. Quando sair em DVD não deixemos de invadir as escolas, associações, comunidades, famílias com esse material de importância ímpar para nossa prática teatral. E quando tiver um filme de Zelito Viana em cartaz, ou nas locadoras, não deixem de ver. Esses brasileiros são realmente figuras com as quais vale a pena estar por perto. Se não dá para estar perto deles pessoalmente, que estejamos com o melhor que eles têm: sua arte!

Confiram os trailers enquanto aguardam pelo filme:




segunda-feira, 24 de outubro de 2011

DEFINIÇÃO DE BELO POR Elomar Figueira Mello



"A poesia é um texto oral, ou escrito, que pode estar preso a uma forma, ou não, ou uma forma livre, texto esse que para diferenciar de todos os demais textos como poesia, tem que trazer uma característica... qual é a característica que define, que separa um texto poético dos outros? Que marca profunda o texto tem que ter pra ser poesia? Essa é a pergunta.

Então, poesia é todo texto que nos traz um conceito sólido, firme ou vazio contanto que, para ser poesia, ele tem que nos tocar, nos abalar, nos sacudir. Ele tem que trazer em si, sabe o quê? A essência do Belo. Ela tem que ter a essencialidade do belo. O belo excelso. O texto que traz a excelsitude da beleza, isso eu chamo poesia!

Agora, dentro da poesia, por exemplo, existem poesias medianas, medíocres - que não deixam de ser poesia - e a poesia excelsua, soberana, majestosa, eloquente, grandiloquente, que quando chega nessa altura passa a ser obra prima. E se alguém me pergunte: O que é uma poesia excelsa, obra prima pra você Elomar? Não só na poesia mas na arte em geral, o Belo pra mim, é tudo aquilo que, além de nos fazer dar um leve arrepio, a mim, quer me levar uma ponta de inveja e na hora eu seguro e não tenho inveja de quem fez. Isso pra mim é a obra prima. É quando eu leio e falo: Puxa vida, porque é que eu não fiz isso? Mas aí na merma hora eu corrijo: mas eu posso fazer. Quer dizer, eu não fico no reino da inveja. É aquilo que desponta um pouquinho de despeita na gente porque a gente não fez aquilo.

Essa é uma confissão clara que eu tô fazeno aqui, realmente, que qualquer poeta puro ele tem que se confessar assim, porque senão ele tá sendo hipócrita. Vem uma vontade de sentir inveja, mas uma consciência superior, né, uma auto-crítica nossa diz: Não, cê num tem que ter inveja, nem precisa, cê pode chegar até a fazer maior, mais bela do que essa."

(...)

A poesia excelsua tem forma, tem eloquência, tem elgância, e sobretudo, que nos põe a imaginar junto com opoeta, com o demiurgo que fez a própria poesia. Nós viajamos com ele no poema dele. Ele nos conscita a, mesmo não sendo poeta, ele conscita-nos a sermos poetas também, a poetar com ele na viagem da coisa, da grande imaginação que ele fez.

... Rancou... três cadernos meus, espriralados. Só ficaram as capas encostadas. Ela arrancou as páginas durante os invernos. Poesia dos 15 aos 20 pra acender fogo de manhã cedo. Aí eu clamei pra ela: Mas, mãe, a senhora fez uma miséria dessa...

'Bestage, menino, cê escreve outros.'

Oh, gente, foi a resposta ingênua que ela deu, como se a poesia tivesse assim à mão, ao alcance, dentro do bolso, pra tirar, né.

É num instante que a poesia chega. Ela é mágica!!!"


Elomar Figueira Melo






Faixas 15, 16 e 17 do cd que acompanha o livro Tramas do Sagrado - A poética do sertão de Elomar de Simone Guerreiro.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A BELEZA DE UMA FAXINA na Revista Beleza Bahia

Gentes.
Depois de uma demoradinha, saiu um novo exemplar da Revista Beleza Bahia, com meus dois textos. Um está aqui e o outro no http://www.futeboldeartista.blogspot.com/ .

Quem quiser dar uma olhada na revista toda, aqui está o link: BELEZA BAHIA Nas páginas 46 e 47 (FUTEBOL) e 52 e 53 (BELEZAS INUSITADAS).

Abaixo, o texto da coluna Belezas Inusitadas:

Vamos arrumar a casa?
Adriana Amorim

Quem nunca passou o dia, ou parte dele se dedicando àquela faxina, quer seja ela da casa, do quarto, do guarda-roupa, da gaveta, da bolsa, ou mesmo da alma?

É uma atividade cotidiana, do ponto de vista de sua natureza e não necessariamente do ponto de vista de sua periodicidade. A gente faz ‘aquela’ faxina quando está precisando mesmo, quando não fazê-la é quase como segurar o curso da vida. E, confesse para si mesmo, a gente sabe exatamente quando esse momento chegou.

Eu digo que não tem nada mais gostoso do que uma manhã de sábado de faxina. Pode até ser outro dia, outro horário, mas sempre será como se fosse o sábado dedicado à limpeza. A gente abre as cortinas – da casa, do quarto, da vida – bota aquela música para ouvir, dançar, sorrir ou chorar, cantar muito, muito alto para que todos os vizinhos se lembrem de que não moram sozinhos no deserto e que a pessoa do lado tem sentimentos e uma bela voz (ou não) que expresse estes sentimentos.

Pode ser Edson Cordeiro, Luiz Caldas, Silvano Sales, Gonzagão, Mozart, Chico Buarque. Pode ser Marisa Monte, Margareth Menezes, Laura Pausini, Tetê Spínola, e por que não, Xuxa. Ilariê, pagode, arrocha, forró, funk. Pode até ser uma ópera ou aquela MPB politicamente engajada. O que vale é tocar no coração e alimentar a faxina, quer seja pelo prazer e pelo entusiasmo, quer seja pela evidente necessidade de tirar o que não serve mais daquele lugar onde jaz.

Já estamos cansados de saber que material encalhado prende energia, a vida para, não anda pra frente e a gente fica meio perdido, sem saber porque as coisas pararam. Já sabemos o bem que faz à alma um espanador de pó e um pano de chão com balde de desinfetante. Sabemos das maravilhas de trocar os móveis de lugar. E para os bem-nascido que estão arrepiados só de pensar na possibilidade de fazer uma limpezinha na própria casa (função da empregada), eu garanto: Não há nada melhor do que a sensação de que a gente pode limpar a própria sujeira, arrumar a própria casa, ser dono da própria vida. Digo isso, porque quem acredita que mexer com a sujeira da casa é serviço sujo para gente desprovida de conforto que tem que limpar a sujeira alheia para ganhar o próprio pão, acaba por se afastar do que a vida tem de mais concreto. Acaba se privando de viver todo e cada momento dessa vida, incluindo aí seus bônus e seus ônus.
Ninguém morre por arrumar a própria cama. Não se perde uma unha por lavar a louça do café uma vez na vida, ou mesmo dar aquela lavada no banheiro. A única coisa que você vai encontrar ao realizar estas atividades são os rastros de sua própria existência. Por que negá-los? Por que sempre delegar a outro a limpeza e ordem de sua vida – incluindo a necessidade de se livrar dos dejetos – a outra pessoa, como se isso fosse a nossa pior parte, a mais imunda, a mais abominável? Em muitos países, eu soube, não há o costume de se ter empregados em casa. No Canadá, por exemplo, me contou uma amiga que morou em Vancouver, só os muito ricos têm empregados. As pessoas normais dedicam-se a limpar suas casas, cuidar de seus próprios jardins, recolher seu próprio lixo, sem que isso seja demérito nenhum. Faz parte da vida. E é tão bom ter saúde e disposição para fazer isso.

Mas, voltando à beleza de uma bela faxina, para todos, de qualquer classe social, nível de escolaridade e faixa salarial, existe na realização da faxina uma possibilidade de encontro com essa nossa natureza humana. E quanto mais a gente se livra da sujeira, do excesso, do encalhado, mais a gente gera espaço na casa, no quarto, na vida. Quanto mais a gente joga coisa fora, mais a gente se renova. Vazio, a gente não vai ficar jamais. Liberando espaço, novas coisas vêm. Coisas boas, se a energia é boa. Gente boa vem. Coisas boas acontecem. E de repente, a gente se pega mais leve, mais feliz, mais otimista. O que era problema, agora se revela como parte da vida, percalços pelos quais a gente sabe que vai passar, mas se revolta quando finalmente eles chegam.



E na delícia de um fim de faxina – tem que terminar antes que o cansaço faça você desistir, embolar tudo e atochar num canto – sempre haverá um belo banho para nos restabelecermos. Ainda ao som da música companheira, você vai encontrar, eu tenho certeza, lá no fundo do espelho que te olha, um belo sorriso que te diz: Vale a pena estar aqui. A vida é bela. A vida é inusitadamente bela.
 

domingo, 2 de outubro de 2011

SERVIDORES PÚBLICOS: carta fora do baralho



Gente, eu sei que a gente só grita na hora em que o calo aperta e eu tenho que confessar que o meu apertou e por isso agora, eu vou gritar!

Foi com muita alegria (e estudo!!!) que eu passei no concurso pra Professora de Teatro da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Estabilidade no emprego, possibilidade de realizar meu sonho de viver com o teatro, interlocução com o interior, enfim, muitas alegrias.

Mas, descobri a duras penas que em tendo me tornado funcionária do estado eu fiquei impossibilitada de participar de todo e qualquer edital ou concurso promovido pelo meu empregador.

Aí eu fique pensando um pouco no sentido dessa proibição, assim, em toda e qualquer atividade e pensei que é possível a gente tentar fazer uma reflexão sobre essa proibição. Parece que é mais fácil copiar o parágrafo da proibição e colar, sem nem dar uma refletidazinha com a classe sobre o assunto. Ou será que já teve e eu perdi? Pode ser, né...

Primeiro porque as leis não são naturais - a não ser as leis naturais, obviamente - e elas devem servir aos interesses daqueles que a criaram, nós, as pessoas. Então, se em algum momento elas deixarem de fazer sentido da forma em que foram criadas, elas podem ser extitnas ou transformadas, certo?

Segundo porque a gente tem percebido que os artistas têm ingressado cada vez mais no funcionalismo público, quer por concurso, quer por Reda ou outros meios. Na área de educação, administrativa, enfim. A gente tem que comer, né, gente... Quantos estudantes recém formados em Licenciatura foram aprovados no concurso recente para professor de arte do ensino médio na Bahia? E aí? Não poderemos mais participar de edital nenhum? Porque felizmente nós  na Bahia (em Jequié e em Salvador) temos um perfil de licenciatura que dialoga muito com a prática artística, então muitos dos nossos professores de teatro são atores, diretores, artistas das visualidades, das musicalidades... artistas. Ponto!


Eu tava até me conformando com o edital de montagem, pensando em possíveis razões para essa inflexibilidade, porque é não poder participar de forma direta nem indireta, ou seja, eu não posso ser proponente e nem estar na equipe. Depois veio o edital de circulação. Eu não posso botar minha peça de novo em cartaz no projeto de verão e agora o que mais me doeu: eu não posso participar de um concurso de crítica, que pra minha carreira seria tão importante, por conta  do blog, por conta de meu trabalho como professora de dramaturgia e por conta do meu doutorado que é em recepção estética. Não posso! Não posso mais nada com a Secretaria da Cultura...

Eu gostaria, muito honestamente de entender os motivos, se alguém souber, pode escrever nos comentários. Será que é para evitar favoritismo? Mas o concurso de crítica é por pseudônimo... Será que é porque acham que encontramos um emprego TABAJARA  e nossos problemas acabaram e que com nosso salário dá pra viver e ainda montar um espetáculo? Será que é porque ... ou porque, ou ainda porque.... Eu juro que não sei. Quero ouvir o que vocês acham.

Gostaria de convidar a comunidade artística, os nossos gestores para debatermos um pouco mais sobre essa questão e sei que vão dizer, "Ah, só agora, né, porque não pode mais..." Mas me digam vocês, quem luta por mudanças é quem precisa delas, né não? Qual é o grande problema de nosso país se não o fato de termos secretários de transporte que não pegam busu?

Enfim. Tá feito o desabafo. Vou mandar um email para Nehle Franke, Albino Rubim, Elísio Lopes pedindo para abrir um debate sobre o assunto. Podemos ver como é o caso em outros estados e mesmo como acontece com os editais federais. Imaginem, Alam é funcionário federal e eu estadual, não podemos mais pleitear verba num mesmo projeto... Ele não pode no Minc e eu não posso na FUNCEB... Lascou.

Não precisa ninguém sugerir que a gente abra mão do emprego, tá gente... sem grosserias, por favor.


Pronto, desabafei. Gostaria de saber o que vocês pensam sobre. Vou aguardar ansiosa!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

BREVE espaço para o afeto

Ontem fui ver alguns amigos queridos no palco. É o espetáculo BREVE do diretor Thiago Romero e seu Teatro da Queda.

No começo estava bem empolgada com o clima que estava sendo construído com a plateia. Gostei muito da ambientação da sala de espetáculo, adoro linólio branco. Acho bonito. Só isso. Isso que é tanto e ao mesmo tempo tão pouco nesse universo de apreciação estética.

Achei a peça jovem. Talvez excessivamente jovem. Fiquei me perguntando por que os jovens fazem mais teatro que os maduros. Longas hipóteses e possibilidades.

O clima criado na peça me agradava e eu achava que uma experiência estética legal e descontraída estava sendo proposta ali. Por que não? Qual o problema nisso?

No entanto, a peça foi se redendo ao realismo e a um drama que eu julgo desnecessário. O que era uma promessa de um jogo entre elenco e plateia, tornou-se, ao apagar das luzes gerais, mais uma peça fechadinha, dentro de um jogo que se impunha mas foi abortado. E o teatro realista realizado no 'invés de' não foi suficiente para justificar a troca.

Acho que dava para ter radicalizado na proposta inicial. Ainda temos, como atores e diretores, medo dos riscos de envolver de fato a plateia no jogo cênico, e ficamos, na maioria dos espetáculos com interação, simulando uma participação do público, fazendo o público dizer aquilo que queremos ouvir, porque é mais seguro que ele nos diga isso.

Em vários momentos da peça, senti vontade de intervir, mas não havia no código criado ali espaço para minha interferência. Era como se dissessem: 'essa parte é teatro sério, não cabe sua participação'.

Queria dizer, por exemplo, que a cena do chilique de Duda Woyda não convence, por mais que os atores construam realistica e stanislaviskianamente a cena que era pra parecer verdade, mas que todo mundo sabia - eu acho - que era cena.

Eu já havia sentido esse mesmo incômodo com a peça que veio do Rio de Janeiro e que eu achei bem chata, com outro Duda, o Moscovski, a peça CORTE SECO. Um jogo pela metade. Um simulacro de jogo.

Eu sinto que a coisa de contar histórias pessoais, de infância, do cotidiano da casa viraram a cachaça da vez nos palcos brasileiros. Já vi isso em muita peças e eu mesma já fiz isso em Solo Compartilhada. Rastros do Teatro Essencial de Denise Stoklos. Mas, o modelo foi sendo reaplicado, sem mudanças, sem variações e sem críticas, talvez. Era lindo e poético quando era subversivo. Agora virou o padrão. E cá pra nós, nem todo mundo tem aquele tempo cênico de transformar lembranças em cena.

Mas, tem uma coisa HIGH TECH em Thiago Romero que eu gosto muito e tem uma vontade de fazer outras coisa que não teatro realista que eu acho louvável neste grupo. Se eles ainda estão engatinhando, que engatinhem, levantem e andem. De que serve pisar na cabeça da criança que engatinha?

Eu gosto da alegria e do colorido do projeto, desde a divulgação até o cenário, como já disse. Repito que o que me incomoda na peça é quando ela não confia naquilo que propõe e acaba por se trair, recorrendo a cenas realistas (e aquela coreografia modernosa que eu também não sou muito fã, mas enfim) como se estes recursos fossem necessários para legitimar aquela experiência como teatro.

Desde Arde que eu acho a poesia e memória da dramaturgia de Romero um pouco frágeis para serem levadas aos palcos. Gostaria, talvez, de ler seus textos. Mas, acho que ele pesquisa e experimenta e isso é coragem e vontade de fazer. Reconheço seu talento, sobretudo no campo da visualidade da peça. Adorei Córtex, que é muito visual. Acho interessante que Romero invista em atores que não são do circuito de queridinhos do palco soteropolitano que se contam nos dedos da mão. Acho que existe uma afetividade em seu trabalho, na equipe que trabalha com ele e isso pra mim, ainda é - e eu espero que seja sempre - fundamenal.

Quanto ao trabalho dos atores, acho que é difícil falar, porque eles operam num limite entre algo que poderia ser o espetáculo e o que ele acaba sendo. Como comentar sua performance? Do ponto de vista do desempenho na construção de personagens? Do carisma? Da expressão corporal? Mas também, o que podemos dizer de interpretações em época tão híbrida e de tantas provocações e possibilidades? Fica como qualidade, para mim, a disposição para tentar, para se descobrir. Só acho importante tentar fugir ao equívoco, à tentação de em considerando que se pode tudo, nada é nada. Se tudo vale, não tem porquê se esmerar em algo. Não que isso aconteça aqui, deliberadamente, mas em alguns momentos pode parecer um risco real.

Não acho que BREVE seja um acontecimento revolucionário do teatro, nem acho que era para ser isso. Acho que é um grupo experimentando uma linguagem, com coerência e dedicação. E não podemos negar que o Teatro da Queda tem um público cativo, sempre com casa cheia e isso não é pouca coisa. Talvez as críticas feitas à peça em outros espaços de análise não vejam como relevante o fato de se ter um teatro com temática ou estética jovem, adolescente talvez, levando gente ao teatro, mantendo jovens afeitos a um grupo específico servindo de importante entrada para o universo do teatro. Essa nossa mania de achar ruim tudo o que lota teatro, como se peça boa fosse peça para poucos.  Peça para os escolhidos, os iniciados, os especialistas, os bem dotados de intelecto e conceito. Coisa mais neoclássica (para não dizer cafona) impossível.

Acho que é isso.

Vejam bate-papo com THIAGO ROMERO, nosso primeiro entrevistado no DEZ MINUTOS COM... há algum tempo atrás. Tá lá no finalzinho da página. CLIQUE AQUI.

Acompanhe o blog do TEATRO DA QUEDA.


FICHA TÉCNICA

Concepção e Direção: Thiago Romero
Elenco: Duda Woyda, Guilherme Silva, Gustavo Nery, Karen Souza, Ricardo Albuquerque, Márcia Gil-Braz e Luiza Bocca
Figurino: Tina Melo
Cenário: Deilton José
Trilha: ZERO, Thiago Romero
Vídeos: Gustavo Nery